Capítulo cinco

4210 Words
Sarah parou com a mão na maçaneta. A única razão pela qual ela estava ali era Richard. E não poderia con­fortar a si mesma dizendo que Liam exagerava no pro­blema com Sonya. Mas fingir que era a namorada de Liam? Aos 15 anos, poderia ter tido esta oportunidade, mas desde cedo ela aprendeu esta pequena lição. Ser o foco da atenção de Liam, fingindo ser adorado por ele, era abrir as portas para a mentira e acabar acreditando nela. Ele poderia sair deste teatro completamente ileso. Mas ela não. E quem iria acreditar nisso? Os olhos castanhos se fecharam de preocupação. Não queria que as pessoas olhassem para ela e se perguntassem o que um cara como Liam viu naquela garota. Era a honra de Sarah que estava envolvida também. Liam era um cavalo de corrida e, depois da recente experiência com Greg, ela se sentia mais como um pequeno pangaré. — Ninguém iria acreditar que você está envolvido comigo. — Sonya acreditou. Ela estava zangada. — Liam gi­rou o lápis entre os longos dedos olhando para ela. — Você entrando nesta sala hoje estava inspirada. É a per­feita candidata. É a filha de Phillip e a irmã de Seb. Conheço você há anos. Está vivendo em minha casa. Na verdade, jamais uma mulher morou comigo antes. E perfeito. Aquilo estava se tornando algo perigosamente im­previsível. Ela se sentiu como se estivesse sendo sorvi­da — e havia muito pouco que pudesse fazer contra isso. —Não sou loura. E você só anda com louras. Liam a olhou admirado. — Ando? — Chrisse, Paulette, Rowena, e teve uma Stefi, isso que eu me lembre. Depois dessa foi a Imogen e então Tillie. Todas louras. E todas com no mínimo l,75m de altura. Você não acha que vai causar um pouquinho de alvoroço saindo comigo? Os olhos de Liam cerraram-se e o estômago de Sarah realizou sua habitual cambalhota. — Não sabia que você estava mantendo uma lista. — Não sou seu tipo — disse com uma ponta de de­sespero. — Mas é o tipo de garota que eu escolheria caso pro­curasse um relacionamento sério. Todo mundo vai acre­ditar em nós. É perfeito. — Não é. — É... — Shhhhh — disse Liam de repente, virando a cabe­ça em direção à porta. — Acho que é Bárbara. Podemos discutir isso mais tarde. Levantou-se e abriu a porta. Bárbara olhou perturbada. — Acabei de ver a senhora Laithwaite no corredor. Ela...? — Sarah rechaçou o inimigo com sucesso — brincou Liam. — Muito bem — respondeu Bárbara, mais relaxada. Ela foi se ocupar com o café, antes de puxar Liam para dentro do escritório. — Desculpe-me por não estar aqui. Não fazia idéia de que a senhora Laithwaite estava no prédio. Não sabia mesmo. — Sarah foi excelente. Na verdade, não poderia ter sido melhor. Bárbara serviu o café em uma bandeja de nogueira. — Bem, é um alívio. Certo, se você quiser vir comi­go, Sarah, mostrarei a você todas as minhas anotações e onde tudo está guardado. Sarah deu uma olhada em Liam que dizia que aque­le assunto estava longe de ter acabado. Liam era ultra­jante. Quanto mais pensava sobre aquilo, mais via que não era possível. Ele não podia realmente esperar que ela mantivesse a pose de namorada em frente ao padri­nho e outros convidados que conheciam muito bem seu pai. Além do fato de que ninguém, por mais débil que fosse, acreditaria que ele seria capaz de trocar Tillie por ela. E ela não era forte o bastante para a conse­qüente humilhação de entrar para a lista de ex namoradas do Liam — mesmo que seu coração saísse dessa ileso. Sarah tirou a bolsa do lugar e sentou-se numa pol­trona. Não poderia fazer isso. — Agora — disse Bárbara, trazendo uma alarmante pilha de arquivos — não temos muito tempo, então va­mos começar com este arquivo que peguei para você. Mantenha ele perto como se fosse sua Bíblia. Respon­derá todas as suas dúvidas. Uma hora e meia depois, com o café gelado ao seu lado, Sarah tinha de admitir que as anotações de Bárba­ra eram meticulosas. Tinha até um pequeno cartão com o nome das pessoas que Liam negociava com regulari­dade, junto