Capítulo 8

1390 Words
Ridley encontrou Olivia em seu camarim no teatro, o local onde, há semanas, ambos mantinham um caso discreto. A relação entre eles nunca fora destinada ao casamento, ambos sabiam disso; para Ridley, Olivia era uma amante, uma companhia, uma distração para o peso das obrigações. Ele jamais imaginou que essa relação secreta o colocaria em uma situação tão embaraçosa e comprometedora. Mas tudo havia mudado naquela tarde, quando Louise os surpreendeu. No bosque, onde Ridley e Olivia pensavam estar a salvo de olhares indiscretos, Louise aparecera, e a cena que presenciou selou o destino de ambos. Ridley, atônito, sequer teve tempo de tentar contornar a situação. Louise, que mantinha o olhar fixo e calmo, não fugira ou desmoronara; pelo contrário, aguardou até que ele vestisse a compostura e recuperasse o controle. E agora, diante de Olivia, Ridley sabia que a notícia de seu iminente casamento, nascido de um escândalo, a havia alcançado. — Então é verdade — começou Olivia, com a voz carregada de ironia e indignação. — Você está prestes a se casar. E com a última pessoa que esperávamos, uma camponesa, uma moça que você m*l conhece… só porque ela o flagrou comigo. Ridley fechou os olhos por um instante, tentando encontrar as palavras corretas. — Olivia… eu não tive escolha. Louise é alguém com o poder de destruir minha reputação, de manchar meu nome, caso leve a público o que viu. O casamento com ela é uma solução simples para o problema. — Problema? — Olivia deu uma risada amarga, incrédula. — Então é isso que somos? Um problema para o nobre Duque de Ridley? Acha que uma aliança forçada e um “sim” vão apagar o que aconteceu? Ele a olhou, firme. — Eu nunca escondi de você, Olivia. Nosso relacionamento nunca foi uma promessa. Eu não teria que recorrer ao casamento se não fosse a maldita coincidência de Louise nos ter visto. Mas agora… isso é necessário. Olivia balançou a cabeça, os olhos cintilando de raiva e frustração. — Necessário para salvar sua reputação, claro. E eu? Como devo me sentir, Ridley? Como devo aceitar que fui trocada por uma garota que nem sequer tem sua aprovação, que só conseguiu um lugar ao seu lado por um acaso? Ridley segurou o olhar dela, mas seu tom permaneceu frio. — Eu jamais menti para você, Olivia. Sempre soube que eu, eventualmente, me casaria, seja por conveniência, seja por necessidade. O que eu não imaginava é que a escolha fosse feita sob tais circunstâncias. Ela riu, amargurada, as lágrimas enchendo-lhe os olhos. — Conveniência e necessidade. Essas são suas desculpas? Para um homem que se orgulha de ser decidido, você é surpreendentemente covarde. Pois bem, vá para seu casamento forçado, para sua nova esposa. Eu espero que todo esse "sacrifício" lhe traga a glória que tanto busca. Ridley a observou enquanto Olivia saía, com a cabeça erguida e a dignidade mantida, mesmo ferida. Ele sabia que havia escolhido o caminho mais difícil, mas era o único que preservaria sua imagem e seus negócios. E, ao fim, sua decisão tinha um peso que ele já não podia mais ignorar: ao menos aos olhos do mundo, ele seria o homem que controlara o escândalo. O Duque de Ridley cavalgava em direção à modesta casa dos Khadowsky, com um misto de desprezo e resignação. O casamento com Louise fora a única solução viável, mesmo que o custo fosse unir-se a uma moça sem título e ainda carregar as responsabilidades de uma família dilapidada. O peso do compromisso o incomodava profundamente, mas o que mais poderia fazer? Sua reputação estava em jogo. Ao chegar, Ridley desceu do cavalo e se aproximou da porta entreaberta. A visão que teve ao entrar foi ainda mais degradante do que imaginara. Os irmãos de Louise, espalhados pela sala em completo desleixo, estavam bêbados, alguns adormecidos sobre a mesa com garrafas vazias de licor barato. Um cheiro forte de bebida e fumaça impregnava o ambiente. Era uma cena deplorável, que só aumentava sua aversão àquele lugar. Mas então, ele a viu. Louise estava à beira do fogão a lenha, os olhos vermelhos e marejados, o rosto sujo de fuligem, e as mãos manchadas com sangue de galinha, tentando ao máximo manter a compostura. Ela tremia enquanto cortava pedaços de frango para cozinhar algo que pudesse servir àqueles que agora eram seu único laço familiar. Ao perceber a presença dele, Louise levantou os olhos, exausta e desamparada. — Veio cedo — sussurrou, tentando conter o embaraço. Ridley permaneceu imóvel, observando-a em silêncio. A imagem era mais triste e chocante do que qualquer coisa que ele havia antecipado. Aquela moça que agora se tornaria sua esposa estava mergulhada em um sofrimento solitário e humilhante. Ele inspirou fundo, deixando a compaixão misturar-se à irritação. — Louise… isso é inaceitável. — Ele gesticulou ao redor. — Onde está o orgulho, a dignidade? Seus irmãos estão jogados aqui como animais. Ela o encarou com um olhar de súplica, mas havia também uma chama de orgulho ferido em seus olhos. — Dignidade? — Ela riu, amargamente. — Sabe o que estamos fazendo, Ridley? Lutando para sobreviver. Se isso parece degradante a você, talvez seja porque nunca soube o que é viver na miséria. O Duque permaneceu calado por um instante, incerto de como reagir. Ele não estava acostumado a ver alguém enfrentar seu olhar com tamanha intensidade. Decidiu se aproximar, quebrando a distância entre eles. — E é por isso que estou aqui. Para tirá-la deste… deste inferno. Para que tenha uma vida digna, como merece — afirmou, firme. — Vida digna? — Louise sussurrou, as lágrimas acumulando-se em seus olhos. — Você não entende nada sobre a minha vida, sobre o que significa cuidar de uma família. Eu não preciso da sua piedade, Ridley. Ele a observou, perturbado. Estava claro que o orgulho dela não era algo superficial; vinha de uma força interna, uma força que a ajudara a aguentar tudo aquilo por tanto tempo. — Louise, eu não estou aqui para ter pena de você — retrucou, esforçando-se para não deixar transparecer a confusão em sua voz. — Estou aqui porque você é minha noiva, e logo será minha esposa. E, como tal, será tratada com o respeito e a posição que merece. Não vou deixá-la vivendo em meio a isso — disse, gesticulando em direção à cena deplorável. Ela suspirou, exausta, e desviou o olhar para o fogo. As chamas refletiam em seus olhos, que agora carregavam um misto de tristeza e resignação. — Eu só queria dar uma vida melhor a eles… e a mim mesma — murmurou, quase para si mesma. — Queria, por uma vez, poder respirar sem ter que lutar por cada pedaço de pão que coloco na mesa. Ridley deu um passo à frente, e, num impulso, segurou seu rosto entre as mãos, forçando-a a olhá-lo. — Então venha comigo, Louise. Deixe este lugar para trás. Dê a si mesma essa chance. — Sua voz era mais suave, quase implorando. Ela o encarou, vulnerável e hesitante. — Você acha mesmo que… isso vai mudar alguma coisa? Que sair daqui e viver em um castelo vai apagar tudo isso? — Não posso mudar seu passado, Louise. Mas posso oferecer um futuro. — Ele afrouxou o toque, deixando as mãos escorregarem, mas sem desviar o olhar. — Basta aceitar minha mão. Ela engoliu em seco, o coração batendo forte. Uma lágrima escapou, manchando ainda mais o rosto já sujo. — Você quer mesmo me levar com você? — perguntou, a voz quebrada pela dúvida. Ridley assentiu. — Sim. Acredite ou não, eu a quero ao meu lado, e não é só porque você tem algo que possa usar contra mim. Quero alguém com a força e a determinação que você tem. Algo que nenhum outro casamento de conveniência jamais me traria. Por um instante, Louise sentiu-se perdida. Seria aquilo real? Poderia, de fato, haver um novo começo? Respirando fundo, ela se afastou dele, olhando ao redor uma última vez. A vida miserável, os irmãos embriagados, a miséria de sua existência... era a oportunidade que sempre sonhara. — Tudo bem — sussurrou, quase inaudível, sem forças para lutar contra o que parecia inevitável. — Vou com você, Ridley. Ele fez um breve aceno, estendendo a mão, aguardando que ela a segurasse. Dessa vez, ela não hesitou.
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