Capítulo 2

1617 Words
Annabeth 2 anos atrás. Atravesso a rua com pressa, sem tomar os devidos cuidados para não ser atropelada. Uma vozinha ruidosa sussurra ao meu ouvido que seria melhor se eu fosse de fato atropelada, mas seria fácil demais. Os cabelos soltos do meu r**o de cavalo atrapalham minha visão, sei que atravessei em segurança, mas eu não estava preparada para esbarrar em alguém e cair nesse processo. — Minha nossa! Me desculpa! — Ele diz com a preocupação e euforia a flor da pele. Me viro, me sentando no chão. Ignoro os olhares curiosos e foco em gritar com o i****a. — Você não olha por onde anda?! — Olha, foi você quem bateu com tudo mim. — Eu? Eu estava apressada não cega. Ele estende a mão, um convite claro e recusavel. Eu me levanto sozinha sem esforço. Minha palma está ardendo, mas ignoro a sensação de fogo na palma da mão. — Vamos esquecer isso, eu já me desculpei agora só falta você. — Eu? Me desculpar?! — Sim — ele cruza os braços sob o peito —, sua mãe não lhe deu edução, por acaso? O sangue que já estava fervendo em raiva entrou em colapso. As palavras que se saíram foram ruidosa e eu sabia, bem lá no fundo, em um canto quase inexistente, que eu estava exagerando, mas não escutei essa voz tão irritante. — Eu não vou pedir desculpas, eu não vou sequer lembrar que um dia cruzei o mesmo caminho que você. — Dou meia volta e volto, com a raiva ainda vibrando em meu corpo, a correr em direção ao estúdio. Correr como uma i****a não foi o suficiente para chegar a tempo. Homer, meu professor de balé, viu exatamente quando eu entrei no estúdio. Atrasada e suada e exausta. — Está atrasada. — Eu sei. — Eu sei que sabe, agora eu me pergunto o que vai fazer quando estiver em uma companhia que requer compromisso. Acha que eu vou desperdiçar meu tempo com alguém que não quer ter compromisso?! — Ele está se alterando, a voz saindo alta e furiosa. — Eu sei que não, senhor. Eu realmente... — Realmente o quê? Segura as lágrimas, não deixe que ele as veja. — Anna, eu não posso permitir que alguém que não tem compromisso atrase o processo de quem quer ter um futuro na dança. — Eu amo dançar, Homer, por favor...por favor — as lágrimas não precisaram de consentimento, elas simplesmente rolaram em cascata pela minha face. —, por favor, eu sou capaz de fazer isso. — Seu amor não é o suficiente, querida. Procure outro curso, algum que não se importe com falta de compromisso. — Ele me dá as costas e sobe as escadas de madeira escura que levam ao estúdio. Para trás ele deixa os cacos e as lágrimas, as minhas partes todas desmontadas, em caos completo. Recolho tudo, mesmo que não seja muito e saio dali. Ando por minutos a fio. O sol no início estava quente e me sufocando, me queimando de fora para dentro e agora está mais frio. Ando por tempo demais. Cada passo uma lágrima, cada passo um caminho incerto. Se ele tivesse ao menos me deixado explicar, se ele tivesse esperando minhas explicações. Ah, a quem eu quero enganar. Ele não ia escutar, ninguém quer ouvir sobre a mãe depressiva e a irmã doente de uma garota. Ninguém quer saber se ela conseguiu dormir durante a noite, ou se ela comeu alguma coisa durante o dia. Ninguém se importa com pessoas miseráveis. Quando moto onde estou é quase como se fosse obra do destino. Uma enorme ponte sobre um dos maiores viadutos da cidade. Olho para os metros abaixo. Não teria como escapar, caso alguém pule, não teria como sobreviver a queda. De repente, levada pelo caos tortuosos em meu peito, estou ao parapeito, cogitando passar as pernas pelo corrimão e pular. — Não dá para morrer. — Uma voz masculina soa e em algum lugar da minha mente ela soa familiar. Me viro para ele e me surpreendo ao ver o i****a que esbarrou em mim mais cedo. — Se pular, o máximo que vai acontecer é você quebrar vários ossos, o que vai te matar, talvez, são os carros. — Ele olha para baixo, para os fantasmas de luzes correndo pela estrada. — Não vale a pena, sabe? Ele se aproxima, cada passo firme e rápido demais. De repente, está de frente para mim, a centímetro de distância. — Vem, eu vou te levar para comer alguma coisa. Ele segura a minha mão e me leva, para onde? Não sei, não me importo. Ele me impediu de cometer um erro. Ele me impediu de matar minha mãe e irmã. O i****a que eu pedi para nunca voltar a ver me salvou e