a outras notas sobre preferências gastronô­micas. Tudo o que dizia respeito ao mundo de Liam estava organizado ali. Sarah sorriu para si mesma quando folheou "a bí­blia". Mesmo as cenas de Sonya estavam registradas ali. Liam provavelmente nunca saberia o quanto a se­cretária fez por ele. Apenas mais uma adorável mulher em seu fã clube. — Então, já pode lidar com isso? — perguntou Bár­bara olhando rápido para o relógio. — Acho que sim. Posso copiar as informações para o computador facilmente e você pode me deixar mais notas sobre todo o resto. — E Liam terá de ajudar você se tiver mais dúvidas — disse procurando pela grande bolsa bege. — Fiona também pode, claro, mas ela está um pouco nervosa agora. — Por quê? Bárbara hesitou. — Já que concordou em posar como namorada de Liam no fim de semana, penso que seria prudente men­cionar isso à equipe sênior da empresa. Concordar! Ela não tinha concordado. — Disse a eles que vocês estavam morando juntos agora, e que você tinha combinado ajudar no escritório enquanto estou fora — ela olhou um pouco consternada para a expressão do rosto de Sarah. — Ninguém vai acreditar que sou namorada dele. Não no lugar de Tillie. — Não vejo porque — disse Bárbara sem se explicar, pegando a bolsa. — É somente por duas semanas, no final das contas. Enquanto você estiver aqui. O que Liam disse é que esta é a solução ideal. Na opinião dele, pensou Sarah, irritada. Fingir ser a namorada de Liam era um passo muito grande. Isto era tão injusto. Dava vontade de gritar e de socar algu­ma coisa. Deliberadamente ele contou a Bárbara para obrigá-la a fazer aquilo. — Este número de telefone é o de minha mãe. Esta­rei lá caso você precise de mim. — Você vai estar por lá nas férias? — Não exatamente. Minha irmã está vindo do Ca­nadá pela primeira vez em oito anos, com o marido e os filhos. Nós teremos toda a família reunida. Se eu pudesse, teria postergado minhas férias até a festa de aposentadoria de Richard Laithwaite. — Ah. Bárbara olhou o escritório. — Bem, é isso. Vou pegar um vôo que sai para a Escócia esta tarde. — Sarah concordou. — Ligue-me se precisar de alguma ajuda. — Ligarei. Ela ainda hesitava. — Se precisar de um contato com alguém ligado à vida privada de Liam, você encontrará neste caderno de anotações na gaveta do lado esquerdo de minha mesa. — Como esta? — Sarah perguntou segurando a "bí­blia". — Não exatamente — disse, com um inesperado sor­riso brincalhão. — É um caderninho preto clássico. Aquilo era o fim. Tão logo Bárbara deixou o escri­tório, Sarah seguiu para o computador e abriu a gaveta. Debaixo de alguns papéis estava o caderninho de cou­ro. Ela folheou as páginas. Havia mais informação ali do que ela teria coletado em anos de pesquisa. "S: Stevenson, Paulette. Nascimento: 24 de maio. Gosta de sushi." Não havia muito mais que isso. Ou­tras entradas tinham bem mais informações, pois o rei­nado de Paulette tinha sido curto. Era um tanto imoral, mas ela não resistiu à tentação de uma rápida olha na letra R. "Rainford-Smythe, Tillie. Nascimento: 29 de outubro. Designer. Prefere platina ao ouro. Não come carne vermelha. Gosta de flores amarelas (trazem energia positiva para os am­bientes)." Ela teve vontade de acrescentar: "Deixei-a de lado. Quer compromisso com anel." Após uma pe­quena reflexão, Sarah achou melhor não escrever. Enquanto Liam se preocupava, Sarah estava cada vez mais confiante em seu novo papel. Sem esforço, retornava a ligação de um irado Sr. Fletcher, que exi­gia ser contatado na primeira hora após o fim de sema­na, conforme as informações confidenciais que Bárba­ra havia lhe deixado. Ela também tinha adquirido um novo respeito por Liam. Alguma coisa além de apre­ciar aquele brilho perverso em seus olhos azuis. Ela sabia que ele era inteligente. Tinha sido um "alu­no nota 10" sem muito esforço, como também saiu de Oxford no primeiro lugar da turma de filosofia da ma­temática, seguida de um doutorado. Coisa muito