Capítulo 1
✧ Luiza✧
Quem bate esquece, quem apanha não.
Depois da sequência de murros que levei, Heitor saiu para a rua, como sempre faz. Aposto que foi direto para a casa de alguma amante. Viver com ele está ficando cada vez mais difícil. Eu ainda o amo, mas, como minha mãe sempre dizia, "amor que machuca sai pela janela".
No início, Heitor era carinhoso. Estava sempre ao meu lado, me mimava, me fazia sentir especial. Mas depois que se tornou o dono do morro, o poder subiu à cabeça e o transformou em outra pessoa. Agora, quase todos os dias, eu apanho sem ter feito nada para merecer, e não posso me defender. Ele se tornou o tipo de homem que manda flores de manhã e bate à noite.
Quando ele sai, só volta lá pelas três ou quatro da madrugada, com aquele perfume barato de vagabundas impregnado na roupa. Eu sei onde moram todas as amantes dele, mas, assim como as outras mulheres de traficantes, não posso fazer nada. Como ele mesmo diz: "A mulher do chefe não deve perder a postura de patroa." Acho isso ridículo. Eu, a esposa, não posso perder a postura, mas ele pode me trair como bem quiser, se achando o rei do morro.
Heitor tem três filhos com uma das amantes. Quando descobri, fiquei destruída. Sempre quis ser mãe. Nas quatro vezes que engravidei, aquele desgraçado me bateu até eu perder os bebês. Entrei em depressão. Não vou mentir dizendo que me recuperei, porque ainda tenho minhas recaídas. Algumas feridas nunca cicatrizam.
Fugir? Já pensei nisso mil vezes. Mas ele me encontraria até no inferno. Sei que sou tola por continuar aqui, mas uma hora a casa dele vai cair. Estou só esperando o momento certo, um deslize, e aí as coisas vão mudar. Vai me trair? Vai levar chifre também. Vai me bater? Vai apanhar também. Porque minha mãe não me criou para ser saco de pancada. Eu deveria ter acordado para a vida antes, mas agora vai ser olho por olho e dente por dente, até esse canalha pagar por tudo que me fez.
Saí dos meus pensamentos com o telefone fixo de casa tocando. Corri para atender. Vai que é uma emergência?
— Alô? — falei assim que atendi.
— Ah... amor, me fode, vai, seu gostoso! — ouvi a voz de uma mulher do outro lado.
— É p*u que você quer, cachorra? Então você vai ter — a voz do Heitor veio em seguida.
Desliguei o telefone na mesma hora, xingando ele de todos os nomes possíveis, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. A humilhação é constante. Ele parece sentir prazer em me ver humilhada, em me pisar como se eu não valesse nada.
Mas dessa vez não vou chorar. Vou revidar. Vou dar meu desprezo na primeira oportunidade. Ele vai ver que eu não sou qualquer uma. Heitor não suporta ser desprezado, principalmente por mim. Pode receber indiferença de qualquer um, mas quando sou eu que o ignoro, ele faz de tudo para consertar as burradas que comete. Eu vou bater onde mais dói.
Dói muito. Ele foi meu primeiro homem em tudo – no beijo, no sexo, em cada descoberta. Então, cada agressão é como se arrancasse um pedaço do meu coração. Parece drama, né? Mas não é. O jeito que eu preciso dele é intenso, quase doentio, talvez por dor, talvez por gratidão. Mas amor? Não sei se existe mais. Talvez um pouco, bem lá no fundo, por tudo que vivemos juntos, mas eu sei que esse sentimento está morrendo dia após dia.
A lei do morro é clara: mulher de traficante só pode se envolver com outro homem se o marido morrer ou se ele cansar dela. E mesmo assim, tem que esperar três meses para não ser considerada desleal. Caso contrário, a punição é severa – ou morte ou perde todo o cabelo.
Eu vejo essas meninas novas, de 15, 16, 17 anos, se metendo com homens casados, querendo ser patroas, achando que vão ter uma vida de luxo e status. m*l sabem o inferno que é ser mulher de traficante. Eu sou a prova viva disso. Eles só querem a fama e o luxo, mas quando o cara é preso, quem é que sustenta cadeia? Quem é que se ferra? Nunca são as amantes, sempre somos nós, as mulheres.
Quando Heitor foi preso, eu disse a ele que não ia sustentar cadeia para macho. Que procurasse as vagabundas dele para isso. E adivinha? Nenhuma apareceu. E quando ele saiu, veio com aquele papo de mudança, de que ia ser diferente. Na primeira oportunidade, voltou a ser o mesmo canalha de sempre. Essa vida cansa, e quando eu cansar de verdade, ele vai sentir.
Acreditar nas promessas dele foi o meu erro. Eu acreditei que nosso casamento seria como nos filmes, como os contos de fadas. No começo, era. Ele me fazia sentir como se eu fosse a mulher mais amada do mundo. Mas agora, esse conto se transformou em pesadelo.
É fácil para os outros dizerem que eu deveria só pegar minhas coisas e ir embora. Mas eles não sabem o que é viver com um traficante. Não é tão simples assim. O preço de sair dessa vida pode ser muito alto.
E o que mais me revolta é ver essas meninas novas brigando por macho, achando que vão aguentar a pressão. Elas querem a fama de patroa, mas não aguentam nem metade do que uma mulher de verdade passa nessa vida.