O vale central do Reino de Cristal nunca estivera tão silencioso.
Humanos haviam sido autorizados a atravessar os antigos caminhos de pedra, escoltados por guardas dragônicos que mantinham distância respeitosa. Do outro lado, dragões pousavam nos platôs elevados, formando um semicírculo imponente. O ar vibrava com tensão contida — não havia fogo, mas o medo era quente o suficiente para queimar.
Aethon observava tudo do alto de uma formação cristalina. Suas asas permaneciam recolhidas, e sua postura era calma, embora o coração batesse acelerado. Aquela reunião não era tradição. Era risco.
— Eles vieram — murmurou.
Rute caminhava entre os humanos, acompanhada por uma anciã do vilarejo e dois guardas nervosos. Ela sentia os olhares pesarem sobre si — alguns curiosos, outros hostis. Mesmo assim, manteve a cabeça erguida.
— Lembre-se — disse a anciã em voz baixa. — Não provoque.
Rute assentiu.
No centro do vale, uma plataforma de cristal bruto havia sido preparada. Xanadu desceu lentamente, e o impacto de seu pouso ecoou como um trovão contido. O silêncio tornou-se absoluto.
— Este encontro existe para evitar derramamento de sangue — declarou Xanadu. — Palavras serão usadas no lugar do fogo.
Um murmúrio percorreu ambos os lados.
Draco pousou ao lado do pai, rígido, atento a cada movimento humano.
— Humanos quebram promessas — disse ele. — Sempre quebraram.
Aethon desceu então, posicionando-se alguns passos à frente.
— Dragões também erram — respondeu, com voz firme. — E é por isso que estamos aqui.
O choque das palavras fez o ar estremecer.
Um homem humano avançou com cautela.
— Viemos porque nossas crianças têm medo de dormir — disse. — Porque histórias viraram ameaças reais.
Draco rosnou baixo.
— Histórias humanas sempre nos pintaram como monstros.
Rute deu um passo à frente antes que alguém a impedisse.
— Porque ninguém nunca conversou — disse ela.
O silêncio foi tão profundo que se ouviu o rio ao longe.
— Rute — advertiu a anciã.
— Não — interrompeu Xanadu, erguendo a cabeça. — Deixe-a falar.
Rute respirou fundo.
— Eu vi um dragão proteger, não atacar — disse. — Vi verdade onde disseram que só havia fogo.
Alguns humanos trocaram olhares inseguros.
— Ela foi enganada — murmurou alguém.
— Ou vocês foram — rebateu Aethon.
Draco avançou um passo.
— Basta — disse. — Esta reunião está se tornando perigosa.
Nesse instante, um rugido cortou o céu.
Um dragão desconhecido surgiu entre as nuvens, descendo rápido demais, descontrolado. Humanos gritaram. Guardas ergueram armas.
— Não atirem! — gritou Aethon.
O dragão pousou de forma brusca, derrubando fragmentos de cristal. Seus olhos estavam selvagens, suas asas feridas.
— Eles me caçaram! — rugiu. — Humanos!
O pânico se espalhou.
Draco abriu as asas, pronto para atacar.
— Chega! — bradou Xanadu.
Aethon moveu-se sem pensar, posicionando-se entre o dragão ferido e os humanos.
— Ninguém atacará ninguém — disse.
O dragão desconhecido hesitou.
— Você confia neles? — rosnou.
— Confio que o ódio não vai curar suas feridas — respondeu Aethon.
Rute aproximou-se lentamente.
— Você está machucado — disse ela. — Podemos ajudar.
O dragão a encarou, confuso.
A tensão se rompeu em pequenos gestos.
Humanos baixaram armas. Dragões recolheram asas.
O dragão ferido cedeu, caindo de lado.
— A reunião não terminou — declarou Xanadu. — Ela acaba de começar.
Aethon olhou para Rute.
O impossível acabara de dar seu primeiro passo.
E o Reino de Cristal jamais esqueceria aquele dia.