im­portante. Mas nunca prestou muita atenção ao quão bem sucedido ele era agora. Bastava um único conse­lho de Liam e as pessoas arriscavam milhões. — Está acabando? — Quase. Só falta terminar um texto. — Sarah olhou para ele com os dedos pousados sobre o teclado. — Vamos logo almoçar. — Não sei se terei tempo. Este trabalho exige um capataz que me mantenha acorrentada ao computador — brincou, esquecendo por um momento que estava zan­gada. — Levante-se! O capataz chegou — Liam brincou, indo até a mesa e fechando o arquivo do computador. — Você não sabe o quanto amo isso. — Sarah clicou com o mouse na tecla "salvar" e fechou de vez o docu­mento. Virou-se para ele com um olhar acusador. — Quer dizer que você pediu a Bárbara para espalhar rumores a nosso respeito? — Pedi. A franqueza de Liam a deixou sem reação. Estava desarmada. Foi difícil manter o momento de indigna­ção, mas continuou a se esforçar. — Então não estou autorizada a recusar? — Algo assim — admitiu, com as covinhas das bo­chechas aumentando, numa clara tentativa de segurar o riso. — Não é justo. — Não. Mas sou um homem desesperado — ele a le­vantou da cadeira. — Vamos almoçar. Posso argumen­tar contra todas as suas objeções. Se me dedicar a isso, verá que sou bastante persuasivo. Enquanto foi pegar a bolsa, Sarah o deixou esperan­do do lado de fora do escritório, alerta ao que aconte­cia entre a entrada e o fim do corredor. Ela quase podia ver os olhos curiosos nas frestas das portas tentando flagrá-los juntos por um instante. Era tão injusto. A situação causada por ele era tão difícil para Sarah que era impossível não se sentir cul­pada caso não colaborasse. Liam fez isso a vida inteira. Sempre fazia você achar que estava sendo insensata se não o ajudasse em seus planos. Mas não agora. Desta vez Sarah iria resistir. Sorrateiramente olhou para os cabelos negros con­tra a gola branca da camisa e imaginou os músculos que se escondiam sobre aquele sóbrio paletó. O que estava acontecendo com ela? Sabia que se apaixonar por Liam era ir longe demais. Era? Liam nunca se envolvia com ninguém. Era como uma criança dentro de uma loja de doces. Quanto mais balas, mais coisas para escolher. E você não poderia recriminá-lo. Parecia que mu­lheres se deitavam em sua frente pedindo para serem pisadas. Mas não ela. Nunca. Sarah queria um homem que quisesse ficar com ela de verdade. Alguém que estivesse junto dela para criar os filhos, até crescerem e chegasse a hora de saírem de casa. Ela não era imune ao charme natural, à gentileza e pureza e ao s*x appeal de Liam, mas Sarah sabia que ele não era o que ela queria. O que precisava. E para sua própria sobrevivência, não poderia deixar-se sedu­zir para ser abandonada em seguida. Não naquele mo­mento. Sabia que ele podia realmente feri-la. E, para falar a verdade, já tinha feito isso. — Onde estamos indo? — Depende do que você goste de comer. Qual tal um restaurante italiano? Chinês? Ou podemos ir ao Ichiro — sugeriu, mantendo a porta aberta para ela pas­sar. — É um novo sushi bar que acaba de abrir. Sarah olhou para ele criticamente. — Sabe, você deve gastar uma fortuna em almoços — desaprovou. — Gente comum come um sanduíche sen­tada ao ar livre. — Podemos fazer isso — sorria, enquanto a mão nas costas de Sarah a guiava pelo impressionante saguão da empresa. Ele parou um momento para dizer "Boa tar­de, Sangita" a uma mulher que estava trabalhando numa mesa. Sarah percebeu quando ela cochichou com uma colega assim que se afastaram. — Iremos aonde você quiser. Estou usando todo meu charme para você me ajudar, não lembra? Pelo menos ele admitia isso. Mas então aquilo tam­bém fazia parte de uma técnica. Ele te tranqüilizava com uma falsa sensação de segurança e então batia forte na boca do estômago. Não foi ele que a convenceu a datilografar a tese de doutorado? Nada mudou em to­dos aqueles anos. Os ensolarados dias de julho ofuscavam os olhos de Sarah, enquanto a fumaça dos carros deixava