Capítulo 59

976 Words
Nerone observava Silas dormindo na cama do hospital com olhos sombrios. Ele podia ver o quanto o homem estava acabado, mas aquilo, por si só, não bastava. — Vai deixá-lo ir? — perguntou Bernardo, observando Nerone da porta. — Não. — respondeu ele. A raiva de Nerone não se dissipava apenas com um castigo, e ele tinha muitos planos para Silas. Claro, tudo dependeria do que ele ainda fosse capaz de fazer. — Não devia ter feito isso. — disse uma das enfermeiras, aproximando-se com uma bandeja nas mãos. — O que eu faço não é da sua conta. — respondeu ele, sem encará-la. — Ele quase morreu. — justificou ela. — Não teria graça se ele morresse. — disse Nerone, com tranquilidade. A mulher o encarou, e um arrepio percorreu a sua espinha ao encontrar aquele olhar sombrio. Naquele momento, ele fazia jus ao sobrenome Donati. — É isso que ele é para você? Um brinquedo? — perguntou ela. — Sim. E quero ver até quando ele dura. — Você... — Não se meta onde não deve. Ricardo tem conhecimento de tudo, e, se ele não interveio, não vai ser você que irá fazer isso. — disse Bernardo, entrando na frente de Nerone. Ele odiava funcionários que falavam demais. — Desculpe, senhor. — disse ela, engolindo o orgulho e desviando o olhar. — Da próxima vez que der a sua opinião, será o dia em que ficará sem a língua. — disse Nerone, encarando-a antes de sair. A mulher não respondeu. Sabia que aquilo não era uma ameaça vazia — e, pela forma como eles falavam, entendia que o chefe não interviria. Bernardo acompanhou Nerone para fora do hospital em silêncio. O garoto não era de falar muito, e ele já havia se acostumado com aquilo. — Você pode voltar, Bernardo. — disse Nerone, enquanto caminhavam pela noite em direção à casa de Amália. — Tem certeza disso? — perguntou ele. — Sim. Tenho outra pessoa para ficar de olho nela. E, de toda forma, meu irmão precisa mais de você do que eu. — explicou. — Tudo bem, mas você sabe que posso voltar correndo. Basta me ligar. — Eu sei. — respondeu. — O jato está te esperando na pista. Pode ir para onde quiser. Bernardo sorriu com aquilo. Ao que parecia, o seu “chefinho” sabia mais do que ele imaginava. — Quando preciso estar de volta? — perguntou. — Você tem uma semana de folga. Apenas aproveite. — respondeu Nerone, enquanto retirava a chave do bolso e abria o portão da casa de Amália. — Valeu, garoto! Nos vemos em breve. — disse ele, já se afastando com mais pressa do que antes. Nerone não disse nada. Sabia bem que Bernardo estava louco para visitar um certo lugar na máfia de Max, e ficava satisfeito por vê-lo tentando encontrar a sua felicidade. Ele entrou e foi direto para o quarto de Amália. Abriu a porta e a encontrou ainda com o vestido da festa. Com cuidado, aproximou-se, retirou os sapatos e o terno, seguido da camisa e da gravata. Em seguida, deitou-se ao lado dela, puxando-a para junto de seu peito. Amália resmungou, aconchegando-se mais a ele, e Nerone sorriu. Ela podia até mentir para ele, mas jamais conseguiria enganar a si mesma. Tinha sentimentos por ele — era apenas teimosa demais para admitir. Minutos depois, uma mensagem chegou ao celular de Nerone. Ele pegou o aparelho e olhou. Havia uma foto de Félix com Tess nos braços, um lençol cobrindo o corpo de ambos, acompanhada da legenda: “Problema resolvido.” Nerone sorriu. Ao que parecia, o filho de Cobra era ainda mais louco do que ele imaginava. Mas, desde que Tess estivesse ocupada com Félix, melhor — assim ela não o atrapalharia com Amália. Amália acordou no dia seguinte sentindo-se relaxada, mas, quando tentou se mover, um braço a impediu. Ela travou, virando-se para ver de quem se tratava. Um suspiro de alívio escapou ao perceber que era Nerone. Ela o observou com atenção. Ele dormia tranquilamente, com um braço em sua cintura. O peito à mostra a deixava encantada, mas foi ao encarar o rosto sereno dele que percebeu a oportunidade perfeita para saciar a sua curiosidade. A mão de Amália se ergueu em direção ao rosto dele. O tapa-olho preto reluzia à luz da manhã, e ela podia ver um brasão desenhado nele, algo que associava à família dele. Quando os seus dedos tocaram o acessório, Nerone despertou como por mágica, assustando-a. Amália soltou um pequeno grito e levou a mão à boca. — O que pensa que estava fazendo, Amália? — perguntou ele. — Nada. — desconversou, corando ao ser pega em flagrante. Nerone suspirou. Sabia bem o que ela queria, e só de pensar naquilo já era levado a lembranças que preferia evitar. — Não gosto que toquem nisso. — disse, apontando para o tapa-olho. — Você nunca tira? — perguntou ela, mais calma, apoiando a cabeça no ombro dele. — Só quando estou sozinho… e quando a doutora Simone precisa me examinar. — explicou. Ele entendia a curiosidade de Amália, mas ainda não estava pronto para que ela visse seu rosto sem o tapa-olho. — Eu gostaria de ver. — disse ela, após um instante. — Algum dia, Amália… — respondeu ele, soltando um suspiro. — Algum dia eu te mostro. Só não tente removê-lo enquanto estou dormindo. Amália ergueu a cabeça e olhou no olho bom de Nerone. Ele estava lhe dando um voto de confiança, sendo sincero — e ela não podia quebrar aquilo por teimosia. — Desde que você realmente me mostre algum dia, acho que consigo segurar a minha curiosidade. — disse. Nerone sorriu, inclinando-se sobre ela. — Em breve você vai ver bem mais do que o meu rosto, tampinha. — disse, com um olhar sugestivo, fazendo-a corar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD