Capítulo 82

993 Words
Max estava sentado diante de Aurélio e dos outros com uma grande carranca no rosto. Ele desviou o olhar para o relógio na mesa, que marcava exatamente quatro da manhã, o vinco em sua testa se aprofundando ao perceber o quão cedo o tinham acordado. No momento em que Isabel entrou na sala com uma bandeja de café, o rosto de Max ficou ainda mais sombrio. Ele se levantou, foi até ela e pegou a bandeja de suas mãos delicadas, colocando-a sobre a mesa. — Não devia fazer isso. Não pode carregar peso. — disse ele, guiando-a para o sofá. — Isso não é peso. — disse, sorrindo. — Seu pai me esfola se souber disso. — disse Max, como se aquela explicação justificasse os seus atos, e justificava. Todos ali conheciam bem a fama de Dom Vito, mas ainda não tinham entendido o motivo de todo aquele cuidado. — Perdemos algo? — perguntou Aurélio, com a sobrancelha arqueada. — Isabel está grávida. — disse ele com um sorriso orgulhoso no rosto. — Parabéns, cara. Espero que puxe a mãe. — disse Aurélio, dando um abraço em Max. — Vai se ferrar, Aurélio. — disse ele, mas tinha um sorriso no rosto. — Parabéns, Isabel! — disse Oksana, abraçando Isabel com força. — Espero que venha mais uma menina por aí. Os olhos de Max se escureceram na mesma hora. Ele não imaginava alguém tocando o seu bebê. A angústia tomou o seu peito, então ele sentiu uma mão suave em seu braço. Quando encontrou os olhos tranquilos de Isabel, se acalmou. Lidaria com aquilo quando chegasse a hora. — Deixe-me adivinhar por que apareceram na minha porta a essa hora — disse Max, sentando-se e puxando Isabel para o seu lado, um braço possessivo em sua cintura enquanto a outra mão descansava em sua barriga. — Kenai. — Olha, se fosse outro dia, eu até deixaria o índio dar uma surra no Bernardo, mas hoje isso não rola. Preciso do meu braço direito inteiro, ou vou ter que trabalhar mais, e, se eu trabalhar mais, vou perder as minhas noites românticas com a Oksana, e isso não vai acontecer. — disse ele, fitando fixamente Max ao falar. — Sério que só vai me ajudar por isso? — perguntou Bernardo, com a sobrancelha arqueada. — Claro que não, você é o cara. — disse, apontando para ele. Max revirou os olhos. Ele podia ver que Aurélio estava apenas jogando com o pobre Bernardo, mas estar ali àquela hora da manhã apenas provava o quanto o terrível Dom Aurélio estimava o amigo. — Você vai querer falar com ele? Isso pode terminar m*l. — disse Max enquanto pegava um cigarro no bolso, mas, quando olhou para Isabel, gemeu, jogando o maço sobre a mesa. Isabel riu da cara chateada do marido, inclinou-se e deu um beijo em sua bochecha. — Se Bernardo quer Iara, ele a terá, Max. Faço o que for preciso. — respondeu Aurélio com uma voz firme, os olhos mostrando que ele não abriria exceção. Aurélio era grato a Bernardo por tudo o que ele tinha feito, por sua ajuda e lealdade ao longo daqueles anos ao seu lado. Uma noiva era apenas uma coisa pequena aos seus olhos, nem que ele entrasse em uma guerra, Bernardo teria o que desejava. — Ele vai te desafiar. — disse Max, virando-se para Bernardo. — Espero que saiba disso. — Sei, e não vou fugir. — Bernardo tinha honra, era homem e faria o que fosse preciso para ter sua bela de olhos castanhos. — Querem que eu fale com a Fiorela? Ela pode ajudar. Quem sabe Kenai não desiste do desafio. — disse Isabel. — Agradeço a boa vontade, senhora, mas isso é coisa de homem. Se eu fugir desse desafio, só vou dar motivos para o Kenai não me aceitar. Vou ganhar a Iara com o meu próprio esforço. — disse ele, deixando todos satisfeitos com a sua resposta. Kenai era mestiço, e Bernardo sabia que a honra era algo vital no meio do seu povo. Ele precisava provar ao líder que era capaz de cuidar de Iara e que honraria sua palavra diante do povo dele. — Espero que tenha um bom motivo para ter me acordado a essa hora. — disse Leonardo, entrando na sala enquanto esfregava os olhos. Assim que viu os outros, parou. — Desculpe, não sabia que tínhamos companhia. — Está tudo bem, Leo. Eles você já conhece. — disse Max. — Sim. — disse ele, virando-se para Aurélio. — É um prazer revê-lo, Dom. — Continua o mesmo, Leo. — disse Aurélio. — Preciso que vá até a casa de Kenai, Leo. Traga-o aqui, preciso falar com ele. — disse Max. Quando Leo se voltou para os convidados, entendeu na mesma hora o que estava acontecendo, mas não negaria um pedido do seu Dom, mesmo que seu amigo quisesse arrancar o seu pescoço quando soubesse o motivo. — Como desejar, Dom. — disse ele antes de se retirar rapidamente da sala. O pensamento de Leo estava apenas em Kenai. Ele odiaria aquela visita àquela hora da manhã, ainda mais se tratando de seu dia de folga, quando podia aproveitar a sua esposa. Só de pensar, sentia o corpo se arrepiar. — Essas coisas só sobram para mim. — disse, resmungando enquanto entrava no carro e dirigia em direção à vila que ficava dentro da propriedade da máfia. O caminho até a pequena vila tinha sido rápido e silencioso. Assim que chegou à entrada, um dos vigias se aproximou e sorriu quando o viu. — Tá ferrado, Leo. — disse o homem, sorrindo. — Ele odeia ser acordado cedo no dia de folga. — E você acha que eu não sei? — disse ele enquanto entrava com o carro. — Eu preciso de um aumento, isso sim. Leo estacionou na frente da casa de Kenai e, com um último suspiro de coragem, caminhou até a porta.
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