Capítulo 7

575 Words
O vale central do Reino de Cristal nunca estivera tão silencioso. Humanos haviam sido autorizados a atravessar os antigos caminhos de pedra, escoltados por guardas dragônicos que mantinham distância respeitosa. Do outro lado, dragões pousavam nos platôs elevados, formando um semicírculo imponente. O ar vibrava com tensão contida — não havia fogo, mas o medo era quente o suficiente para queimar. Aethon observava tudo do alto de uma formação cristalina. Suas asas permaneciam recolhidas, e sua postura era calma, embora o coração batesse acelerado. Aquela reunião não era tradição. Era risco. — Eles vieram — murmurou. Rute caminhava entre os humanos, acompanhada por uma anciã do vilarejo e dois guardas nervosos. Ela sentia os olhares pesarem sobre si — alguns curiosos, outros hostis. Mesmo assim, manteve a cabeça erguida. — Lembre-se — disse a anciã em voz baixa. — Não provoque. Rute assentiu. No centro do vale, uma plataforma de cristal bruto havia sido preparada. Xanadu desceu lentamente, e o impacto de seu pouso ecoou como um trovão contido. O silêncio tornou-se absoluto. — Este encontro existe para evitar derramamento de sangue — declarou Xanadu. — Palavras serão usadas no lugar do fogo. Um murmúrio percorreu ambos os lados. Draco pousou ao lado do pai, rígido, atento a cada movimento humano. — Humanos quebram promessas — disse ele. — Sempre quebraram. Aethon desceu então, posicionando-se alguns passos à frente. — Dragões também erram — respondeu, com voz firme. — E é por isso que estamos aqui. O choque das palavras fez o ar estremecer. Um homem humano avançou com cautela. — Viemos porque nossas crianças têm medo de dormir — disse. — Porque histórias viraram ameaças reais. Draco rosnou baixo. — Histórias humanas sempre nos pintaram como monstros. Rute deu um passo à frente antes que alguém a impedisse. — Porque ninguém nunca conversou — disse ela. O silêncio foi tão profundo que se ouviu o rio ao longe. — Rute — advertiu a anciã. — Não — interrompeu Xanadu, erguendo a cabeça. — Deixe-a falar. Rute respirou fundo. — Eu vi um dragão proteger, não atacar — disse. — Vi verdade onde disseram que só havia fogo. Alguns humanos trocaram olhares inseguros. — Ela foi enganada — murmurou alguém. — Ou vocês foram — rebateu Aethon. Draco avançou um passo. — Basta — disse. — Esta reunião está se tornando perigosa. Nesse instante, um rugido cortou o céu. Um dragão desconhecido surgiu entre as nuvens, descendo rápido demais, descontrolado. Humanos gritaram. Guardas ergueram armas. — Não atirem! — gritou Aethon. O dragão pousou de forma brusca, derrubando fragmentos de cristal. Seus olhos estavam selvagens, suas asas feridas. — Eles me caçaram! — rugiu. — Humanos! O pânico se espalhou. Draco abriu as asas, pronto para atacar. — Chega! — bradou Xanadu. Aethon moveu-se sem pensar, posicionando-se entre o dragão ferido e os humanos. — Ninguém atacará ninguém — disse. O dragão desconhecido hesitou. — Você confia neles? — rosnou. — Confio que o ódio não vai curar suas feridas — respondeu Aethon. Rute aproximou-se lentamente. — Você está machucado — disse ela. — Podemos ajudar. O dragão a encarou, confuso. A tensão se rompeu em pequenos gestos. Humanos baixaram armas. Dragões recolheram asas. O dragão ferido cedeu, caindo de lado. — A reunião não terminou — declarou Xanadu. — Ela acaba de começar. Aethon olhou para Rute. O impossível acabara de dar seu primeiro passo. E o Reino de Cristal jamais esqueceria aquele dia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD