Zion encarava o chão diante de Oksana. Podia ver os sapatos dela bem à sua frente, mas se recusava a erguer o olhar. Não queria encontrar os seus olhos tristes, como normalmente acontecia quando ele agia daquela forma. Doía-lhe profundamente ver os belos olhos azuis da russa marcados por aquela sombra que lhe dizia que a culpa era dele.
— Não pode brigar com o irmão, mamãe — disse Nikolai, entrando na frente.
Zion ergueu os olhos e encontrou os três pequenos o cercando. Aquilo fez o seu coração se apertar. Eles o consideravam parte da família, e ele não podia negar que havia um vínculo que os mantinha unidos de uma forma impossível de explicar.
— Saia daí, ou te arranco no tapa, Nikolai — disse Oksana, fazendo o pequeno tremer enquanto se agarrava a Zion.
— Ela me dá medo às vezes — murmurou Lorenzo, em voz baixa.
Zion suspirou e se afastou dos pequenos, aproximando-se de Oksana. Permaneceu parado, esperando por uma punição que não veio. Em vez disso, sentiu quando ela segurou o seu rosto entre as mãos e ergueu a sua cabeça.
— Não importa o que você diga, Zion… você é meu filho, e eu o amo muito — disse ela, beijando a sua testa antes de soltá-lo e se afastar.
Oksana não queria forçar o menino, mas, às vezes, aquela distância que ele insistia em manter a incomodava profundamente. Ainda assim, estava decidida a conquistá-lo e não se deixaria abater por aquilo.
— Que cara é essa, loira? — perguntou Aurélio ao entrar em casa.
Ele estava em uma missão quando recebeu a mensagem de Calebe e voltou às pressas para evitar que o mundo pegasse fogo. Pelo visto, tudo estava sob controle. Olhou ao redor e não viu o irmão, o que o deixou apreensivo.
— Procurando o Nerone? — perguntou Oksana, com um sorriso de canto.
— Ele ainda está aqui ou já foi encomendar o caixão do safado que mexeu com a Amália? — perguntou ele, rindo.
— Ele não vai fazer isso — respondeu ela.
— O que você fez? — perguntou Aurélio, desconfiado.
— Apenas lhe dei alguns conselhos de como resolver esse problema com mais… diversão — disse, deslizando a mão pelo peito dele.
— Adoro esse seu lado sádico, loira — respondeu ele, puxando-a para si. — Já faz um tempo que não provocamos o caos por aí… estou com saudade.
Aurélio e Oksana eram como fogo e gasolina. Completavam-se até nos menores detalhes do dia a dia, e o gosto pelo caos apenas os unia ainda mais.
— Estou com saudade de colocar alguém sentado em uma mina ativa — disse ele, com um sorriso capaz de arrepiar qualquer um. Mas com Oksana era diferente; ela conhecia todas as faces do marido.
— Você não tem jeito — disse ela, rindo. — Vamos fazer algumas pesquisas. Quem sabe encontramos algo para nos divertir no fim de semana?
Oksana ainda mantinha o seu passatempo favorito: a caça a pedófilos. Nos últimos tempos, porém, havia dedicado toda a sua energia à família — e agora percebia que precisava de um pouco de diversão.
— Também quero ir atrás dos caras maus — disse Massimo, puxando a barra da camiseta da mãe.
— Você é pequeno demais para isso, garotão — disse Aurélio, abaixando-se para pegá-lo no colo.
— Também quero colocar um deles em uma mina — insistiu o pequeno, com olhos pidões.
Oksana olhou para Aurélio e caiu na risada. Pelo visto, a fruta realmente não caía longe da árvore.
— Quando você for maior, eu te ensino. Mas agora precisa estudar bastante — respondeu ele, colocando-o no chão.
— E eu posso ir, Dom? — perguntou Zion, com os olhos brilhando.
— É “pai” para você. E não, você não pode ir.
O rosto do menino se entristeceu imediatamente.
— Esse tipo de coisa não é para você, garoto. Você ainda é uma criança e precisa viver como uma. Quando crescer, se ainda quiser isso, eu te ensino. Mas, por enquanto, quero você na escola, aprendendo o que toda criança deve saber na sua idade.
Zion sabia que não adiantava insistir. Quando seu pai falava daquele jeito, não mudava de ideia. Tudo o que podia fazer era se dedicar aos estudos e, no futuro, provar que era capaz.
— Não se preocupe, irmão. Quando o papai me ensinar, eu te ensino — disse Massimo, com um sorriso orgulhoso.
Zion sorriu de volta, tocado pelas palavras do pequeno.
Quando Nerone desceu, encontrou a família reunida. Um sorriso raro surgiu em seus lábios — daqueles que ele fazia questão de esconder. Um sorriso que dizia que aquele era o seu lugar, ao lado das pessoas que realmente amava… e que ainda faltava alguém para completar aquele quadro.
— Vejo que está mais calmo — disse Aurélio ao notá-lo.
— Sim — respondeu apenas.
— Cuidou do problema? — perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Sim — respondeu novamente, com um brilho nos olhos que Aurélio conhecia bem.
— Ótimo. Preciso de você em um dos nossos pontos de distribuição.
— O que houve? — perguntou Nerone, mudando de expressão.
— Ganhamos um vizinho que não está disposto a colaborar — disse Aurélio, de forma sugestiva.
Aquilo já havia acontecido antes. Um dos pontos de distribuição de Aurélio era cobiçado por outras organizações, por estar em uma rota importante para o tráfico de mercadorias. O problema surgia quando grupos rivais se instalavam por perto e decidiam competir com ele.
— Qual a pressa? — perguntou Nerone.
— Temos um encontro na Fênix esta semana. O bebê de Hideo e Sayuri chegou mais cedo — respondeu ele, sorrindo.
— Pelo que vejo, vai começar mais uma disputa de padrinhos — comentou Oksana, com um suspiro.
— Isso é algo de que nunca nos cansamos, loira. E, quanto mais competente for o padrinho, mais segura estará a criança — disse Aurélio.
Nerone não prestava mais atenção à conversa. Tudo o que conseguia pensar era que, quanto mais rápido resolvesse aquela missão, mais cedo poderia ver Amália novamente.