O silêncio na mansão de Lorel não era reconfortante naquela noite — era pesado, como se as paredes pudessem sufocá-lo a qualquer momento.
Ele permanecia sentado atrás de sua ampla mesa de madeira escura, os dedos entrelaçados diante dos lábios, o olhar perdido em algum ponto indefinido do escritório — aquele lugar que lhe era mais reconfortante do que qualquer outra parte da casa. A luz baixa do abajur projetava sombras longas pelas paredes, como se o ambiente inteiro conspirasse para ampliar o turbilhão dentro de sua mente.
Nerone.
O nome parecia ecoar dentro dele, insistente. Lorel não conseguia tirar o rapaz da cabeça. Havia algo nele que o atraía: a forma como agia, o modo de olhar, a postura… mas, acima de tudo, aquela marca. Aquela bendita marca era o motivo de suas noites perdidas desde o dia em que a vira.
— Não… — murmurou para si mesmo, a voz baixa, rouca, dominada pela incerteza.
Aquilo não fazia sentido.
Lorel sentia que estava deixando algo escapar naquela história, e isso o frustrava ainda mais — como se não tivesse investigado o suficiente. E, agora, percebia que talvez isso fosse verdade.
Era algo mais profundo. Algo… familiar.
Mas sua mente se recusava a ajudá-lo naquele momento, por mais que ele tentasse, de forma exaustiva.
Lorel passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro carregado. Já havia conhecido muitos homens perigosos, visto jovens promissores surgirem e desaparecerem como faíscas no escuro. Mas Nerone não era uma faísca.
Ele era… um incêndio contido.
E isso o perturbava mais do que deveria.
Levantando-se lentamente, Lorel caminhou até a grande janela do escritório. Do lado de fora, a escuridão envolvia os jardins impecavelmente cuidados, enquanto a água da fonte refletia a luz pálida da lua. Tudo estava em ordem.
Tudo, exceto aquilo dentro dele.
Aquele vazio que doía noite após noite, alimentado pela falta e pela saudade.
Lorel queria poder aplacar aquela dor. Queria cumprir a promessa que fizera ao irmão em seu leito de morte. Mas o destino parecia c***l demais para permitir isso.
A imagem voltou à sua mente com uma clareza irritante.
A marca.
Ele fechou os olhos por um breve instante, como se pudesse apagar a lembrança — mas ela veio ainda mais nítida.
A mesma curva. O mesmo traço.
O mesmo desenho impossível de ignorar, que ele havia visto durante tantos anos e que agora existia apenas em sua memória.
— Não pode ser coincidência… — sussurrou, agora mais firme.
Lorel não acreditava que o destino pudesse ser bondoso com ele. Não depois de tudo o que fizera. Havia cometido mais erros do que poderia contar.
Mas talvez… apenas talvez… alguém lá no alto estivesse com pena do seu sofrimento.
E essa incerteza o consumia.
Virando-se abruptamente, caminhou até a mesa e puxou a gaveta com mais força do que o necessário. Por um instante, hesitou.
Como se soubesse que, ao confirmar aquilo, não haveria volta.
Ainda assim, abriu.
Os seus dedos encontraram o papel com facilidade, como se já soubessem exatamente onde procurar. Retirou a fotografia com cuidado, mas seu aperto se tornou involuntariamente mais firme ao encará-la.
Uma jovem mulher, com um sorriso aberto e olhos cheios de vida.
Sentada à beira de uma piscina, com os pés tocando a água, como se o mundo fosse leve demais para preocupações.
E ali, em suas costas…
A mesma marca.
Aquela bendita marca que o atormentava até hoje.
Ele queria poder voltar no tempo. Queria tê-la encontrado antes que desaparecesse, antes que escapasse de sua proteção.
Ele havia falhado.
E agora, tudo o que lhe restava era o gosto amargo da derrota na boca sempre que pensava nela.
Lorel ficou imóvel.
O seu peito subia e descia lentamente, mas havia tensão em cada músculo de seu corpo.
— Isso é impossível… — murmurou, embora a sua própria voz estivesse vazia de convicção.
Porque ele sabia que não era.
Sentia nos ossos que havia algo ali — algo essencial — que lhe escapava. E aquilo era a chave para o mistério que o perseguia há tantos anos.
Passou o polegar sobre a imagem, quase com reverência, como se tocar aquela marca no papel pudesse lhe trazer respostas que a realidade insistia em negar.
Memórias antigas ameaçaram emergir.
Um homem moribundo em uma cama, segurando as suas mãos como se fossem sua única salvação. Os olhos castanhos, desgastados pela doença, o encaravam com uma intensidade que fazia o ar faltar.
As palavras que deixaram os seus lábios antes da morte…
Lorel jamais esqueceria.
— Por favor… — disse o homem, com dificuldade, a respiração abafada pela máscara. — Por favor, encontre… proteja a minha menina…
Foram poucas palavras, mas suficientes.
As últimas de sua vida. E todas direcionadas a ela.
Sua filha.
Lorel cerrou a mandíbula, afastando as lembranças antes que tomassem forma completa.
Ele não podia se permitir ir tão longe sem provas.
Mas algo estava errado.
Errado demais para ser ignorado.
Nerone não era apenas um jovem promissor ligado à Fênix.
Ele era um Donati.
E aquilo não se encaixava.
Não era preciso pensar muito. A semelhança com Aurélio era evidente — os mesmos olhos azuis intensos, o mesmo cabelo n***o como a noite, a mesma postura imponente.
Com um movimento brusco, colocou a fotografia sobre a mesa, ao lado de um conjunto de documentos.
Os seus olhos voltaram a ficar frios.
Calculistas.
Agora não havia mais espaço para dúvidas.
Apenas para ação.
— Eu vou descobrir quem você é de verdade… — disse, em tom baixo, carregado de determinação.
Ele caminhou até o telefone e discou um número que não usava com frequência.
Se alguém poderia trazer respostas, era aquela pessoa.
E, desta vez, Lorel não iria parar na superfície.
O passado de Nerone seria desenterrado.
Mesmo que isso trouxesse à tona coisas que deveriam ter permanecido enterradas…
Para sempre.