Capítulo 32

1021 Words
Nerone não perdeu tempo. Aproximou-se da garota e, com cuidado, retirou a venda dos seus olhos. A luz fraca do ambiente a fez piscar várias vezes, desorientada. Havia semanas que estava naquela cela, eles sempre faziam questão de deixar os seus olhos vendados quando vinham trazer a sua comida. A mulher na cela se sentia perdida, os seus olhos doendo quando ela os abriu. Estava tão acostumada com o escuro que naquele momento sentia uma leve tontura com a luz daquele lugar. Quando a suas vistas se acalmam ela encara o homem a sua frente, ela treme. Ele tinha uma postura firme e imponente, tudo nele gritava perigo, e pela forma que o olho dele a encarava ela sabia que aquilo era verdade. Tinha lábios delicados para um homem, um rosto bonito para alguém que exalava perigo, e os seus cabelos negros eram tão espessos que mesmo diante daquela situação ela sentia vontade de tocá-los. — Consegue ficar de pé? — perguntou, em voz baixa. Ela hesitou por um instante, mas assentiu. A voz dele causando arrepios em sua pele. As palavras dele não eram bem um pedido, estava mais como uma ordem que ela sentia o desejo de obedecer sem questionar. Era inegável o fato de que o homem a sua frente estava mexendo profundamente com ela. Nerone se abaixou, soltando rapidamente as algemas de seus pulsos e tornozelos. Assim que ficou livre, a menina vacilou — o corpo fraco quase não a sustentava. Ele a segurou antes que caísse. Ela arfa ao ser amparada por ele, presa em seu peito firme. — Ei… calma — murmurou, firme, mas sem brusquidão. — Eu vou te tirar daqui, mas você precisa confiar em mim. Os olhos dela, ainda assustados, encontraram os dele. E, de alguma forma… ela acreditou. Nerone segurou a sua mão. — Sem barulho — sussurrou. — E, quando eu parar, você para. Entendeu? Ela assentiu novamente. Não sabia se conseguiria encontrar a sua voz novamente. Por um momento ela havia esquecido de onde ela estava, estava tão perdida na beleza do homem a sua frente que se esqueceu que estava em cativeiro, e que dependia dele para finalmente sair daquele lugar. Guiando-a com cuidado, ele a levou até o ponto onde havia descido do duto. Com agilidade, subiu primeiro e, em seguida, estendeu a mão para ela. — Vem. Com esforço, ela conseguiu subir, sendo puxada por ele para dentro do espaço estreito. Assim que entrou, Nerone fechou a passagem atrás deles. Não podia deixar rastros ou seria descoberto, ele apenas esperava que a mulher a sua frente fosse forte o suficiente para sair daquele lugar. O silêncio voltou a reinar. Eles começaram a avançar pelos dutos. O espaço era apertado, abafado, e o som da respiração da garota parecia alto demais. Nerone seguia à frente, atento a cada ruído, a cada vibração mínima da estrutura. Então, mais a frente ele parou. A mão ergueu-se no ar. A garota congelou imediatamente. Passos. Bem abaixo deles. — …o chefe quer uma varredura completa. — Já falei, ninguém entra aqui sem a gente saber. Nerone cerrou o maxilar, aquilo não era bom. Eles precisavam sair dali antes que eles começassem a sua verificação de segurança, ou seria tarde de mais. Esperou. Contou mentalmente os segundos. Os passos se afastaram. Ele voltou a se mover. No começa de vagar, então se apreçou um pouco mais, não podia perder tempo. A cada metro percorrido, o ar parecia mais pesado. Em outro ponto, novas vozes. Eles param e aguardam que os mercenários a baixo se afastassem para poder continuar. A garota tremia atrás dele, e Nerone podia sentir o medo dela através da forma que ela se movia. A garota estava prestes a desmoronar, e ele precisava garantir que ela estivesse fora daquele lugar quando isso acontecesse, ou estaria com problemas, sérios problemas. — Estamos quase saindo — sussurrou, quase inaudível. E seguiram. Minutos que pareceram horas, até que, finalmente, a saída surgiu à frente. Nerone abriu a grade com cuidado, observando o lado de fora antes de sair. Estava tudo tranquilo, da mesma forma que na hora em que ele tinha entrado. Ele desceu primeiro e ajudou a garota logo em seguida. O ar da noite os atingiu como um alívio imediato. — Estamos quase lá — disse, baixo. Segurando-a novamente pela mão, começou a guiá-la em direção à mata. Mais alguns metros… Só mais alguns. — PARADOS! A voz veio como um tiro. Nerone travou no seu lugar, a mão firmando a pistola que ele levava, o seu olhar vasculhando a floresta a sua volta buscando a ameaça que se aproximava. O seu corpo inteiro enrijeceu no mesmo instante. Lentamente, ergueu o olhar, e viu vários homens se aproximando por todos os lados, todos bem armados. Eles estavam cercados, sem nenhuma chance de escapar daquele lugar. Nerone praguejou baixo, o sangue fervendo nas veias enquanto analisava rapidamente as opções. Nenhuma boa, mas ele não tinha muita escolha, não sairia daquele lugar sem lutar. A garota apertou a sua mão com força, em puro desespero. Ela se recusava a voltar para aquelas celas novamente, aquilo não era vida e ela preferia morrer a passar por aquilo novamente. — Fica atrás de mim — murmurou. Ela obedece sem questionar, precisava confiar nele para que pudessem deixar aquele lugar. Com um movimento lento, calculado, soltou a mão dela. — Melhor se render, ou vão morrer juntos nessa ilha. — diz um homem se aproximando. Nerone manteve o olhar fixo, frio, mesmo sabendo o que viria. Ele conhecia aquele homem, era nada mais nada menor que o filho sadico do dono da Toca, alguém que apenas quem estava no submundo conseguia reconhecer, ele estava perdido. Nerone soltou a pistola no chão e ergueu as mãos lentamente, tudo o que podia fazer naquele momento era ganhar tempo até pensar em outra coisa. Um soldado se aproximou de pressa, o golpe foi rápido, a dor explodiu em sua cabeça antes que ele pudesse reagir. O mundo girou, a suas pernas cederam. E, enquanto tudo começava a escurecer, ele ouviu o grito desesperado da mulher que tentara salvar.
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