Capítulo 39

995 Words
O canto dos lábios de Nerone se ergueu devagar. Um sorriso raro, mas que agora estava ficando cada vez mais frequente. Os seus olhos estavam presos na tela do celular, acompanhando cada passo desajeitado de Silas sob o sol escaldante. A imagem tremia levemente — transmissão ao vivo — mostrando o homem girando em círculos, perdido, desesperado. Yuri tinha feito um bom trabalho novamente, e como Oksana tinha previsto, estava sendo bem mais divertido ver o sofrimento de Silas do que apenas lhe dar uma surra. — Eu nunca vou me cansar disso… — diz ele em voz baixa. — Do quê? A voz veio atrás dele. Charles se aproximou sem cerimônia, inclinando-se por cima do ombro de Nerone. Levou apenas alguns segundos para entender. E então caiu na gargalhada. Ao que parecia a fruta não caia longe do pé, Nerone era tão c***l quando o irmão. — Não acredito nisso! — disse, limpando o canto dos olhos. — Eu quero morrer seu amigo! Nerone não tirou os olhos da tela. — Você já é. — Graças a Deus por isso! — Disse ainda rindo. — Isso aqui… isso aqui é outro nível de maldade! — Nem é tão r**m assim. — Ele tá no meio de um deserto, Nerone! — Com água e uma bússola. Charles virou o rosto para ele, incrédulo. E pela forma que o encarava percebia que o garoto a sua frente não estava disposto a terminar aquela brincadeira tão sedo. — Você ainda deu uma chance pra ele? — Eu não sou injusto. Bernardo, que observava a cena mais afastado, soltou um breve riso baixo. — Está aprendendo rápido — comentou. Charles olhou para ele. — Aprendendo com quem? — Pergunta Charles curioso. Bernardo arqueou levemente a sobrancelha. — Oksana. Por um segundo, Charles ficou em silêncio. Então riu mais alto ainda, ele já devia ter imaginado aquilo, a princesinha russa era especialista em se vingar com estilo. — Ah… agora faz sentido! Nerone finalmente travou a tela do celular, guardando-o no bolso com calma. — Ainda estou longe das habilidades dela. — Graças a Deus — murmurou Charles. — Já basta uma daquela. Bernardo soltou um leve riso, mas não comentou. Sabia bem que, no fundo Nerone não estava tão longe assim. A cada dia ele se superava e provava que estava levando cada ensinamento muito a sério. O ambiente estava mais calmo quando Ricardo apareceu. — Nerone. — chama ele sem rodeios. Nerone ergueu o olhar imediatamente. — Sim, chefe? — Lamento estragar a sua folga garoto, mas Lorel quer falar com você novamente. — diz ele dando um tapinha nas costas de Nerone. — Ele disse do que se tratava, chefe? — Pergunta ele. — Não, e não gosto disso — disse Ricardo, sem suavizar. — Ele anda esquisito nos últimos dias, e não tem respondido a muitas das nossas perguntas. — Se quiser posso dar um susto nele, para que ele aprenda o seu lugar. — responde Charles com um sorriso de canto. Os olhos de Ricardo se estreitaram levemente. Avaliando. — Não vai ser necessário. — Diz ele olhando para Nerone com a sobrancelha arqueada. Nerone havia entendido. — Vou ficar de olho nele, e qualquer coisa aviso. — diz Nerone. — Se perceber algo fora do normal não se arrisque, apenas nos avise que enviaremos reforços. — adverte ele. Nerone entendia o cuidado de Ricardo, e ele não costumava brincar em missão. — Vou fazer isso. — diz ele já se levantando e saindo. Precisava se despedir de Amália antes de sair novamente. Pegando o elevador ele desce para o laboratório, ao entrar percebe que Amália estava sozinha, o que significava que Alicia estava em missão. Amália estava sentada sobre uma bancada, analisando alguns papéis, com um pequeno pão preso entre os lábios — esquecida do mundo ao redor. Era uma cena simples, mas, para Nerone real maravilhoso a ver daquela forma. Ele encostou no batente da porta por um instante, apenas a observando. Sem fazer barulho ele se aproxima de Amália. Nerone parou bem à sua frente. E, com um movimento calmo, segurou o pão entre os dedos… puxando-o suavemente de sua boca. Amália arregalou os olhos ao ver ele em sua frente. — Ner— Mas não teve tempo de terminar. A mão dele deslizou para a nuca dela a segurando com firmeza, o seu olhar encontrou o dela por uma fração de segundo antes que ele chocasse a sua boca contra a dela. Ele tinha ansiado por aquilo por horas, pelo momento em que poderia sentir os lábios de Amália contra os seus, sentir o gosto dela em sua língua, era a melhor sensação do mundo para ele. Amália soltou um som surpreso, ficando paralisada por um segundo, mas de forma automática ela se apoia no peito de Nerone se derretendo em seus braços. Ela esqueceu completamente do que estava fazendo antes. Esqueceu o lugar e passou apenas a senti-lo, seu corpo quente, a forma que a língua dele invadia a sua boca sem reserva, diferente de qualquer beijo que ela tivesse recebido em sua vida Quando ele se afastou, foi apenas o suficiente para encostar a testa na dela. — Vou sair novamente, — murmurou ele, tentando recuperar o fôlego. — Volta em breve. Amália apenas assentiu para ele, era impossível que ela encontrasse a voz naquele momento. Ele pega o pão que ela estava comendo e leva a boca dando uma mordida com um sorriso no rosto antes de sair do laboratório. Amália olhava para ele sem acreditar no que ele tinha feito, sem se conter ela leva a mão aos lábios sentindo o local onde ele tinha lhe beijado, um sorriso bobo se formando no seu rosto — Se controla Amália! — diz ela para si mesma. — Se lembre que fará da vida dele um inferno. Mas aquelas palavras não faziam mais sentido para ela, e quando as tinha pronunciado, era como ter falado uma grande mentira.
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