Capítulo 2

554 Words
O Primeiro Encontro O voo de Aethon tornou-se mais lento à medida que ele se afastava das montanhas. As correntes de ar mudavam, carregando aromas diferentes — madeira queimada, pão recém-assado, terra úmida. Eram cheiros humanos. Cheiros de vida. Lá embaixo, um pequeno vilarejo se estendia às margens de um rio claro. As casas de pedra e madeira formavam círculos irregulares, e campos cultivados cercavam o local como braços protetores. Aethon descreveu um amplo círculo no céu, mantendo-se alto o suficiente para não ser percebido. Ou assim pensou. — Eu sabia — murmurou uma voz fina, quase engolida pelo vento. Aethon estremeceu. Ele pousou suavemente atrás de uma colina coberta de flores silvestres e abaixou o corpo, atento. Seus sentidos se aguçaram. O coração bateu forte. Humanos raramente se aventuravam tão longe dos muros do vilarejo. — Não pode ser só imaginação — insistiu a voz. Entre os arbustos, surgiu uma criança. Pequena, magra, roupas simples e gastas. Os cabelos escuros estavam presos de forma desajeitada, e os olhos… os olhos brilhavam como se o céu tivesse descido até ali. Aethon congelou. A criança também. O silêncio se estendeu por longos segundos. — Você — ela começou, mas engoliu em seco. — Você é real? Aethon inclinou a cabeça lentamente. Seu instinto dizia para voar, desaparecer, manter a distância que séculos haviam imposto. Mas algo o impedia. — Sou — respondeu, com a voz baixa e cuidadosa. Os olhos da criança se arregalaram. — Um dragão de verdade — sussurrou, não com medo, mas com reverência. Ela deu um passo à frente. Aethon abriu parcialmente uma asa, não em ameaça, mas como aviso. — Não chegue mais perto — disse — Posso assustar você. A criança balançou a cabeça. — Eu não tenho medo. Aethon sentiu o mundo inclinar. — Todos têm medo de dragões. — Nem todos — respondeu ela. — Eu sou Rute. O nome pairou no ar como algo importante. — Por que está aqui sozinha? — perguntou Aethon. Rute deu de ombros. — Sempre estou sozinha. Havia algo naquela resposta que doía. — Eles dizem que dragões queimam vilarejos — continuou ela. — Mas você não parece mau. — E eles dizem que humanos nos caçam — respondeu Aethon. — Mas você não parece perigosa. Rute sorriu. — Talvez estejam todos errados. Aethon soltou um leve som, quase uma risada. — Talvez. Eles ficaram ali, observando-se, como se cada um estivesse redesenhando tudo o que aprendera até aquele momento. — Você pode voar muito alto? — perguntou Rute, de repente. — Posso tocar as nuvens — respondeu ele. Os olhos dela brilharam ainda mais. — Eu sonho com isso. — Voar? — Ser livre — respondeu. Aethon sentiu algo se abrir dentro do peito. — Se alguém te vir aqui comigo, pode ser perigoso — disse ele. Rute assentiu, séria. — Eu sei guardar segredos. Ao longe, vozes humanas começaram a ecoar. — Rute! — Rute, volte agora! Ela se sobressaltou. — Tenho que ir. — Voltará? — perguntou Aethon, antes que pudesse se conter. Rute sorriu novamente. — Se você voltar. Ela correu em direção ao vilarejo. Aethon abriu as asas. Enquanto subia aos céus, percebeu que algo havia mudado. Não no mundo. Mas nele. E, pela primeira vez, o céu parecia pequeno demais para conter o que sentia.
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