Nerone observava Silas dormindo na cama do hospital com olhos sombrios. Ele podia ver o quanto o homem estava acabado, mas aquilo, por si só, não bastava.
— Vai deixá-lo ir? — perguntou Bernardo, observando Nerone da porta.
— Não. — respondeu ele.
A raiva de Nerone não se dissipava apenas com um castigo, e ele tinha muitos planos para Silas. Claro, tudo dependeria do que ele ainda fosse capaz de fazer.
— Não devia ter feito isso. — disse uma das enfermeiras, aproximando-se com uma bandeja nas mãos.
— O que eu faço não é da sua conta. — respondeu ele, sem encará-la.
— Ele quase morreu. — justificou ela.
— Não teria graça se ele morresse. — disse Nerone, com tranquilidade.
A mulher o encarou, e um arrepio percorreu a sua espinha ao encontrar aquele olhar sombrio. Naquele momento, ele fazia jus ao sobrenome Donati.
— É isso que ele é para você? Um brinquedo? — perguntou ela.
— Sim. E quero ver até quando ele dura.
— Você...
— Não se meta onde não deve. Ricardo tem conhecimento de tudo, e, se ele não interveio, não vai ser você que irá fazer isso. — disse Bernardo, entrando na frente de Nerone. Ele odiava funcionários que falavam demais.
— Desculpe, senhor. — disse ela, engolindo o orgulho e desviando o olhar.
— Da próxima vez que der a sua opinião, será o dia em que ficará sem a língua. — disse Nerone, encarando-a antes de sair.
A mulher não respondeu. Sabia que aquilo não era uma ameaça vazia — e, pela forma como eles falavam, entendia que o chefe não interviria.
Bernardo acompanhou Nerone para fora do hospital em silêncio. O garoto não era de falar muito, e ele já havia se acostumado com aquilo.
— Você pode voltar, Bernardo. — disse Nerone, enquanto caminhavam pela noite em direção à casa de Amália.
— Tem certeza disso? — perguntou ele.
— Sim. Tenho outra pessoa para ficar de olho nela. E, de toda forma, meu irmão precisa mais de você do que eu. — explicou.
— Tudo bem, mas você sabe que posso voltar correndo. Basta me ligar.
— Eu sei. — respondeu. — O jato está te esperando na pista. Pode ir para onde quiser.
Bernardo sorriu com aquilo. Ao que parecia, o seu “chefinho” sabia mais do que ele imaginava.
— Quando preciso estar de volta? — perguntou.
— Você tem uma semana de folga. Apenas aproveite. — respondeu Nerone, enquanto retirava a chave do bolso e abria o portão da casa de Amália.
— Valeu, garoto! Nos vemos em breve. — disse ele, já se afastando com mais pressa do que antes.
Nerone não disse nada. Sabia bem que Bernardo estava louco para visitar um certo lugar na máfia de Max, e ficava satisfeito por vê-lo tentando encontrar a sua felicidade.
Ele entrou e foi direto para o quarto de Amália. Abriu a porta e a encontrou ainda com o vestido da festa. Com cuidado, aproximou-se, retirou os sapatos e o terno, seguido da camisa e da gravata. Em seguida, deitou-se ao lado dela, puxando-a para junto de seu peito.
Amália resmungou, aconchegando-se mais a ele, e Nerone sorriu.
Ela podia até mentir para ele, mas jamais conseguiria enganar a si mesma. Tinha sentimentos por ele — era apenas teimosa demais para admitir.
Minutos depois, uma mensagem chegou ao celular de Nerone. Ele pegou o aparelho e olhou. Havia uma foto de Félix com Tess nos braços, um lençol cobrindo o corpo de ambos, acompanhada da legenda: “Problema resolvido.”
Nerone sorriu. Ao que parecia, o filho de Cobra era ainda mais louco do que ele imaginava. Mas, desde que Tess estivesse ocupada com Félix, melhor — assim ela não o atrapalharia com Amália.
Amália acordou no dia seguinte sentindo-se relaxada, mas, quando tentou se mover, um braço a impediu. Ela travou, virando-se para ver de quem se tratava. Um suspiro de alívio escapou ao perceber que era Nerone.
Ela o observou com atenção. Ele dormia tranquilamente, com um braço em sua cintura. O peito à mostra a deixava encantada, mas foi ao encarar o rosto sereno dele que percebeu a oportunidade perfeita para saciar a sua curiosidade.
A mão de Amália se ergueu em direção ao rosto dele.
O tapa-olho preto reluzia à luz da manhã, e ela podia ver um brasão desenhado nele, algo que associava à família dele. Quando os seus dedos tocaram o acessório, Nerone despertou como por mágica, assustando-a.
Amália soltou um pequeno grito e levou a mão à boca.
— O que pensa que estava fazendo, Amália? — perguntou ele.
— Nada. — desconversou, corando ao ser pega em flagrante.
Nerone suspirou. Sabia bem o que ela queria, e só de pensar naquilo já era levado a lembranças que preferia evitar.
— Não gosto que toquem nisso. — disse, apontando para o tapa-olho.
— Você nunca tira? — perguntou ela, mais calma, apoiando a cabeça no ombro dele.
— Só quando estou sozinho… e quando a doutora Simone precisa me examinar. — explicou.
Ele entendia a curiosidade de Amália, mas ainda não estava pronto para que ela visse seu rosto sem o tapa-olho.
— Eu gostaria de ver. — disse ela, após um instante.
— Algum dia, Amália… — respondeu ele, soltando um suspiro. — Algum dia eu te mostro. Só não tente removê-lo enquanto estou dormindo.
Amália ergueu a cabeça e olhou no olho bom de Nerone. Ele estava lhe dando um voto de confiança, sendo sincero — e ela não podia quebrar aquilo por teimosia.
— Desde que você realmente me mostre algum dia, acho que consigo segurar a minha curiosidade. — disse.
Nerone sorriu, inclinando-se sobre ela.
— Em breve você vai ver bem mais do que o meu rosto, tampinha. — disse, com um olhar sugestivo, fazendo-a corar.