um homem bonito porém malvado

1018 Words
Amélia Já fazia quase três semanas desde que começamos a trabalhar no restaurante Casa Aram, e aos poucos eu estava me acostumando com o ritmo. Ainda sentia meu coração disparar cada vez que o gerente me chamava pelo nome, mas não tropeçava mais nas bandejas e, para a minha própria surpresa, até me lembrava do número das mesas sem precisar consultar a planta do salão. Laís, claro, já era querida por quase todos. Sabia o nome dos clientes mais ricos, dava risadinhas para os garçons charmosos e estava sempre maquiada, mesmo depois de um turno de doze horas. Ela brilhava. Eu apenas tentava não ser notada. E estava funcionando… até ele aparecer de novo. Até começa meu pesadelo com um rosto bonito. Tudo começou numa quinta-feira nublada. O restaurante não estava lotado como de costume, o clima abafado parecia ter espantado os clientes. Eu ajeitava os talheres de uma mesa próxima à janela quando senti uma presença atrás de mim. Uma sensação pesada, sufocante. Virei devagar, já com o coração acelerado — e o vi. O homem da bandejada. O mesmo que, dias atrás, me agarrou no salão e me chamou por um nome que não era meu. O mesmo homem para quem acertei uma bandeja na cabeça por puro instinto de sobrevivência. Eu esperava nunca mais vê-lo, mas ali estava ele… parado, impecável num terno escuro, sem qualquer vestígio da agressão. Só os olhos cinzentos, tão frios que queimavam. Congelada, apertei o pano entre os dedos e tentei manter a postura. O coração martelava no peito. — Boa tarde — ele disse, com um leve sotaque que eu não conseguia identificar bem. Russo, talvez? A voz era grave e baixa, como um trovão distante. — Posso ajudá-lo? — consegui perguntar, com a voz embargada. — Vim pedir desculpas pela outra vez — ele disse, sem tirar os olhos de mim. — Confundi você com alguém que conheci. Foi um erro… lamentável. — A propósito meu nome é Maxin Sokolonome é um prazer te conhecer, ele fala estendo a mão para mim. Senti minha garganta secar. Cada palavra parecia cuidadosamente medida, como se escondesse algo por trás de uma cortesia perigosa. Ele continuava me observando como se estivesse estudando uma peça rara, procurando rachaduras invisíveis. — Meu nome é Amélia, falo apertando sua mãe com cuidado e digo. — Aceito o pedido de desculpas… mas não posso conversar com clientes. Estou trabalhando — murmurei, tentando encerrar ali. — Entendo. Trabalhe. Eu só… queria ver você de novo — disse com um sorriso discreto, mas que não chegou aos olhos. Depois, calmamente, ele foi se sentar numa mesa do fundo. Minha respiração só voltou ao normal quando o perdi de vista. Corri até a cozinha, largando o pano na pia, tentando me recompor. Rebeca, uma das garçonetes mais antigas, me olhou de lado. — Tá tudo bem, Amélia? — Um cliente estranho. Achei que fosse me reconhecer… mas me confundi — menti. Ela deu de ombros. Talvez estivesse acostumada com homens esquisitos. Talvez eu estivesse exagerando. Mas algo dentro de mim gritava que aquele homem era perigoso. Não consegui trabalhar direito, tropeço, derrubo pratos, entrego pedido errado, não consigo me concentrar com ele me olhando, Naquela noite, quando o restaurante fechou, ele ainda estava lá. Esperando. Apenas me observando enquanto colocava as cadeiras sobre as mesas, como se fizesse parte do ambiente. Saí pela porta dos fundos com Laís, fingindo calma, mas olhando por cima do ombro o tempo todo. — Que cara bonito — disse Laís, me cutucando. — É aquele que você bateu com a bandeja? Se for, você devia bater mais. Ele voltou melhor ainda. — Ele me assusta, Laís. Tem alguma coisa errada com ele. — Ou você que tá vendo coisa demais. É só um cara tentando flertar do jeito mais esquisito do mundo. Vai ver achou você parecida com alguma ex-namorada… — Espero que você esteja certo Laís, porque ele me apavora seu olhar me da medo. Falo ainda olhando envolta com o coração batendo forte. Eu queria acreditar nisso. Mas os dias seguintes só confirmaram o contrário. Ele começou a aparecer no restaurante todos os dias. Às vezes pedia apenas um café. Outras, jantava sozinho em silêncio. Sempre na mesma mesa, sempre me observando. Nunca me tocou novamente. Nunca falou alto. Nunca sorriu de verdade. Mas estava lá. Presente como uma sombra grudada em mim. E então vieram os encontros fora do trabalho. No sábado, fui até a farmácia na esquina comprar absorventes e um remédio para dor de cabeça. Quando saí, ele estava encostado num carro preto, fumando. — Está se cuidando bem, Amélia? — perguntou como se fosse alguém próximo, íntimo. — Você está me seguindo? — disparei, com as mãos tremendo. — Só estou me certificando de que está segura. — Eu não estou segura se você estiver por perto! — gritei, a voz saindo trêmula, quase histérica. Ele me encarou por um segundo. Depois apagou o cigarro, calmamente, e entrou no carro sem dizer mais nada. Corri de volta para o alojamento. Tranquei a porta. Tranquei a janela. E chorei. Na semana seguinte, troquei meus horários no restaurante. Pedi para trabalhar de tarde, depois pela manhã. Tentava não sair sozinha. Comecei a usar óculos escuros, roupas largas. Fiz tudo para não chamar atenção. Mas ele sempre me encontrava. E quando nossos olhares se cruzavam, o medo voltava como um raio no estômago. Eu não sabia quem ele era. Não sabia por que estava tão obcecado por mim. Mas uma coisa eu sabia: aquilo não era paixão. Era posse. Era uma fixação perigosa, como um gato brincando com um passarinho ferido. Ele era bonito, sim. Com seu rosto de homem maduro, seus olhos intensos e postura elegante. Um homem de aparência refinada, que poderia passar por qualquer empresário rico, cultíssimo. Mas eu tinha visto o que havia por trás daquele charme superficial. A crueldade nos gestos. A dureza nas palavras. O controle no olhar. Ele era um homem bonito… porém c***l. E estava me caçando como predador implacável, eu não iria sobreviver as suas garras. Eu tinha que fugir.
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