Capítulo 1
Annabeth
O telefone toca em algum lugar do quarto. Pelo toque, Alas da trilha sonora de Soy Luna, sei que Liz está me procurando. Quando foi a última vez que falei com ela? Bem, no Natal, eu acho. Mas a questão é que não posso atendê-la, não quanto estou trabalhando.
Com o rosto virado para a janela, sentada na cama do cliente, nua e com a pele fria, encaro os prédios vizinhos. Eu me pergunto, todas as noites em que passo nas mãos de estranhos, o porquê de eu ainda aguentar isso. Essa depravação, a imoralidade, a sensação de estar suja quando termina. Bem, eu tenho meus motivos. Tenho que me lembrar e relembrar quais são eles toda vez que tenho que abrir as pernas.
Uma movimentação na cama e o espreguiçar dele me deixam alerta. A voz rouca sooa em um gemido de protesto. Respiro fundo, tentando engolir a sensação de ansiedade em meu corpo.
— Bom dia, gatinha.
Com meu melhor sorriso e a minha melhor atuação, sorriu abertamente para ele. Mesmo que seja falso, é melhor do que o que eu realmente quero fazer.
— Bom dia.
Me levanto, nua e desinibida afinal,ele conheceu cada centímetro do meu corpo ontem.
Olho pelo quarto querendo me situar de onde minhas roupas foram parar ontem. Localizei o vestido sob a poltrona do outro lado da sala, e as sandálias jogadas pelo chão de bétula.
— Volta para cama, está cedo ainda.
Hum, droga. Eu odeio essa parte.
— Você combinou um boquete e duas rodadas... — Qual o nome dele mesmo? Algo com M eu acho. Mateus? Matthew? Marco? —, enfim, você sabe como funciona.
— Então é sobre isso? — O sorriso que ele me lança é odioso e pretensioso. Ele sabe que me tem na palma da mão, sabe que nada mais pode ser tão humilhante quanto abocanhar o pênis dele como na noite ontem. Ele sabe da facilidade de me manipular. — Não vejo problema algum. Te dou quinhentos dólares extras se você voltar para a cama.
Ele me analisa e eu tenho que usar cada força que tenho para não fazer uma careta. Eu odeio isso. Odeio com todas as minhas forças. Mas o que eu posso fazer? Não importa se eu odeio estar aqui, não importa se eu não tenho mais controle sobre a minha vida, eu preciso disso.
E o que eu faço a segui é ainda pior. Eu volto para a cama com ele.
~•~
Eu tinha cometido erros demais e é claro que Natalia percebeu todos eles. Com o nariz empinado e a repulsa em seu rosto, ela me encara como se fosse me engolir viva.
— Isso é uma brincadeira para você? — Ela poderia muito bem ter enfiado uma faca em meu peito. Sinto uma terrível vontade de me encolher, de me esconder.
Está todo mundo olhando. Assistentes, alunos, a terrível e loira oxigenada da Alicia, provavelmente rindo de mim. Todos os olhos estão em mim. Me sinto despida, da pior forma e sem armas para lutar.
— Não, não é. Eu sinto...
— Desculpas não vão valer nada se no espetáculo você errar essas merdas de passos! — Ela já está gritando, soltando mísseis dos olhos e todos em em minha direção. — Você é a melhor, Anna, é talentosa e tem um grande futuro pela frente, então o que é que tem de errado com você?
O que não tem de errado comigo?
— Eu não vou errar, eu prometo.
Ela suspira. Eu sei que ela não tem para onde correr. Eu passei na audição e fui escolhida a dedo. Ela sabe que não tem como escapar.
— Cumpra suas promessas, Anna. Vai, de novo.
Talvez eu tenha ganhado um pouco de sorte. Talvez,depois de ter um dia especialmente r**m o universo tenha me dado um bônus. Nas sequências que se seguiram eu não errei um passo.
~•~
Ele está furioso. Irritado e com ódio nas feições. Meu pai, o homem que deveria ser meu amigo, concelheiro e protetor, me olha agora como se fosse me esmagar como se esmaga um verme.
— Eu já lhe disse que não viesse aqui. — A voz dele é endurecida, sem qualquer sentimento.
Nem mesmo o tempo pode mudar ele. Meu pai foi forjado da rocha mais endurecida e fechada que já existiu. Não existe um pingo de amor no corpo dele. No entanto, eu ainda tenho que vir aqui, ainda tenho que implorar por uma mesada que ele notoriamente não quer dá.
— Você não atende as minhas ligações, eu mudei de conta, e o senhor não tem a nova então...
— Deixe anotado e saia, Violet não quer ver você aqui.
Respiro fundo, tentando controlar a raiva crescente em minhas veias.
Pego uma caneta e o caderno de anotações da faculdade e rabisco os números da minha nova conta. Deixo sobre a mesa do escritório dele.
— Liz tem saudades, ligue para ela, ela vai gostar.
— Eu sou ocupado, não tenho tempo para isso.
— Não tem tempo para sua família? Deixe-me adivinhar, Violet quer uma nova bolsa da Prada? Ou talvez ir para as Maldivas? Não importa o que a megera peça você não teme em abrir a mão...
— Annabeth! — Ele grita e cada osso, cada músculo em meu corpo treme. — Vá embora, agora!
Me levanto, chateada, humilhada e com o nó em minha garganta ameaçando me sufocar. O olhar dele me segue, furioso e hostil.
Antes de sair, com os nervos a flor da pele mais ainda assim com a raiva fervendo no sangue, olho para ele e digo o que penso:
— Espero que quando chegar a hora, sua mente fique tão pesada, tão enlutada, que não reste alegria que preencha o vazio no seu coração. O senhor vai se arrepender, pode achar que não, mas Liz precisa de você.
Ele engole em seco. Consigo ver a bile subindo sua garganta, mas ainda assim,o que sai de sua boca e rude:
— Eu vou chamar os seguranças, Anna. Vá embora e me deixe em paz.
Toda vez que vejo ele, toda vez que eu tenho que conversar com ele, eu me sinto como uma criança. Pequena e fraca. Ele me tira toda a segurança e a capacidade de agir como uma adulta. Ele é um ponto fraco e isso, essa raiva, esse ódio, levou minha mãe.
Eu posso um dia me arrepender de culpa-lo,mas se ele não tivesse trocado minha mãe por uma garota dez anos mais nova, se ele não tivesse nós expulsado de casa, se ele tivesse mandado a pensão que deveria, ela não teria morrido. Precisavamos do dinheiro, ainda preciso, mas ele sempre faz com que sentissemos humilhadas antes de estender a mão.
Eu o odeio.
Mas a questão é que eu odeio tanto, tudo, minha vida, meu trabalho, meu futuro. Tenho tanto ódio de mim que as vezes parece fácil demais segurar uma navalha e arrancar essa dor de uma vez.
Com lágrimas escorrendo pelos olhos,com toda a dor sendo jorrada em um acesso de choro, pego o celular e ligo para a única pessoa no mundo que me salvaria agora.
— Jean, eu preciso de você.