O dia seguinte amanheceu pesado.
Não havia fumaça no ar, nem gritos, nem fogo visível. Ainda assim, o Reino de Cristal parecia carregar uma cicatriz recente, invisível e profunda. Humanos evitavam olhar para o céu. Dragões evitavam voar sobre os vales.
A tentativa de paz deixara marcas.
Aethon permanecia nas montanhas baixas, afastado do núcleo dragônico. Não fora expulso — ainda —mas também não fora acolhido. Era um espaço incômodo, onde as decisões pareciam suspensas no ar.
— Eles não confiam mais em você — disse uma voz grave.
Aethon virou-se. Era Lyren, um dragão de escamas verde-escuras, mais velho, conhecido por raramente se envolver em disputas do conselho.
— Nem eles, nem os humanos — respondeu Aethon.
Lyren inclinou a cabeça.
— É o preço de quem caminha entre mundos.
Antes que Aethon respondesse, outro dragão pousou. Era Kaelith, jovem, de asas largas e olhar inquieto.
— Ouvi dizer que você se colocou na frente das lanças humanas — disse ele. — Poucos fariam isso.
— Poucos acreditam que existe escolha — respondeu Aethon.
Kaelith trocou um olhar rápido com Lyren.
— Nem todos concordam com Draco — disse Lyren. — Apenas têm medo de falar.
Aethon sentiu algo se mover dentro do peito.
— Então não estou sozinho.
Enquanto isso, no vilarejo, Rute enfrentava seu próprio isolamento.
As crianças não se aproximavam mais. Adultos conversavam em voz baixa quando ela passava. Ainda assim, uma pequena figura surgiu à sua frente.
— É verdade que você conhece um dragão? — perguntou um menino.
Rute ajoelhou-se.
— Conheço — respondeu.
— Ele machuca pessoas?
— Ele protege quando pode.
O menino pensou por um instante.
— Então… ele pode nos proteger também?
Rute sorriu com suavidade.
— Talvez. Se vocês permitirem.
Mais tarde, naquela noite, Aethon desceu novamente aos limites do vilarejo. Não em segredo, mas também não em desafio. Apenas presença.
Rute o aguardava.
— Alguns ainda me odeiam — disse ela.
— Alguns dragões também — respondeu ele.
— Mas outros começaram a ouvir.
Aethon assentiu.
— Ouvir é o primeiro passo de uma aliança.
Do alto das árvores, sombras se moveram.
Lyren surgiu primeiro, pousando com respeito.
— Não vim para lutar — declarou.
Kaelith apareceu em seguida.
— Nem eu.
Rute sentiu o coração acelerar.
— Eles… — começou.
— Estão do nosso lado — completou Aethon.
Lyren voltou-se para a menina.
— Você falou quando todos se calaram — disse. — Isso exige coragem.
Rute engoliu em seco.
— Só disse a verdade.
— Às vezes — respondeu Lyren — isso é o mais perigoso.
Na mesma noite, longe dali, Draco observava das alturas.
Ele viu os dragões pousarem perto dos humanos.
E sentiu algo que não gostava.
Perda de controle.
— Ele está reunindo seguidores — rosnou.
Xanadu permaneceu em silêncio.
— O reino está mudando — continuou Draco. — E mudanças trazem guerra.
— Ou evitam uma — respondeu o pai.
Draco cerrou as garras.
— Você hesita.
— Eu observo.
No vale, Aethon sentiu o peso da decisão que se formava.
Não bastava acreditar.
Era preciso agir.
— Se vamos construir algo novo — disse ele a Lyren e Kaelith — precisaremos de confiança. E sacrifício.
— Estamos cientes — respondeu Lyren.
Rute olhou para os dragões.
— E os humanos?
Aethon pousou o olhar nela.
— Começaremos com poucos.
Naquela noite, uma pequena aliança nasceu.
Frágil.
Imperfeita.
Mas real.
E, no Reino de Cristal, isso era mais perigoso do que qualquer chama.