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1505 Words
- Você não pode me julgar. As aulas de História da Música são incríveis. E meu pai quer que eu aprenda a tocar flauta, então... – ela sorri com falsa ingenuidade. Eu estaria mentindo se dissesse que aprovo o que Vivi faz. Eu não aprovo, mas entendo. Ela cresceu sentindo o peso da expectativa em suas costas. Sua irmã mais velha, Susan, foi uma decepção para a família Parker. Ela se apaixonou por um homem que não valia muito, teve sua primeira gravidez e fugiu de casa. E, desde então, os Parkers cuidam para que Genevieve não chegue perto de fazer a mesma coisa. Após alguns minutos, chegamos ao Four Seasons Restaurant. É um restaurante de luxo que meu pai não perde a oportunidade de visitar. E quando eu disse que gostaria de jantar com Genevieve Parker, foi o que ele me recomendou. Na verdade, ele não recomendou; ele disse que eu deveria vir. E como eu disse antes, Skyla Campbell nunca desobedece. Peter abre a porta traseira do Rolls Royce para que eu desça, seguida por Vivi. Ela chega a vibrar de emoção, e eu começo a me perguntar se é por causa do jantar. Nós unimos nossas mãos, e assim seguimos para dentro do restaurante. Há 57 anos, o Four Seasons Restaurant deleita os amantes da gastronomia. O restaurante é um ícone arquitetônico, mas também um paraíso da arte. Obras de Andy Warhol, Pablo Picasso e Roy Lichtenstein adornam suas paredes há décadas. - Boa noite, Srta. Campbell, Srta. Parker. Por favor, me acompanhem – a hostess saúda. Peter permanece na entrada do restaurante enquanto eu e Vivi seguimos a hostess. O nome em seu crachá é Ana, e ela nos leva até a mesa mais afastada, próxima às janelas, ridiculamente longe do bar. - O garçom logo virá para atendê-las – Ana diz, e eu sorrio para lhe agradecer. Todo o cronograma do dia já foi passado: vamos jantar, e temos até dez horas para estarmos de volta à mansão Parker. Peter nos trouxe, mas será o motorista de Genevieve quem nos buscará. Isso dá, em média, três horas livres. Três horas em um entediante restaurante de comida cara. - Você realmente está com frio? – pergunto, porque não é possível que ela esteja confortável com este sobretudo. Vivi sorri. E não é um sorriso brincalhão, é um sorriso malicioso. E antes que eu possa perguntar o que este sorriso significa, o garçom surge ao nosso lado. - Boa noite, senhoritas. Aqui está o menu à La Carte – - Nós queremos uma garrafa de água gaseificada e limão – Vivi diz, antes mesmo de pegar a carta das mãos do garçom. Ele concorda com um aceno, depois se afasta. E a mesma expressão confusa no rosto dele pode ser encontrada no meu. Temos três horas livres. Três horas fora da gaiola dourada. Podemos conversar as besteiras que quisermos, sem pressa ou medo de sermos ouvidas por alguém que vá nos dedurar. Por que Vivi está apressada? - Você está com pressa para sair? - Sim. - Por quê? Nós não nos vimos desde que as férias começaram, e eu duvido que meu pai vá deixar eu sair pelas próximas... – Genevieve me interrompe levantando sua mão, que adorna um anel solitário de ouro branco. - Nós vamos aproveitar esta noite, mas não aqui. Eu preciso verificar se não deixei meu queixo cair no chão. Mas então eu me lembro de que é Genevieve diante de mim. A garota que parece ser uma santa aos olhos de seus pais, mas que facilmente se torna uma diaba quando eles olham para o outro lado. - O que você planejou? - Tem uma boate do outro lado da rua. Nós podemos sair pelo estacionamento, caso Peter ainda esteja lá fora. E eu tenho dinheiro, então não precisamos usar o cartão de crédito. Nós podemos aproveitar um pouco, depois voltamos para o restaurante. Eu preciso admitir; ela pensa em tudo. Mas hoje é meu aniversário de dezoito anos, e eu não posso ser expulsa de casa. Na verdade, se meu pai apenas me expulsasse seria como uma benção. O que ele realmente faria seria muito, muito pior. E embora eu nunca tenha ido à uma boate antes, preciso me lembrar de que não posso desobedecer. - Eu prometo que não vão descobrir – Genevieve diz, percebendo que eu não pareço estar animada com a ideia. Mas eu não sou como ela. Eu não consigo mentir para meu