o ar mais pesado. — Vamos sair da avenida e ir para um lugar bonito perto daqui. Ele a levou por um labirinto de becos até chegarem a um pequeno pátio com mesinhas do lado de fora. — Você já conhecia este lugar? — perguntou, admi­rada com um restaurante em local tão inusitado. — Recentemente esta região começou a ser revita­lizada. Dei uma olhada no mapa e outro dia resolvi explorar a área. Aqui eles fazem as melhores baguetes com maionese que você já comeu. — Legal — disse sentando-me diante de uma das me­sinhas de ferro. — Gostaria de um copo de água gelada bem grande — ela o encarou e sorriu. — E já que você está usando seu charme, está pagando também? Só fa­lei nisso porque não tenho um tostão. Liam foi para dentro do restaurante deixando Sarah pensando em como estava se saindo no papel de na­morada. De qualquer maneira, não ligava muito para o que as pessoas do escritório iriam pensar, mas impor­tava saber o que era a vida real e o que imaginava que fosse real. O que o padrinho poderia pensar? E a mãe de Liam? Se a mãe dele visse aquilo, estaria encomen­dando o bolo de casamento antes que Liam pudesse voltar de lá de dentro. Ajeitou-se na cadeira e então sentou-se debaixo da sombra do guarda-sol, enquanto examinava de solsaio algumas nuvens suspeitas. A mãe de Liam provavel­mente seria a melhor linha de defesa. — Eles colocam um pouco de limão na água. Tudo bem para você? — ele perguntou ao voltar. — Tudo bem — deu um gole. — Oh, está gelada. Ótimo. — As baguetes vão chegar em um minuto. Agora — disse sentando-se diante dela — você pode gritar comi­go, se acha que vai ajudar. Sarah apreciou mais uma vez a beleza natural de Liam. Ele tinha aquele brilho em seus olhos azuis pro­fundos, a perfeita expressão de relaxamento no corpo sereno e sabia fazer revelações pessoais para criar empatia e convencimento. — Não posso fazer isso, Liam — disse simplesmen­te. — Nós conhecemos gente demais em comum. As notícias ao nosso respeito poderiam nos seguir o resto da vida. Isto seria h******l. Bebeu um gole da água gelada e esperou ele dizer alguma coisa. Mas não disse nada, apenas olhou atra­vés dela. Seus dedos se curvaram perdidamente em tor­no de um copo alto e ele ficou esperando Sarah não agüentar de curiosidade. Apenas esperando. — Já imaginou o que sua mãe diria? — ela deixou o dedo escorregar na taça molhada, fazendo trilhas entre as gotinhas de condensação. — Acho que ela diria que é o primeiro sinal de bom gosto que demonstro até hoje. Sarah procurou ver em seus olhos algum riso ou iro­nia. Mas não encontrou nada. — E quanto a Seb? Sua boca se contorceu um pouco mas respondeu calmamente. — É só uma festa. Por que ...? — ele interrompeu a frase no meio quando uma garota apareceu trazendo dois pratos. — Duas baguetes. Desculpe tê-los feito esperar. Sarah moveu seu cotovelo e a garçonete pôde colo­car o prato à sua frente. — Obrigada. — E uma para você — disse a Liam, com os olhos admirados. De repente Sarah teve vontade de rir. Se ele pudesse engarrafar seja lá o que for que tinha, ficaria rico. Chegava a ser ridícula a maneira como ele atraía mulheres, feito um imã. Sarah observou a garçonete ir embora e então vol­tou a falar com Liam. — Você pensa que estou sendo boba, não pensa? — É uma experiência muito salutar ter uma mulher que não quer sair comigo. Eu sei, Sarah, que você não quer voltar atrás agora. Você viu Sonya e até onde ela pode ir. Você não deve pensar que está salvando meu pescoço, mas faça isso por Richard. Sarah girou o prato de forma que o pepino ficasse do outro lado. Liam estava certo. — Você poderia destruí-lo se ele descobrisse que a mulher o está traindo comigo — disse com serenidade. Sabendo que Richard se sentia como um pai para Liam, ela não tinha dúvidas disso. Seria uma dupla traição. Em sua cabeça, via a mãe desabando na cozi­nha ao saber pela primeira vez que o pai a estava dei­xando. Ainda podia ouvir os soluços da mãe e sentir a própria fraqueza e incompetência em ajudar a mãe. Não poderia se sentar e não fazer nada pelo seu padrinho. .