Capítulo 3

529 Words
Luta Interna O retorno de Aethon às montanhas foi silencioso. As nuvens se fecharam ao seu redor como um véu, e o vento, antes leve, agora parecia carregado de perguntas. Cada batida de suas asas ecoava dentro do próprio peito, como se o céu tivesse aprendido a pulsar junto com seu coração. Ele pousou em uma das plataformas naturais formaçãodo santuário dos dragões, uma vasta de cristal bruto esculpida pelo tempo e pelo fogo ancestral. Ali, o ar era mais frio, mais puro — e, ainda assim, Aethon sentia-se sufocado. Rute. O nome surgia em seus pensamentos com uma frequência inquietante. Nunca antes um humano havia falado com ele sem medo. Nunca antes alguém o havia olhado como se ele fosse… possível. — Você demorou. A voz ecoou atrás dele, profunda e carregada de autoridade. Xanadu estava imóvel no centro do santuário. Seu corpo colossal parecia ter sido moldado a partir da própria montanha. Escamas prateadas com veios azulados refletiam a luz ambiente, e seus olhos antigos carregavam o peso de eras inteiras. Quando Xanadu falava, não era apenas um dragão que se expressava, mas a própria história do Reino de Cristal. — Estava observando os ventos — respondeu Aethon. Xanadu inclinou levemente a cabeça. — Os ventos mudam quando o coração muda. Aethon permaneceu em silêncio. — Draco está inquieto — continuou Xanadu. — E quando ele se inquieta, o reino sente. — Ele acredita que humanos são uma ameaça — disse Aethon. — Eles já foram — respondeu Xanadu, sem hesitar. As palavras caíram como pedra. — Mas também já foram aliados — retrucou Aethon, reunindo coragem. — As histórias mais antigas falam disso. Os olhos de Xanadu se estreitaram. — Histórias nem sempre protegem — disse ele. — Decisões, sim. Aethon sentiu o conflito se intensificar. — Pai… — começou. — O isolamento não nos trouxe paz. Apenas silêncio. Xanadu permaneceu imóvel por longos segundos. — O silêncio mantém meus filhos vivos — respondeu, por fim. Aethon abaixou a cabeça. — E se houver outra forma? O ar pareceu estremecer. — Cuidado, Aethon — advertiu Xanadu. — Questionar tradições não é sinal de fraqueza… mas pode ser o início da ruína. O jovem dragão sentiu o peso daquela sentença. Ele se afastou do santuário antes que o coração traísse suas palavras. No alto de uma formação rochosa, Draco o aguardava. — Você esteve perto demais dos humanos — disse ele, sem rodeios. Aethon ergueu o olhar. — Eu os vi como são. — Você os viu como quer que sejam — rebateu Draco. — Isso é perigoso. — O medo também é. Draco abriu as asas abruptamente. — Se continuar assim, vai nos colocar em guerra. — E se eu evitar uma? O silêncio entre eles era tenso. — Você escolhe humanos em vez de dragões? — perguntou Draco. Aethon respirou fundo. — Eu escolho o futuro. Draco recuou um passo, como se tivesse sido ferido. — Então talvez você já não pertença mais a este lugar. Aethon sentiu a dor dessa possibilidade. Mas, ao fechar os olhos, viu novamente o sorriso de Rute. E entendeu. Algumas escolhas queimam. Outras iluminam. E ele já havia escolhido.
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