pai. Eu não consigo fazer coisas por suas costas. E, principalmente, não consigo decepcioná-lo. Ele estava sempre decepcionado com a mamãe, e fazia questão de lhe demonstrar isso. Eu não quero, nunca, que ele aja da mesma forma comigo. - Eu não posso. Me desculpe. Eu vou ficar aqui e gastar algum dinheiro, porque meu pai precisa se certificar de que comemos algo. Enquanto isso, você pode ir se divertir – digo com sinceridade. Eu não culpo Vivi por querer sair da gaiola. Se envolver com homens mais velhos, quebrar as regras que seus pais impõem, fazer o que sentir vontade. Ela não está errada. Mas eu, Skyla, não consigo ser menos do que a garota dos olhos do meu pai. - Eu não vou sem você – ela desaba no acento novamente. Eu me sinto um pouco culpada. Vivi é tão presa quanto um peixe bonitinho em um aquário. Seus pais a amam, é claro, mas não são do tipo que demonstram isso. Genevieve cresceu um tanto quanto quebrada, e a falta de sua irmã piorou sua vida. Não é surpreendente que ela aproveite todas as oportunidades de desobedecer que aparecem. - Está bem! Vamos até a boate, mas não levaremos mais do que trinta minutos – e, no fim, eu acabo cedendo. - Isso! – Vivi volta a vibrar, e seu largo sorriso me diz que ela já esperava por essa resposta. E que Deus nos ajude. ** Se me perguntassem qual foi a coisa mais absurda que eu já vi, eu diria que foi há três anos, quando eu estava saindo da aula de matemática e caminhando em direção à biblioteca. Eu tinha alguns minutos livres antes do encontro com o clube de leitura, então fui até o banheiro para lavar as mãos. Eu ouvi alguns barulhos estranhos, mas não soube do que se tratava até entrar no banheiro e ver Genevieve de joelhos em frente ao nosso professor. Tudo que eu sei é que ele pediu demissão depois disso, mas não antes de nos dar nota máxima em sua matéria. Mas agora, diante da multidão de pessoas nesta boate, eu acho que a cena no banheiro não foi tão r**m assim. Têm pessoas nuas, realmente nuas, no palco. Têm pessoas cheirando carreiras de pó branco sobre as mesas. Têm pessoas se beijando nos cantos das paredes, e Deus sabe o que elas farão depois disso. Genevieve caminha na minha frente, como se este fosse seu habitat. E, sutilmente, eu faço o sinal da cruz em mim mesma. Olho para a forma como as pessoas estão vestidas (algumas não estão vestidas), e depois olho para meu vestido. É um vestido de mangas curtas, pouco acima dos joelhos. Parece que eu acabei de sair de uma missa. Mas isso não quer dizer que eu estou feia, apenas que não me preparei para sair de um restaurante fino e entrar em um bordel. Genevieve solta minha mão e retira seu sobretudo rosa. E então, magicamente, a pergunta que rondou minha cabeça nas últimas horas é respondida. Por baixo do sobretudo, ela veste um minúsculo vestido vermelho. E verdade seja dita; ela está linda. Vivi segura seu sobretudo em uma mão e volta a agarrar a minha com a outra, puxando-me em direção ao bar. Ela tem dezoito anos há quatro meses, e eu estou completando dezoito hoje. Sequer estamos perto de poder beber. - Não podemos – eu lembro-a, precisando gritar para superar o barulho da música. Vivi não me responde, e nem precisaria. Não demoro para avistar Matheus, o querido professor de História da Música, sentado em uma das banquetas do bar. E, não, ele não é o mesmo professor que eu vi no banheiro há três anos. E como se já soubesse de tudo, há duas bebidas aguardando por nós quando chegamos ao bar. O único álcool que eu bebi em toda minha vida foi o vinho da Santa Ceia, uma vez por mês, com um padre e toda a congregação testemunhando, então não faço ideia do que tem nas taças. Vivi solta minha mão e se joga nos braços do professor Matheus. Ele beija seu rosto jovem demais, depois enfia a língua em sua garanta como se eu não estivesse presente. E, francamente, eu não merecia estar vendo isso na data do meu aniversário. - Olá, Skyla – Matheus me cumprimenta, e posso dizer que ele está um pouco envergonhado. Ver sua aluna em uma boate enquanto beija a amiga dela, que coincidentemente também é sua aluna, é, no mínimo, desconfortável. - Olá.
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