— De que forma as coisas poderiam ser ainda piores? — Liam perguntou, com os olhos firmes nos de Sarah. Era uma questão que ela não poderia responder ain­da. Não sabia realmente o que havia de mais h******l — apaixonar-se por Liam de uma maneira que não pu­desse controlar ou as pessoas falando a respeito daque­la situação. Sarah mordeu a baguete e deu a si mesma mais tem­po para responder. — Suponha — disse lentamente — suponha que eu não queira que todo mundo me considere sua amante. Se­ria humilhante. Sua resposta o surpreendeu. Ela poderia falar horas sobre a maneira que seus olhos se cerraram e cintilaram. — Impossível, você não é loura. — Você sabe do que estou falando. Não quero que as pessoas falem a meu respeito e o que você viu em mim. Por que você não usa seu livrinho preto de ende­reços e encontra alguma mais disponível? — Não tenho nenhum. — Você tem — disse com os dedos ainda brincando no copo. — Bárbara, a secretária perfeita. Ela mantém toda sua vida documentada e todos os contatos anota­dos — a testa dele se crispou em confusão e ela chegou a sentir pena. — Mostrarei a você quando voltarmos ao escritório. Só pensei que você poderia fazer melhor uso dele do que eu. Só isso. Liam voltou a se sentar e ficou olhando para ela. Sarah era diferente de todas as mulheres que conhecia. Podia se transformar em tantas coisas diferentes em um único segundo. Num momento, estava calma e di­vertida. No outro, estava irritada e defensiva. E era difícil de entender. Mas não agora. Nesta hora ele não tinha dúvidas do que ela estava sentindo. As formas pequeninas estavam sob rígido controle e os movimentos eram desconfortáveis e sem ritmo. Levan­do-se em consideração de que eram amigos e se co­nheciam há muito tempo, era estranho vê-la relutante em ajudá-lo na festa de despedida de Richard. Também era estranho o quanto ele a queria. Algu­ma coisa tinha se modificado nas últimas 24 horas, mas ele não conseguia vislumbrar. De alguma maneira Sarah tinha deixado de ser a irmãzinha de Seb e se metamorfoseado em uma mulher dona de si mesma. Ela era bonita. O cabelo curtinho, brilhante e escu­ro e os olhos castanhos lhe davam um ar de mistério que jamais teria imaginado. Ela conseguia ser familiar e ao mesmo tempo, uma desconhecida que ele gostaria muito de ser apresentado. Também tinha a mais baixa auto estima que já tinha observado — e que realmente o fascinava. Como poderia alguém tão brilhante e bonita quanto Sarah Winston se sentir tão m*l a respeito de si mesma? — Sarah — começou a falar carinhosamente, procu­rando no rosto dela sinais que lhe dessem uma porta de entrada para o que ela estava sentindo — não existe nin­guém melhor que você. Eu garanto. Somos amigos e preciso de sua ajuda. Ele acompanha o conflito de emoções que transtor­nava a face de Sarah. — Se eu for à festa de despedida... — Sim? — estimulou. — Poderia ser isso? Só uma noite? Ele sentiu a culpa se espalhar através do corpo. Esta­va envolvido com ela ainda mais depois que incentivou Bárbara a contar a Fiona que eles viviam juntos. Ele sabia que aquela informação poderia se espalhar, aqui e ali e antes do fim de semana, as novidades sobre seu rompimento com Tillie seria um assunto público. Quando chamou a atenção de Sangita, ao saírem do escritório, era porque queria que fossem vistos juntos. E Sarah já seria conhecida como sua nova namorada. — Preciso de você até que possa me livrar deste pro­blema com Sonya. — Mas quanto tempo isso vai demorar? Havia desespero na voz dela. Nunca antes vira Sarah tão m*l. — Depois da festa, ela e Richard vão sair de férias. Quando voltarem, Sonya não vai ter mais motivo para aparecer na Harpur-Laithwaite e direi de forma abso­lutamente clara que não quero nada com ela. Se preci­sar, vou ameaçá-la com uma interdição legal. — Vai funcionar? — Espero que sim. Com um pouquinho de sorte, não