Lorena A luz amarela do camarim não perdoa costura torta. Passei os dedos pelo forro do vestido e senti um relevo que não era meu: ponto miúdo demais, linha sintética dura, cheiro de cola barata. Empurrei a unha com cuidado até pescar o que vibrava leve como medo — uma pastilha redonda, do tamanho de uma moeda de dez centavos, mas lisa, preta, com um fio translúcido embutido no tecido. Rastreador. — Deise, quem mexeu nesse vestido? — perguntei, sem erguer a voz. Ela levantou os olhos do grampo. — Eu não. Você levou pra arrumar? — Não. — Pus a pastilha entre a pele e o forro como quem guarda dente quebrado na língua. — Então alguém trouxe a costura até mim. Pipa encostou na ombreira, rádio no ombro. O olhar dele perguntou sem perguntar. — Tudo certo — menti, por ora. — Só preciso de a

