Genevieve o beija novamente, e desta vez eu já não me importo. Eles passaram as últimas semanas longe um do outro, e o semestre não vai demorar para terminar. Depois de formada, Vivi irá para uma universidade na Europa, e Matheus não tem dinheiro suficiente para ir atrás dela. O fim é a única coisa que eles têm, afinal.
- O que é isso? – Vivi pergunta, afastando-se minimamente de nosso professor.
- Alguma coisa. Mas não precisa se preocupar – ele sorri.
E, pela segunda vez na noite, eu preciso verificar se meu queixo não está no chão, porque Genevieve pega a taça e vira em seus lábios, embora não saiba a procedência da bebida.
- É tão bom! – ela grita.
Deus, se o senhor me viu em todas as missas nos últimos dezoito anos, por favor, me ajude a sair deste lugar!
Matheus se inclina e sussurra algo no ouvido de Vivi, algo que com certeza eu não vou gostar de saber, pois ela olha para mim com apreensão.
- Skyla, querida, você se importa de esperar aqui? – ela diz, mas logo trata de continuar antes que eu tenha a chance de negar – Matt quer me mostrar algo em seu carro.
É claro que ele quer, e é claro que ela vai. Mas aqui estou eu, Skyla Campbell, em uma boate, não podendo sair sem a presença de Genevieve. O motorista estará em frente ao Four Seasons Restaurant em algumas horas, e o que eu diria se Vivi não estivesse comigo?
- Não demore, ou eu vou embora – aviso.
Eles praticamente correm em uma direção aleatória, que eu não posso decifrar porque existe um bilhão de pessoas ao meu redor, me espremendo contra o balcão do bar.
E eu poderia ir com eles, apenas para não ter que ficar ouvindo esta música horrível e vendo essas pessoas bêbadas dançando, mas sei que o professor Matheus me odiaria pelo resto de minha vida, e Genevieve mais ainda.
Sento-me na banqueta em que Matheus estava, e me debruço sobre o balcão para esperar. Eu não fui uma filha tão r**m, afinal. Não bebi esta bebida só Deus sabe o quê, e não corri para o carro de meu professor vinte anos mais velho. Talvez, só talvez, a culpa não me consuma quando eu olhar para meu pai e tiver que mentir sobre o jantar.
Mas as coisas não são tão simples. Quando estou quase me acostumando com o cheiro de suor e bebida barata, ouço o estrondo de um vidro sendo quebrado. Olho ao redor, e não demoro a perceber que uma das janelas da boate foi quebrada, não muito longe de mim.
Há um alvoroço de pessoas gritando coisas horríveis. Mate ele. Jogue este filho da p**a pela janela.
O alvoroço se torna ainda mais intenso. E, eu não posso ver, mas sei que uma briga começou. A música parou de tocar, e tudo que podia ser ouvido era a luta entre os homens, que eu nem poderia dizer quantos. As pessoas me espremem ainda mais contra o bar, como se a briga estivesse se aproximando.
Eu não fui treinada para situações como essas. Eu nunca presenciei uma briga, e não preciso dizer que nunca briguei. Mas eu sei de uma coisa: quando uma briga que não é sua se aproxima, você corre.
E é exatamente isso que eu faço. Me estreito entre as pessoas ao meu redor. Porque diferente delas, eu não quero ver alguém ser morto hoje. Corro em direção a saída, e não percebo que estou usando saltos até que eles comecem a me atrapalhar.
Estou quase chegando às portas giratórias quando alguém me empurra. Não foi intencional, eu acho, mas a mulher está tão fora de si que sequer pede desculpas. E eu não ficaria aqui para ouvir suas desculpas, de qualquer forma, então continuo meu caminho antes que eu possa terminar no chão.
Deus, sou eu de novo. O Senhor poderia, por favor, fazer com que haja um táxi disponível em frente à boate?
Atravesso as portas e corro para fora, encontrando a liberdade que não senti quando estava lá dentro. E eu estava tão aquecida pela multidão de pessoas que, quando saio para a rua, sinto o frio beijar minha pele.
Respire, Skyla. Você fez uma besteira, mas isso não significa que não tenha conserto.
Olho para os dois lados da rua. O exterior da boate também está lotado, mas pelo menos tenho a ventilação da rua, e as pessoas não estão se espremendo umas contra as outras.