precisaremos chegar a isso. Sonya não pode pedir o divórcio a Richard. Ela tem gostos muito caros. Sarah encostou-se na cadeira e a sombra do guarda-sol escondeu o rosto. — Posso pensar um pouco sobre isso? — Realmente não, Sarah — disse com a culpa rachan­do o peito. Ele não podia ver a expressão do rosto agora, mas enxergava os dedos correndo pela borda do copo. — Você não me deixa muita escolha, não é? — Não. Sinto muito. — Então a boa e velha Sarah parte para o salvamen­to. É legal saber que sirvo para alguma coisa. O sarcasmo escorria de sua voz. Liam mexeu a ca­deira e então a viu claramente. — Por que você disse isso? — Por nada. — Foi por alguma coisa sim. Por que você fala de si mesma dessa maneira? — Seus olhos baixaram mais um pouco. — Quem te magoou, Sarah? — Por quê...? — Alguém te magoou. Devo ter esquecido isso. Foi aquele homem no Natal...? Ela balançou a cabeça, os cabelos escuros dançan­do. — Greg. Não, ele não fez nada. Ao menos nada, importante. Aquilo parecia importante. Ela a fitava. Via o jeito dela mexer na bainha da saia, o nervosismo nos lábios. — Conte-me. — Sobre Greg? Ele assentiu. Seus dedos contorciam a bainha da saia de novo. — Não há muito a dizer. Nenhuma grande história. Ele encontrou alguém de quem gostou mais do que eu. Só isso. — Alguém que você conheça? — Não — os olhos castanhos o miravam. — Só al­guém mais interessante, mais excitante. Para onde os homens normalmente se dirigem. De qualquer manei­ra, é caso para se criar um problema? O fato é que Greg me traiu e então me dispensou porque não tinha mais interesse em brincar de namorar comigo. Ou... Ela parou e bebeu um gole de água. Liam não ousou interrompê-la. Permaneceu pacien­temente sentado e esperou. — Acho que é tudo — disse finalmente. — Não queria a simpatia de ninguém. Ou ser assunto de conversas. Não gostava das pessoas me olhando na rua e fazendo fofoca a meu respeito. — E como você se vê? Como alguém que as pessoas vão trair? — perguntou francamente. — Não. Claro que não. — Mas você não gosta de falar a respeito? Sarah mordeu um pedaço da baguete e comeu. Liam suspeitava que era apenas um jeito dela não ter de res­ponder a pergunta. Empurrou o prato vazio para o lado e disse: — Então você sabe que as pessoas vão falar a nosso respeito e que não estamos juntos há muito tempo? Os olhos castanhos de Sarah o fitaram mais uma vez. — Isso pode ser facilmente resolvido — decidiu Liam. — Você pode me dispensar — ele bebeu o último gole de água. — Vamos deixar que todos saibam que eu sou um sujeito vulgar e sem caráter como você realmente pen­sa que sou. Vou manter uma aparência de homem aban­donado e desiludido ao menos pela próxima semana. Ajuda? Sarah soltou um risinho. Ele segurou a mão dela. — Temos um acordo? — Três semanas de coração partido — ela exigiu. — No mínimo. — Duas. — Duas. — Sarah concordou, deixando sua mão na dele. — E você vai ter de contar à sua mãe. Liam deu uma risada. — Aceito. Você já acabou de comer a baguete? — Já. — Então vamos voltar ao trabalho — esperou que ela se levantasse e então segurou-a pela braço. — Sabe, não posso deixar que isso tudo te magoe. Os olhos ternos de Sarah se encheram de lágrimas e Liam também se emocionou. — Sei que você está fazendo o melhor possível, mas ainda espero que possa encontrar outra pessoa para fa­zer isso. — Do meu "caderninho preto"? As lágrimas desapareceram numa risada meio soluçante. — Deixa pra lá. Vamos voltar para o serviço. Ele concordou e seguiram juntos para a Harpur-Laithwaite. Sarah olhava discretamente para ele e ria consigo mesma. Como ela sempre fazia o que ele queria? Aquilo deveria ser irritante, mas ela não achava realmente. De­pois da performance de Sonya naquela manhã, não tinha mais dúvidas que ele precisava dela. Além disso, podia ser útil de alguma maneira seus amigos imaginarem que ela dispensou Liam. Isso mexia com o senso de humor dela.
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