Luta Interna
O retorno de Aethon às montanhas foi silencioso.
As nuvens se fecharam ao seu redor como um véu, e o vento, antes leve, agora parecia carregado de perguntas. Cada batida de suas asas ecoava dentro do próprio peito, como se o céu tivesse aprendido a pulsar junto com seu coração.
Ele pousou em uma das plataformas naturais formaçãodo santuário dos dragões, uma vasta de cristal bruto esculpida pelo tempo e pelo fogo ancestral. Ali, o ar era mais frio, mais puro — e, ainda assim, Aethon sentia-se sufocado.
Rute.
O nome surgia em seus pensamentos com uma frequência inquietante.
Nunca antes um humano havia falado com ele sem medo. Nunca antes alguém o havia olhado como se ele fosse… possível.
— Você demorou.
A voz ecoou atrás dele, profunda e carregada de autoridade.
Xanadu estava imóvel no centro do santuário.
Seu corpo colossal parecia ter sido moldado a partir da própria montanha. Escamas prateadas com veios azulados refletiam a luz ambiente, e seus olhos antigos carregavam o peso de eras inteiras. Quando Xanadu falava, não era apenas um dragão que se expressava, mas a própria história do Reino de Cristal.
— Estava observando os ventos — respondeu Aethon.
Xanadu inclinou levemente a cabeça.
— Os ventos mudam quando o coração muda.
Aethon permaneceu em silêncio.
— Draco está inquieto — continuou Xanadu. — E quando ele se inquieta, o reino sente.
— Ele acredita que humanos são uma ameaça — disse Aethon.
— Eles já foram — respondeu Xanadu, sem hesitar.
As palavras caíram como pedra.
— Mas também já foram aliados — retrucou Aethon, reunindo coragem. — As histórias mais antigas falam disso.
Os olhos de Xanadu se estreitaram.
— Histórias nem sempre protegem — disse ele. — Decisões, sim.
Aethon sentiu o conflito se intensificar.
— Pai… — começou. — O isolamento não nos trouxe paz. Apenas silêncio.
Xanadu permaneceu imóvel por longos segundos.
— O silêncio mantém meus filhos vivos — respondeu, por fim.
Aethon abaixou a cabeça.
— E se houver outra forma?
O ar pareceu estremecer.
— Cuidado, Aethon — advertiu Xanadu. — Questionar tradições não é sinal de fraqueza… mas pode ser o início da ruína.
O jovem dragão sentiu o peso daquela sentença.
Ele se afastou do santuário antes que o coração traísse suas palavras.
No alto de uma formação rochosa, Draco o aguardava.
— Você esteve perto demais dos humanos — disse ele, sem rodeios.
Aethon ergueu o olhar.
— Eu os vi como são.
— Você os viu como quer que sejam — rebateu Draco. — Isso é perigoso.
— O medo também é.
Draco abriu as asas abruptamente.
— Se continuar assim, vai nos colocar em guerra.
— E se eu evitar uma?
O silêncio entre eles era tenso.
— Você escolhe humanos em vez de dragões? — perguntou Draco.
Aethon respirou fundo.
— Eu escolho o futuro.
Draco recuou um passo, como se tivesse sido ferido.
— Então talvez você já não pertença mais a este lugar.
Aethon sentiu a dor dessa possibilidade.
Mas, ao fechar os olhos, viu novamente o sorriso de Rute.
E entendeu.
Algumas escolhas queimam.
Outras iluminam.
E ele já havia escolhido.