01
Dante Narrando
O barulho das grades fechando era uma coisa que eu nunca consegui me acostumar. Cinco anos. Cinco anos ouvindo ferro bater contra ferro, chave girar em fechadura e passos de homem armado ecoarem pelo corredor. Cinco anos acordando sem saber se aquele seria um dia tranquilo ou se algum filho da p**a resolveria descontar em mim a raiva que carregava da vida. Ali dentro, nome não valia nada. Ou melhor, valia tudo. Principalmente quando o nome era o meu. Dante. Para alguns, apenas um preso. Para outros, um número. Para os carcereiros, um problema. Para quem conhecia a Penha, eu era outra coisa. O Rei. E dentro daquele lugar, ser chamado de Rei não significava ter poder. Significava ser alvo. Preso de nome não tinha descanso. A revista era mais pesada. As provocações eram constantes. Qualquer discussão podia virar uma desculpa para cinco homens entrarem numa cela e fecharem a porta atrás deles. Eu sabia disso desde o primeiro dia. E nunca abaixei a cabeça. Talvez esse tivesse sido meu maior erro. Ou talvez tivesse sido exatamente por isso que eu ainda estava vivo.
Fazia três dias que eu tinha saído da solitária. Ainda sentia o corpo reclamar a cada movimento. O lado esquerdo das minhas costelas doía quando eu respirava fundo. O ombro direito parecia ter sido arrancado do lugar. Minha boca ainda tinha um corte que insistia em abrir quando eu comia alguma coisa mais dura. Naquela semana, eu tinha aprendido que cinco homens podiam transformar alguns minutos em uma eternidade. Cinco carcereiros. Cinco contra um. E mesmo assim, nenhum deles conseguiu me fazer pedir desculpas. O motivo? Um deles tinha me acertado primeiro. Eu apenas devolvi. A diferença é que eu não parei quando ele caiu. Não porque gostasse de violência. Mas porque, depois de tantos anos naquele lugar, eu já tinha aprendido uma regra simples, se você deixa alguém acreditar que pode bater em você sem consequência, a próxima vez vem pior. E eu não era homem de esperar pela próxima vez.
O problema foi que, ali dentro, eles eram a lei. Então me levaram. Solitária. Sem água direito. Sem comida decente. Sem contato com ninguém. E depois vieram os cinco. Não precisei perguntar por quê. Eu sabia. Era uma mensagem. Queriam que eu entendesse que, atrás das grades, eu não era o Rei de merda nenhuma. Só esqueceram de uma coisa. Eu não precisava de um morro para continuar sendo quem eu era.
— Devagar, Rei.
Olhei para o homem sentado do outro lado das grades. Era um dos poucos que ainda falava comigo sem medo. Não porque fosse corajoso. Mas porque já estava ali há tempo suficiente para entender que, naquele lugar, amizade era uma das poucas coisas que mantinham um homem inteiro. Minha cela era individual. Alta periculosidade. Isolamento. Acompanhamento reforçado. Tudo muito bonito no papel. Na prática, eu tinha passado cinco anos aprendendo a dormir com um olho aberto. Os caras da cela ao lado ajudavam como podiam. Um pedaço de pão. Um remédio escondido. Uma garrafa de água. Informação. Às vezes, só conversa. E, depois daquela última surra, aquilo tinha valido mais do que qualquer visita.
— Tô bem — respondi.
— Você chama isso de bem?
Olhei para o meu braço. — Já estive pior.
Ele riu baixo. — Você é maluco.
— Já me disseram isso.
Me sentei na cama estreita. O colchão era tão fino que parecia uma folha de papel sobre concreto. Passei a mão pelo rosto. Cinco anos. Cinco anos naquela merda. E, ainda assim, havia dias em que eu acordava esperando ouvir a voz do Theo. A lembrança veio sem pedir licença. Meu filho. Doze anos. Quando entrei ali, ele tinha sete. Sete. Uma criança. Agora já devia estar quase do meu tamanho. Talvez tivesse mudado o cabelo. Talvez tivesse perdido aquele dente da frente que vivia balançando. Talvez ainda dormisse abraçado ao mesmo travesseiro. Eu não sabia. Não sabia porque não estava lá. E isso era uma coisa que eu carregava todos os dias.
Theo tinha sido meu filho antes mesmo de aprender a chamar alguém de pai. Eu o peguei no colo quando ele tinha um ano. Pequeno demais. Assustado demais. E desde aquele dia, ninguém mais tinha tirado aquele moleque de mim. Até a cadeia. Até o Estado decidir que eu podia ser arrancado da vida dele. Eu aceitava muita coisa. Mas aquilo... aquilo ainda doía.
Meu celular começou a tocar. Número conhecido. Olhei para a tela. Mexicano.
— Finalmente — murmurei.
Atendi.
— Qual foi?
A voz do meu irmão veio do outro lado.
— Não encontrei ninguém.
Franzi a testa.
— Então não precisa mandar ninguém.
— Aí você vai ficar sem suas coisas.
— Não ligo.
— Dante...
— Não quero ver a cara de nenhuma dessas marmitas do morro.
Silêncio. Eu conseguia imaginar exatamente a cara dele. Provavelmente estava encostado em algum carro, com aquele sorriso de filho da p**a que sempre aparecia quando sabia que estava me irritando.
— Você está muito exigente pra quem está preso.
Soltei uma risada curta.
— E está muito audacioso pra quem me conhece.
— Dante, até mais tarde confirmo se arrumei alguém ou não.
— Esquece isso. Fé!
Desliguei.
Fiquei olhando para o aparelho por alguns segundos. Mexicano tinha o dom de me irritar. Mesmo estando lá na p**a que pariu. Eu sabia o que ele estava tentando fazer. Sabia que ele achava que eu precisava de alguma distração. Uma mulher. Uma visita. Qualquer coisa que me fizesse esquecer onde eu estava por algumas horas. Mas eu não queria. Não daquele jeito. Não aquelas mulheres. E não porque fossem mulheres. Era porque eu conhecia aquele jogo. Elas vinham. Faziam o que tinham que fazer. Recebiam o dinheiro. Voltavam para o morro. E, na semana seguinte, outra aparecia. Sempre as mesmas caras. As mesmas histórias. As mesmas intenções. Eu já estava cansado. Se o Mexicano insistisse em mandar alguma mulher sem minha autorização, eu seria capaz de mandar acabar com a visita no mesmo segundo. Não precisava de ninguém entrando ali para me lembrar que eu estava preso. Eu já sabia. Todos os dias.