Capítulo 1
O Reino de Cristal
O sol nascia lentamente por trás das montanhas, fazendo com que o Reino de Cristal despertasse em tons dourados e azulados. As altas cordilheiras, formadas por rochas translúcidas e veios naturais de quartzo, refletiam a luz como espelhos vivos, espalhando brilho por vales, rios e florestas. Era impossível olhar para aquele lugar sem sentir que ali havia algo antigo, quase sagrado.
Do alto de um dos picos mais elevados, Aethon observava o mundo abaixo.
Suas asas douradas permaneciam parcialmente abertas, imóveis, enquanto o vento da manhã deslizava entre suas escamas como um sussurro familiar. Cada placa de seu corpo refletia a luz do amanhecer, revelando tons de âmbar, cobre e ouro vivo. Seus olhos, de um azul intenso como o céu de inverno, acompanhavam atentamente os movimentos minúsculos que se desenrolavam nos vales humanos.
Vilarejos despertavam.
Fumaça fina subia das chaminés. Pessoas caminhavam pelas ruas estreitas, carregando cestos, abrindo portas, chamando umas às outras.
Aethon sentia algo apertar em seu peito sempre que observava aquela cena.
— Eles vivem tão perto… e ainda assim tão longe — murmurou, sua voz ecoando baixa entre as rochas.
Para os dragões, os humanos eram criaturas frágeis, efêmeras, governadas pelo medo. Para os humanos, os dragões eram monstros de fogo e destruição. Duas verdades incompletas sustentadas por séculos de distância.
Aethon não se lembrava de um tempo em que fosse diferente.
Mas sentia, profundamente, que algo estava errado.
Ele ergueu o olhar para o céu amplo, onde nuvens claras deslizavam lentamente. Voar sempre lhe trouxe paz, mas naquele dia o ar parecia carregado de perguntas.
— Você observa demais os humanos — disse uma voz grave atrás dele.
Aethon virou a cabeça lentamente.
Draco estava ali.
Maior, mais robusto, suas escamas tinham um tom mais escuro, quase avermelhado, como brasas prestes a reacender. Seus olhos dourados não refletiam curiosidade, mas vigilância constante. As cicatrizes em suas asas eram marcas de antigas batalhas — lembranças de um passado que Draco jamais permitia esquecer.
— Eles também fazem parte deste reino — respondeu Aethon com calma.
Draco soltou um rosnado baixo.
— Este reino pertence aos dragões. Sempre pertenceu. Os humanos apenas ocupam o que não conseguem defender.
Aethon sentiu o peso das palavras do irmão.
— E mesmo assim… vivem aqui há gerações — insistiu. — Constroem, cuidam da terra, sonham.
— Sonhos humanos queimam rápido — interrompeu Draco. — E costumam tentar levar tudo ao redor junto com eles.
O silêncio se instalou entre os dois.
Aethon voltou o olhar para o vale, onde uma criança corria atrás de um animal pequeno, rindo, tropeçando, levantando-se outra vez.
— Você já observou como eles cuidam uns dos outros? — perguntou Aethon. — Como protegem seus filhotes, mesmo sem asas, mesmo sem fogo?
Draco bufou, abrindo parcialmente as asas.
— Você fala como se fosse um deles.
— Não — respondeu Aethon, com firmeza suave. — Falo como alguém que vê além do medo.
O vento aumentou, fazendo as árvores lá embaixo ondularem como um mar verde.
— Nosso pai não aprovaria esse olhar — disse Draco. — Xanadu construiu a paz dos dragões mantendo distância.
O nome de Xanadu ecoou pesado.
O grande dragão, soberano do Reino de Cristal, era respeitado por sua sabedoria e temido por seu poder. Foi ele quem determinou que dragões e humanos deveriam viver separados, para evitar novas tragédias.
Aethon respeitava o pai. Mas respeitar não significava concordar.
— Talvez a distância seja o problema — disse ele, por fim.
Draco o encarou, surpreso.
— Cuidado, irmão. Ideias assim já incendiaram guerras.
Sem responder, Aethon abriu completamente as asas. O movimento levantou poeira cristalina ao redor do pico.
— Vou voar — disse apenas.
— Não se aproxime demais dos vilarejos — advertiu Draco.
Aethon lançou-se no ar.
O vento o envolveu como um abraço antigo enquanto ele deslizava pelos céus do Reino de Cristal. Abaixo, rios serpenteavam entre campos verdes, florestas densas e vilas humanas que pareciam frágeis diante da imensidão das montanhas.
Enquanto voava, Aethon sentia algo despertar dentro de si.
Uma inquietação.
Uma certeza silenciosa.
O mundo estava à beira de uma mudança.
E, em algum lugar lá embaixo, seu destino aguardava.
Sem saber, naquele mesmo dia, uma criança humana também levantaria os olhos para o céu…
E o Reino de Cristal jamais seria o mesmo.