Lorena O camarim ainda cheirava a fumaça lavada, como se a água tivesse passado pano na memória do fogo sem conseguir tirá-la de mim. Encostei a testa no espelho frio. A lua de aço lá fora devia estar testando o dimmer; aqui dentro, a luz amarela denunciava cada risco da minha pele. A cicatriz no queixo, antiga, parecia um traço novo. Vidro sobre a pele, pensei. Não sangra, mas arranha por dentro. — Quer escolta fixa, estrela? — Deise ergueu as sobrancelhas, grampos nos dentes. — Não. — Minha voz saiu limpa, sem tremor. — Eu aceito caminho escoltado quando for necessário. Mas permanente, não. Eu ando com as minhas pernas. Ela assentiu, porque me conhece. Pipa encostou na ombreira, discreto, rádio colado no ombro. — Códigos mudaram — avisou. — “Luz baixa” virou oração; “eclipse” virou

