Amizade em Construção
A manhã nasceu tranquila no vale, como se o mundo tivesse decidido descansar.
O rio corria manso, refletindo o céu claro, e as árvores balançavam suavemente com a brisa. Rute caminhava sozinha pela trilha estreita que levava além dos limites do vilarejo. Trazia consigo apenas um pequeno embrulho de pano e um sentimento estranho no peito — uma mistura de expectativa e esperança.
Ela parou perto da colina coberta de flores silvestres e ergueu o olhar para o céu.
— Você vai voltar… não vai? — sussurrou.
Por alguns instantes, nada aconteceu.
Então, uma sombra dourada cruzou o sol.
O ar vibrou levemente quando Aethon desceu, pousando com cuidado atrás da colina, onde não poderia ser visto pelos humanos. Suas asas se dobraram lentamente, e seus olhos azuis encontraram os de Rute.
— Eu disse que voltaria — falou ele.
O sorriso de Rute surgiu sem esforço.
— Eu sabia.
Ela se aproximou devagar, como se cada passo fosse parte de um acordo silencioso.
— Trouxe algo para você — disse, estendendo o embrulho.
Aethon inclinou a cabeça, curioso.
— Não precisamos de alimento humano.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas é um presente.
Ele aceitou o gesto, tocado não pelo pão em si, mas pelo cuidado por trás dele.
— Obrigado.
Sentaram-se próximos, separados apenas pelo tamanho e pela forma, mas unidos por algo novo. O silêncio entre eles não pesava.
— Como é viver entre os dragões? — perguntou Rute.
Aethon demorou a responder.
— É belo — disse. — E solitário.
Rute assentiu.
— Ac
ho que entendo.
Ele a observou com atenção.
— Por que você não teve medo de mim?
Rute pensou por um momento.
— Porque monstros não escutam — respondeu. — E você escutou.
As palavras ecoaram dentro de Aethon com força inesperada.
— Você sonha muito — disse ele.
— Sonhar é tudo o que tenho — respondeu ela. — Especialmente em voar.
Aethon abriu uma das asas lentamente.
— Quer ver o mundo do alto?
Rute prendeu a respiração.
— Mesmo?
— Um voo curto — garantiu ele. — Seguro.
Com cuidado, Aethon abaixou o corpo. Rute subiu entre as escamas mornas, segurando-se com firmeza.
— Confio em você — disse ela.
O voo foi breve, mas transformador.
O chão se afastou. O rio virou linha de luz. O vento cantou nos ouvidos de Rute, arrancando-lhe lágrimas silenciosas.
Quando pousaram, ela demorou a falar.
— Agora sei — disse por fim.
— O quê?
— Onde pertenço, mesmo que ainda não seja lá em cima.
O sino distante do vilarejo soou.
— Preciso ir — disse Rute.
Antes de partir, ela tocou suavemente uma escama dourada.
— Amigos guardam segredos — falou.
Aethon observou-a desaparecer entre as árvores.
Naquele instante, compreendeu que algo havia se formado.
Não era apenas curiosidade.
Era amizade.