— Você tem certeza do que está fazendo, irmão? — pergunta Nerone na volta para casa.
Nerone já tinha percebido há algum tempo que os treinos do seu irmão haviam mudado; já não eram mais como antes, e, quando ele tinha sido levado para treinar com o esquadrão especial de Ricardo em uma selva, teve a confirmação de que algo estava mudando. Mas Nerone era paciente, sabia esperar. Ele não pressionava seu irmão por respostas; apenas respeitava o tempo de Aurélio. Sempre tinha sido daquela forma, e era algo que não o incomodava.
Durante os primeiros anos de convivência entre Nerone e seu irmão, tinham sido um mistério para ele os sumiços no meio da noite, algo que não parecia incomodar Oksana. Ele apenas observava, dia após dia, esperando o momento em que seu irmão lhe contaria tudo. À medida que os treinos de Nerone se intensificavam, ele entendia que o mistério que cercava seu irmão seria desvendado.
— Tenho. Não me faça essa pergunta novamente. Tudo o que desejo, de agora em diante, é um pouco mais de tranquilidade para estar com os seus sobrinhos e minha loira. — responde ele com um sorriso de canto.
E ali estava aquele lado de Aurélio que poucos conheciam, que apenas os mais próximos viam e sabiam identificar em seus olhos. O amor que o mafioso tinha por sua família ultrapassava barreiras, e Nerone entendia o desejo de Aurélio de ficar mais próximo da família.
— Esse nome é seu; me parece mais certo passá-lo a um dos seus filhos. — rebate Nerone com um suspiro.
Nerone se sentia como um ladrão roubando algo dos seus sobrinhos, e não lhe importava o que fosse; ele respeitava os direitos dos pequenos e os amava demais para querer algo que lhes pertencia.
— Seytan foi criado para que os nossos demônios se manifestassem sem ferir quem amamos, Nerone — fala Aurélio em voz baixa, com os olhos fixos na estrada à sua frente —, meus filhos não têm nenhum demônio para dominar, mas você tem, irmão.
Aurélio não precisava dizer mais nada para que Nerone entendesse.
— Eu estou sob controle, irmão. — responde, com o maxilar trincado de raiva.
— Sei, fala isso para os meninos que estão comendo de canudinho agora. — responde Aurélio com um sorriso de canto. Ele tentava pegar leve com o irmão, mas, às vezes, era necessário que lembrasse a Nerone que havia alguém que mandava nele.
— Se eles não tivessem chegado perto da Amália, nada disso teria acontecido.
Poucos brincavam com Nerone, e menos ainda se aproximavam dele. Todos sabiam que o Donati tinha um ponto fraco: Amália, a doce hacker da Fênix.
— Entenda, Nerone, você jamais vai ganhar a simpatia de Amália machucando as pessoas de quem ela gosta. Precisa se controlar melhor, e esse é um dos motivos pelos quais estou passando a cadeira de Seytan para você. No futuro, se você não quiser mais, escolheremos alguém à altura para te substituir. Até lá, você é Seytan.
Não tinha sentido discutir. Nerone sabia quando tinha perdido uma discussão, e, pela forma como os olhos do seu irmão o encaravam, aquela era uma daquelas vezes.
Ele não negaria: gostava da ideia de ser Seytan, poder fazer coisas que, para muitos, eram demais, mas que, para ele, eram apenas como um passeio no parque. Um sorriso curva os seus lábios ao pensar em tudo o que faria daquele momento em diante. Nerone não era mais um menino; já era um homem e sabia lidar com as suas ações.
— O noivado está chegando. — diz Aurélio, interrompendo os pensamentos de Nerone.
— Eu sei. — diz com um suspiro.
— Sua cunhada já separou uma lista imensa de anéis de noivado para você dar uma olhada. — diz Aurélio, rindo ao ver os olhos de seu irmão se arregalarem.
— Não vai ser necessário, já tenho o anel. — diz ele, para a surpresa de Aurélio.
— Quando comprou um anel? Até dias atrás você nem sabia o que era a puberdade!
Nerone revira os olhos com as palavras do irmão. Ele ainda se lembrava das aulas vergonhosas de biologia na casa do irmão; era ainda pior ter Dandara por perto. Ele definitivamente não gostaria de se lembrar daquilo.
— Fiz o anel quando fizemos o acordo com o pai dela. — confessa ele, um pouco sem graça.
— Você fez? — pergunta Aurélio, surpreso.
— Sim. Um sócio de Ricardo me ensinou. — diz, dando de ombros.
Nerone era bom em design de joias, não que fosse entrar naquela profissão. Ele já tinha criado peças incríveis e até vendido algumas delas por pequenas fortunas. Ele era o designer desconhecido, e, a cada dia que passava, as poucas peças que tinha lançado ganhavam mais valor no mercado.
— Oh, não! Meu irmão não vai se transformar nesses caras afeminados por aí. — diz Aurélio, balançando a cabeça.
— Ficou louco, irmão!
— Antes que isso aconteça, eu te deixo em uma selva deserta, garoto. Tem que honrar as calças que usa. Pobre da Amália se descobrir esse seu passatempo.
— Está exagerando, foi apenas um anel. Queria dar algo a ela que fosse diferente, e não apenas mais um diamante em uma vitrine. — diz ele com um suspiro.
Aurélio contém o riso. Ele gostava de implicar com o seu irmão; ver Nerone corado era coisa rara, então aproveitava as raras oportunidades.
— Quem diria que haveria um coração gentil nesse seu peito. — diz Aurélio, segurando o riso.
— Olha quem fala. Você ainda carrega a bala do tiro que a cunhada te deu. — responde Nerone, com a sobrancelha arqueada.
De forma inconsciente, a mão de Aurélio se move em direção ao colar no seu pescoço, apertando o pingente entre os seus dedos.
— É meu amuleto da sorte. Desde que Oksana me deu aquele tiro, a minha vida mudou para melhor.
— Se os outros te virem assim, vão duvidar que se trata do poderoso Dom Aurélio Donati.
— Diga o que quiser, Nerone. Quando se trata daquela loira, eu não me importo. — diz ele, piscando para o irmão.