Capítulo 30

979 Words
O homem encarava Nerone, confuso. Não sabia quem ele era, nem como havia conseguido chegar até ali. Ao olhar ao redor, percebeu que os mercenários que havia contratado não o ajudariam. Estava sozinho — e a forma como Nerone o observava não era nada animadora. Ele não reconhecia aquelas pessoas e nem sabia o que elas desejavam com ele, mas pela forma que o encaravam dava para perceber que não devia ser coisas boas. — Quem é você? — perguntou, levantando-se do chão. — Sou Nerone Donati. E você tem atrapalhado os negócios da minha família — respondeu, com o maxilar travado de raiva. O reconhecimento caiu como uma bomba. Aquele sobrenome ele reconhecia em qualquer lugar, e para muitos era uma sentença de morte. Agora ele sabia com quem estava lidando. Fora avisado, mas preferira arriscar, acreditando que os Donati não se moveriam por causa de uma ilha tão pequena. Ele estava enganado, e muito. — Não pensei que os Donati se dariam ao trabalho de vir até este fim de mundo por causa de uma ilha — disse o homem. — Não que isso seja da sua conta — retrucou Nerone, dando um passo à frente. — As pessoas daquela ilha estão sob a proteção de Dom Aurélio. E qualquer i****a que cause problemas a elas será punido como deve. O homem engoliu em seco. Não havia como competir com Dom Aurélio — a prova disso estava diante dele: os mercenários que pagara agora obedeciam a outro. Observou Nerone com atenção. Ele mantinha uma postura relaxada, apesar de estar armado, sem sequer fazer menção de sacar a arma. O seu olhar, porém… era sombrio o suficiente para denunciar o perigo. — Eu não estava roubando, se é isso que você está pensando — disse, apressado. — Não estava roubando? — repetiu Calebe, com desdém. — Então o que estava fazendo com as cargas que saíram da ilha? — Eu não estava roubando, juro! — insistiu, desesperado. — Coloquem-no sentado sobre uma mina armada — ordenou Nerone, com um simples gesto. Os mercenários agiram rapidamente, arrastando o homem. Outro trouxe a mina, e, ao vê-la, ele entrou em pânico. — Não! — gritou, debatendo-se. — O que você veio fazer aqui? — perguntou Nerone, frio. — É sua última chance de dizer a verdade. — Eu conto! Eu conto! Só não me coloque nisso, por favor! — implorou. Nerone observou a cena com evidente desprezo. Detestava lidar com gente que implorava pela vida sem o mínimo de dignidade. — Então fale. O que fez com as cargas? O homem olhou ao redor, encurralado. A sua fortuna não o salvaria daquela situação. — Estão em um galpão aqui na ilha. Eu não as vendi — respondeu. Nerone e Calebe trocaram um olhar desconfiado. As cargas de Aurélio eram extremamente valiosas — qualquer uma delas já renderia uma fortuna. E aquele homem havia interceptado várias, durante um mês inteiro. — As cargas realmente estão aqui, senhor Donati — confirmou um dos mercenários. — Se não queria as mercadorias, o que queria, então? — perguntou Calebe. — Informação — respondeu ele, em voz baixa. — Informação sobre o quê? — insistiu Nerone, já perdendo a paciência. — Sei que Dom Aurélio tem parcerias com a Fênix… e sei que eles conseguem qualquer tipo de informação. Aquilo explicava muita coisa. Eles realmente tinham acesso a informações valiosas — algumas perigosas demais para cair em mãos erradas. — Que tipo de informação? — perguntou Calebe. — Sobre um lugar. Preciso chegar até ele. Achei que, interceptando algumas cargas, conseguiria o que precisava. — Não seria mais fácil comprar isso diretamente da Fênix? — rebateu Calebe. — Pouparia bastante trabalho. — Não podia. Isso envolve a minha família. Se algo vazasse, eu estaria perdido — disse ele, com as mãos trêmulas. — Pelo visto, você não conhece a Fênix — comentou Calebe. — Eles levam o sigilo a outro nível. As suas informações jamais seriam expostas. Nerone deu um passo à frente. — Quero as minhas mercadorias de volta. E quero você fora desta ilha até o pôr do sol. Caso contrário, mando os mesmos mercenários que você contratou darem fim à sua vida. — Me ajude! — implorou o homem, jogando-se aos pés de Nerone e agarrando a sua calça. — Eu te dou o que quiser! O desespero dele era visível. Miserável. — Odeio quando me tocam — disse Nerone, entre dentes. Ele tinha problemas com toques, e fora sua família não gostava que os outros o tocassem. — Desculpe! — disse ele, afastando-se rapidamente. — Me desculpe… mas, por favor, me ajude. Eu não sei mais o que fazer. — Deixe de ser patético — disse Calebe, puxando-o e colocando-o de pé novamente. — Conte tudo. — Meses atrás invadiram a minha casa. Queriam informações. Como eu não tinha o suficiente, levaram minha filha como refém — disse, desesperado. — Disseram que era um incentivo para que eu encontrasse o que procuravam. Foi por isso que vim para cá. Achei que conseguiria algo… não imaginei que seria tão difícil. Calebe estreitou os olhos. — Você contratou homens de Babilônia. Por que não contratar o próprio líder? Seria mais simples. — Seitan tem fama de matar quem o contrata — respondeu, como se fosse óbvio. — Eu não sou louco de correr esse risco. Nerone inclinou levemente a cabeça, analisando-o. — O que você me oferece em troca? — Tudo o que eu tiver de mais valioso será seu. Posso formalizar isso em contrato, se quiser. Eu honro a minha palavra, não importa o que aconteça. A proposta era tentadora. Não que Nerone precisasse de dinheiro — sua fortuna já era vasta e crescente —, mas boas oportunidades não eram descartadas. Ele sustentou o olhar do homem por um instante. Então respondeu, com calma: — Tudo bem… eu vou te ajudar.
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