A única coisa que eu posso fazer é pegar um táxi. O motorista de Vivi deve estar em frente ao restaurante, mas eu não posso pedir para ele me levar, não sem Genevieve. E Peter me acoberta sempre, mas não posso pedir para que ele venha me buscar. Meu pai saberia. E pior; os pais de Vivi saberiam que ela está no banco traseiro do carro de seu professor.
Começo a caminhar de um lado para o outro em frente à boate. Se eu pegar um táxi e for para casa, meu pai irá perguntar sobre Genevieve. O que eu poderia fazer, além de mentir? E se eu voltar para dentro e arrastar Vivi para casa? Eu poderia ligar para ela, mas estou certa de que seu celular está longe de suas mãos.
Por que, Genevieve Parker, você é tão rebelde?
E como se o próprio Deus quisesse que eu pague pelo que fiz, finos chuviscos começam a cair do céu. Não é uma chuva forte, mas certamente ficará pior nos próximos minutos.
Sinto muito, Vivi, mas eu preciso ir para casa agora.
Caminho para mais perto do meio fio, de onde posso ver os carros passando pela via. Logo em frente está localizado o Four Seasons Restaurant. Se eu nunca tivesse saído de lá, não estaria me molhando e temendo que meu pai estivesse em casa, já me esperando para um sermão.
Eu sempre fui uma boa garota, e ele me recompensou com um colégio católico. Se ele descobrir que eu me permiti vir para este lugar, então me colocará em um convento.
- Oi – ouço uma voz masculina dizer.
Me viro para encarar um homem alto, com alguns poucos anos a mais do que eu, que está perto demais. Se ainda estivéssemos na boate, eu poderia dizer que ele não tem espaço, mas aqui, na rua, ele não precisa ficar colado em mim. E que Deus me ajude, o homem chega mais perto.
Seu cabelo é escuro, mas não posso dizer se seria preto ou castanho. Seus olhos são claros, talvez azuis. Ele poderia ser bonito, mas está tão indesejavelmente perto que eu dispenso sua beleza.
- Oi – respondo, dando um passo para longe.
- Você está com pressa para ir embora, linda? Eu poderia lhe dar uma carona.
- Eu... – pense, Skyla, e não deixe ele saber que você está mentindo – Eu estou esperando meu pai.
- Eu posso fazer companhia.
- Não precisa... – eu paro de falar quando o homem se aproxima mais, quase encostando seu corpo ao meu – meu pai não vai gostar de me ver acompanhada – completo.
O homem se inclina sobre mim, então coloca seus lábios bem próximos ao meu ouvido – não minta para mim. Eu odiaria descobrir que você quer me afastar – ele diz. E de alguma maneira biologicamente impossível, meu coração para de bater.
Eu faço a coisa mais estúpida que poderia, mas, em minha defesa, a mais eficaz, e corro em direção à rua. Não olho para os carros passando por mim, e por sorte não sou atingida quando passo pela primeira faixa. Mas assim que avisto a ilha entre uma pista e outra, cometo o erro de olhar para trás: ele está atrás de mim!
Ouço uma buzina soar alto, volto meus olhos para s pista, e então percebo que é tarde demais para correr. O carro é freado com rapidez, tanto que os pneus fazem barulho no asfalto.
Deus...
Mal tenho tempo para terminar minha oração, apenas fecho os olhos com força e espero o carro me estilhaçar pelo asfalto. Mas não acontece.
Sinto o clarão de faróis contra meu rosto, e depois outras buzinas soam. Ainda posso sentir a chuva fina cair sobre mim. Posso ouvir o murmúrio das pessoas ao redor. E... por que eu corri para a pista, afinal?
Abro os olhos e olho em direção à boate, procurando o homem que me assediou. Ele não está mais me seguindo, talvez porque pensou que eu morreria diante de seus olhos.
- O que você pensa que está fazendo? – me viro para encarar a pessoa gritando comigo.
É um homem. O motorista que quase me atropelou, aliás, e não parece estar feliz. Ele bate a porta de seu carro com força suficiente para me fazer saltar, e caminha em minha direção.
- Eu... – sou incapaz de completar uma frase, pois assim que a luz deixa de atrapalhar minha visão e o homem aparece com nitidez para meus olhos, perco as palavras.
E que Deus me ajude, é o homem mais bonito que eu já vi.