Capítulo 26

1018 Words
Zion encarava o chão diante de Oksana. Podia ver os sapatos dela bem à sua frente, mas se recusava a erguer o olhar. Não queria encontrar os seus olhos tristes, como normalmente acontecia quando ele agia daquela forma. Doía-lhe profundamente ver os belos olhos azuis da russa marcados por aquela sombra que lhe dizia que a culpa era dele. — Não pode brigar com o irmão, mamãe — disse Nikolai, entrando na frente. Zion ergueu os olhos e encontrou os três pequenos o cercando. Aquilo fez o seu coração se apertar. Eles o consideravam parte da família, e ele não podia negar que havia um vínculo que os mantinha unidos de uma forma impossível de explicar. — Saia daí, ou te arranco no tapa, Nikolai — disse Oksana, fazendo o pequeno tremer enquanto se agarrava a Zion. — Ela me dá medo às vezes — murmurou Lorenzo, em voz baixa. Zion suspirou e se afastou dos pequenos, aproximando-se de Oksana. Permaneceu parado, esperando por uma punição que não veio. Em vez disso, sentiu quando ela segurou o seu rosto entre as mãos e ergueu a sua cabeça. — Não importa o que você diga, Zion… você é meu filho, e eu o amo muito — disse ela, beijando a sua testa antes de soltá-lo e se afastar. Oksana não queria forçar o menino, mas, às vezes, aquela distância que ele insistia em manter a incomodava profundamente. Ainda assim, estava decidida a conquistá-lo e não se deixaria abater por aquilo. — Que cara é essa, loira? — perguntou Aurélio ao entrar em casa. Ele estava em uma missão quando recebeu a mensagem de Calebe e voltou às pressas para evitar que o mundo pegasse fogo. Pelo visto, tudo estava sob controle. Olhou ao redor e não viu o irmão, o que o deixou apreensivo. — Procurando o Nerone? — perguntou Oksana, com um sorriso de canto. — Ele ainda está aqui ou já foi encomendar o caixão do safado que mexeu com a Amália? — perguntou ele, rindo. — Ele não vai fazer isso — respondeu ela. — O que você fez? — perguntou Aurélio, desconfiado. — Apenas lhe dei alguns conselhos de como resolver esse problema com mais… diversão — disse, deslizando a mão pelo peito dele. — Adoro esse seu lado sádico, loira — respondeu ele, puxando-a para si. — Já faz um tempo que não provocamos o caos por aí… estou com saudade. Aurélio e Oksana eram como fogo e gasolina. Completavam-se até nos menores detalhes do dia a dia, e o gosto pelo caos apenas os unia ainda mais. — Estou com saudade de colocar alguém sentado em uma mina ativa — disse ele, com um sorriso capaz de arrepiar qualquer um. Mas com Oksana era diferente; ela conhecia todas as faces do marido. — Você não tem jeito — disse ela, rindo. — Vamos fazer algumas pesquisas. Quem sabe encontramos algo para nos divertir no fim de semana? Oksana ainda mantinha o seu passatempo favorito: a caça a pedófilos. Nos últimos tempos, porém, havia dedicado toda a sua energia à família — e agora percebia que precisava de um pouco de diversão. — Também quero ir atrás dos caras maus — disse Massimo, puxando a barra da camiseta da mãe. — Você é pequeno demais para isso, garotão — disse Aurélio, abaixando-se para pegá-lo no colo. — Também quero colocar um deles em uma mina — insistiu o pequeno, com olhos pidões. Oksana olhou para Aurélio e caiu na risada. Pelo visto, a fruta realmente não caía longe da árvore. — Quando você for maior, eu te ensino. Mas agora precisa estudar bastante — respondeu ele, colocando-o no chão. — E eu posso ir, Dom? — perguntou Zion, com os olhos brilhando. — É “pai” para você. E não, você não pode ir. O rosto do menino se entristeceu imediatamente. — Esse tipo de coisa não é para você, garoto. Você ainda é uma criança e precisa viver como uma. Quando crescer, se ainda quiser isso, eu te ensino. Mas, por enquanto, quero você na escola, aprendendo o que toda criança deve saber na sua idade. Zion sabia que não adiantava insistir. Quando seu pai falava daquele jeito, não mudava de ideia. Tudo o que podia fazer era se dedicar aos estudos e, no futuro, provar que era capaz. — Não se preocupe, irmão. Quando o papai me ensinar, eu te ensino — disse Massimo, com um sorriso orgulhoso. Zion sorriu de volta, tocado pelas palavras do pequeno. Quando Nerone desceu, encontrou a família reunida. Um sorriso raro surgiu em seus lábios — daqueles que ele fazia questão de esconder. Um sorriso que dizia que aquele era o seu lugar, ao lado das pessoas que realmente amava… e que ainda faltava alguém para completar aquele quadro. — Vejo que está mais calmo — disse Aurélio ao notá-lo. — Sim — respondeu apenas. — Cuidou do problema? — perguntou, erguendo uma sobrancelha. — Sim — respondeu novamente, com um brilho nos olhos que Aurélio conhecia bem. — Ótimo. Preciso de você em um dos nossos pontos de distribuição. — O que houve? — perguntou Nerone, mudando de expressão. — Ganhamos um vizinho que não está disposto a colaborar — disse Aurélio, de forma sugestiva. Aquilo já havia acontecido antes. Um dos pontos de distribuição de Aurélio era cobiçado por outras organizações, por estar em uma rota importante para o tráfico de mercadorias. O problema surgia quando grupos rivais se instalavam por perto e decidiam competir com ele. — Qual a pressa? — perguntou Nerone. — Temos um encontro na Fênix esta semana. O bebê de Hideo e Sayuri chegou mais cedo — respondeu ele, sorrindo. — Pelo que vejo, vai começar mais uma disputa de padrinhos — comentou Oksana, com um suspiro. — Isso é algo de que nunca nos cansamos, loira. E, quanto mais competente for o padrinho, mais segura estará a criança — disse Aurélio. Nerone não prestava mais atenção à conversa. Tudo o que conseguia pensar era que, quanto mais rápido resolvesse aquela missão, mais cedo poderia ver Amália novamente.
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