Capítulo 80

1150 Words
Bernardo não sabia o que faria. Ele estava no meio de uma missão a serviço de Max e, já que estava ali, não custava ajudar com o que ele precisava. Para seu infortúnio, era com Kenai, e o pensamento sobre Iara o assombrava sempre que encarava o rosto do subchefe da máfia Valentine. Eles estavam invadindo um dos galpões inimigos. Tentavam recuperar algumas mercadorias que tinham sido furtadas alguns dias antes. Ao que parecia, ainda havia idiotas que tentavam aquele tipo de golpe. Nem veriam a morte chegando. — Preciso falar com você, Kenai. — diz ele enquanto um dos homens explodia a porta de entrada e o tiroteio começava. — Mais tarde, agora não dá. — responde ele enquanto atirava em alguns alvos atrás de Bernardo. — Tem que ser agora. — insiste Bernardo enquanto o cobria, atirando em qualquer um que se aproximasse. Bernardo não queria perder a coragem, e sempre que ia falar com Kenai isso acontecia, então tinha que ser naquele momento, enquanto ainda conseguia articular o que queria dizer. — Vai acabar morrendo se continuar me distraindo. — diz Kenai, ignorando-o. Vendo que Kenai não o ouviria, Bernardo puxa o ar com força antes de soltar o que estava preso havia tempos em sua garganta. — Eu quero me casar com a Iara. — solta ele de uma vez, fazendo Kenai parar na mesma hora. Kenai se vira para Bernardo com a arma apontada para o rosto dele, os olhos em brasa. — O que você disse? — pergunta ele, furioso, ignorando os tiros à sua volta. — Repete se for homem. Tudo bem, talvez aquele não tivesse sido o melhor momento para aquela conversa, ainda mais quando Kenai estava armado, mas agora Bernardo já tinha falado e era tarde para se arrepender. — Eu gosto da Iara, quero me casar com ela. — diz ele novamente, bem no momento em que os tiros param. Bernardo podia ver os olhares dos homens à sua volta. Ao que parecia, nenhum deles gostava daquela ideia, mas que se f**a. Ele gostava de Iara e não abriria mão dela por causa dos olhares estranhos dos outros. — Você quer morrer, Bernardo? Tenho respeito por você, mas vou esquecer isso se insistir nesse assunto. — diz ele com o maxilar trincado. — Por que não posso me casar com ela? — insiste ele, dando um passo em direção a Kenai. — Ela não é para você. Não vai brincar com uma das mulheres do meu povo. — diz ele, também avançando um passo, a raiva visível em seus olhos. — Ela não é uma prostituta que você pode usar. Não vai magoá-la, Bernardo, não enquanto eu estiver aqui. Bernardo olha em volta e vê os homens de Kenai concordando com suas palavras, mas eles haviam entendido errado. Bernardo não queria apenas uma noite com Iara; ele a queria para a vida, como a única mulher em sua cama. — Você não entende... — começa ele, mas Kenai o interrompe. — Você que não entende! Já vi isso várias vezes, Bernardo. Alguém de fora se interessa por um dos nossos, promete o mundo e depois vai embora, deixando apenas dor para que o nosso povo conserte. Iara é uma boa mulher, leal à família. Não vou deixar que a use e depois a descarte quando perceber que não é isso que você quer. Kenai cospe no chão com raiva. Ele não suportava aquela hipocrisia que Bernardo tentava impor. Seu povo já tinha sofrido demais, e ele não permitiria que aquilo acontecesse novamente. Seu dever era cuidar dos seus, e faria isso de qualquer forma, mesmo que tivesse que matar o homem à sua frente. — Quero ela para a vida, Kenai, não para uma noite. Desejo que ela seja a mãe dos meus filhos, a única pessoa em minha vida e na minha cama! — diz, frustrado. — Diz isso agora, mas quando os seus não a aceitarem, você voltará arrependido, devolvendo-a, e aí o estrago já estará feito. — diz ele, abaixando a arma. — Mas eu... — Não insista, ou o seu Dom receberá apenas os seus restos. Bernardo não duvidava daquilo pela forma como os olhos de Kenai estavam sobre ele, então apenas ergue as mãos, rendendo-se. Aquela conversa não tinha saído como ele esperava, e a frustração o toma ao pensar em tudo o que tinha ouvido de Kenai. Eles terminam o serviço, recuperam as armas e voltam para a mansão. Assim que entra na mansão, Bernardo encontra Max no sofá com Isabel em seus braços. Ela dormia agarrada ao peito dele, e aquela dor no peito de Bernardo apenas aumenta ao perceber que talvez não tivesse aquilo com Iara. — Pelo que vejo, você falou com ele. — diz Max ao ver a expressão de Bernardo. — Falei, ele não concorda. — responde com um suspiro enquanto pegava uma bebida e se sentava. — Eu te disse isso. — fala Max baixo, para não acordar Isabel. — Ele está errado sobre mim, Max. Não desejo brincar com ela. Desejo aquela mulher profundamente, quero uma vida com ela. — diz com um suspiro enquanto virava a bebida de uma vez. — Você precisa entender o lado dele, Bernardo. Eles têm muitos mestiços por causa disso, então Kenai é muito cuidadoso com as pessoas que se envolvem com os seus. O problema em si não eram os mestiços, mas o abandono que sofriam das pessoas que deveriam cuidar e protegê-los. — Peça ao Aurélio para falar com ele. — diz Isabel com a voz sonolenta, sentando-se. — Desculpe, querida, não queria te acordar. — diz Max, puxando-a para si, a mão descendo para o ventre dela. — Está tudo bem. — responde ela com um bocejo. — Está grávida? — pergunta Bernardo, surpreso. — Sim, descobrimos hoje quando o médico veio. — diz ela com um sorriso no rosto. — Parabéns para vocês. Dom Vito vai ficar muito feliz. — comenta Bernardo com um sorriso de canto. Max geme ao imaginar o que o sogro faria com ele. Isabel ri do desespero do marido. — Faça o que eu disse, Bernardo. Chame Aurélio para negociar por você. Kenai precisa de segurança, da sua palavra de homem de que vai cuidar e honrar Iara, e Aurélio será sua confirmação. — Ela está certa. Ele não vai te negar uma oportunidade se Aurélio falar com ele. — reforça Max. — Vou fazer isso agora. — diz, levantando-se rapidamente. — Espere até amanhã ao menos. — pede Isabel. — Não posso, senhora. Ele sabe que eu a quero. Não vou correr o risco de entregarem a minha Iara a outro homem. — responde com os olhos sombrios. — Então tome cuidado e nos avise se precisar de algo. — diz Max antes de tomar Isabel nos braços e sair da sala. Agora Bernardo tinha um novo objetivo, e tinha pressa.
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