eu me sinto mais i****a do que nunca. Ele me encara com os grandes olhos caramelo. O cabelo acobreado é quase ruivo e quase loiro, sem ser uma das cores de fato. A bochecha está contraída e os olhos finos devido ao sorriso empático em seus lábios. Ele me deu comida. Muita comida. Quando entramos na lanchonete eu achei que um cachorro quente seria o suficiente, mas ele pediu demais. Dois sanduíches grandes de recheio variado, batata frita, coca diet de cereja e onion rings. Quando eu comecei não consegui parar. Cada mordida antecedia a outra, cada vez mais minha boca e estômago se enchiam e só então descobrir que estava mais faminta do que pensava. Ele está calado, apenas observando. Limpo a boca com o guardanapo e engulo o que tenho na boca antes de falar. — Eu não ia pular. — Você ia sim, mas tudo bem. Franzo o cenho. — Tudo bem? — Sim, não tem como estarmos felizes o tempo todo. A vida é sobre sofrer, amar, se curar e então ser feliz, se não for assim não é a vida. Por um lado faz sentido, pelo outro acho que ele é maluco. No entanto, ele está aqui, tranquilo e pronto para me ajudar. Caramba, eu fui uma i****a mais cedo e assim ele está aqui. — E quem não tem amor e não sabe se curar? Como que alguém consegue ser feliz assim? Ele pensa por alguns minutos e eu aproveito para terminar meu sanduíche. Está tão bom, na verdade, não me lembro a última vez que comi algo tão delicioso. A carne é processada, mas bem feita, os vegetais estão frescos e crocantes, banhados em uma maionese de ervas, o ovo está com a gema mole — do jeitinho que eu gosto — e o presunto é de qualidade , diferente da mortadela de terceira que compramos lá em casa. — Está tão difícil assim? — Hum? — Eu olho para você e vejo alguém que tem calor, alguém cujo a alma dança. Então por quê? Conto a ele tudo, todo o caos da minha vida é jorrado para fora com um banho de lágrimas e mais uma porção de fritas. Quando termino, me pergunto se sou feita de aço para suportar tudo isso sozinha. Encaro o rosto dele, esperando a aversão, a ruindade e as risadas, mas o que encontro é ainda pior. Ele está chorando. — Podemos fazer um acordo? Franzo o cenho em confusão. Um acordo? Estava muito bom para ser verdade. — Que tipo de acordo? — Pergunto receosa do que vou ouvir. — Você promete tentar mais uma vez e eu prometo não sair do seu lado, o que acha? Uma loucura. Uma viagem com uma erva bem forte. Esse cara é mesmo louco. — Eu nem conheço você. Ele estende a mão para mim em cumprimento. — Sou Jean Marccello, estudante de literatura na classe sênior da Harvard College. Harvard,é? Ok, talvez ele não seja maluco, só alguém cujo o coração é muito bom e é louco o suficiente para ajudar uma estranha cheia de problemas. Aceito sua saudação apertando sua mão de volta. — Eu sou Annabeth MacAizen, é um prazer. — Pronto, agora você aceita o acordo. — Eu não, você é maluco. — Era você quem ia pular daquela ponte e eu sou o maluco? — É , você tem razão, nos dois somos malucos, pirados e dignos de uma vaga em uma clínica psiquiatrica. Ele balança a cabeça em afirmação. — Mas, quem disse que ser maluco é r**m? As melhores pessoas são meio malucas. — Ele diz,pegando uma baratinha no processo. — Agora você tá citando Alice no Pais das Maravilhas para mim, você tem doze anos por acaso? — Dizem que em idade mental eu tenho dez, mas não se preocupe, sou mais velho que você. Estreito os olhos antes de chamá-lo de idoso. É legal discutir com ele e essa voz, a leveza da conversa e os sorrisos cheios de uma empatia que nunca vi de alguma forma preencheram o vazio. E eu m*l sabia que naquela época, aquele garoto i****a de me derrubou em um encontro não planejado, que me encheu de raiva e me fez "soltar os cachorros" iria se tornar meu melhor amigo e aquele que faz minha vida um pouco melhor. É claro que as tragédias, como a morte autoinfligida de minha mãe, a piora no estado na saúde de Liz, minha entrada para o mundo oculto das meretriz. Nenhum de nós previu isso, mas de alguma forma, uma forma mais feliz e saudável, Jean se tornou algo semelhante a um irmão, para mim. Que ele nunca saiba, mas ele foi uma das melhores coisas que aconteceu em minha vida e eu não mudaria nada, só para poder tê-lo conhecido. Se ele perguntar, não fui eu quem disse isso.
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