Todos estavam aliviados com aquele desfecho, e a forma que eles olhavam para Nerone tinha mudado. Ele tinha provado que era bem mais do que todos ali imaginavam, e havia provado o seu valor.
— Pai, ganhei um irmão! — gritou Félix, passando os braços pelo pescoço de Nerone e o puxando para perto de Cobra.
Cobra observou Nerone com atenção. Apesar de ter vencido o desafio, sua expressão era tranquila — não havia traço algum de arrogância pela vitória que tinha conquistado.
— Tem padrinho, garoto? — perguntou, com sua voz imponente.
Os mercenários ao redor arregalaram os olhos. Cobra não era alguém que se apegava, muito menos que oferecia algo assim. Aquilo era mais que um gesto — era um reconhecimento raro.
— Não, senhor — respondeu Nerone.
— Agora tem. Semana que vem marcaremos a cerimônia. A partir de hoje, você faz parte da família da Toca. Provou, diante de todos nesta arena, que é digno disso.
Nerone olha para Cobra analisando com cuidado sua expressão então a realidade invadi a sua mente, ele estava tentando retribuir o que Nerone tinha feito ao poupar seu filho, e ele não era louco de recusar aquela oferta, que seria benéfico para ambos os lados.
Poupar a vida de Félix não havia passado despercebido — e Nerone não era t**o a ponto de recusar algo que beneficiaria ambos.
— Obrigado pela sua generosidade… padrinho — disse, em tom baixo.
Os mercenários explodiram em gritos e comemorações. Cobra esboçou um pequeno sorriso, satisfeito com a postura do novo afilhado.
— Venha, garoto. Vamos beber para comemorar. Depois, providencio alguém para escoltar você e a mulher até onde desejar. Vamos cumprir à risca o combinado — disse, já se afastando.
— Vem, irmão. Temos muito o que conversar antes de você ir embora — disse Félix, agarrando-o e o arrastando junto.
Nerone observava, surpreso, enquanto o ambiente se transformava em uma verdadeira festa. Mesas foram montadas rapidamente, e uma quantidade absurda de comida e bebida apareceu.
A mulher que ele resgatara já estava livre, eles a tinham levado para tomar banho e se arrumar um pouco. Sentada a algumas mesas de distância, comia com pressa — mas seus olhos buscavam Nerone a todo instante. Ele entendia aquele comportamento, ela ainda tinha medo devido a tudo que tinha passado naquele lugar.
— Me diga, irmão… Dom Aurélio é tão sádico quanto dizem por aí? — perguntou Félix, com os olhos brilhando de curiosidade.
Naquele momento, ele não parecia o herdeiro temido da Toca — apenas um jovem curioso.
— Se você está perguntando isso, é porque realmente não o conhece — respondeu Nerone, levando um gole da bebida.
— Ouvi dizer que ele colocou alguém sentado em uma mina armada — comentou Félix, animado.
— Sim, ele fez isso — disse Nerone, deixando escapar um leve sorriso ao lembrar da cena.
Félix caiu na gargalhada, quase se engasgando com a bebida em sua boca.
— Você precisa convencer ele a me levar junto um dia! Dom Aurélio é uma lenda, irmão! — disse, segurando o braço de Nerone.
— Posso tentar… mas não prometo nada — respondeu. Aurélio não gostava de companhia quando saia, mas Nerone tinha a leve impressão de que ele e Félix se dariam muito bem.
— Já é o suficiente! — disse Félix, animado.
Agora que o perigo havia passado, Nerone podia observá-lo melhor. Félix não parecia muito mais velho que ele.
— Quantos anos você tem? — perguntou.
— Eu sei que pareço jovem… mas tenho vinte e dois — respondeu, com um sorriso convencido.
Nerone soltou um breve riso.
— O quê? Acha que estou mentindo? — retrucou Félix.
— Não. Só estou surpreso por termos a mesma idade.
Félix arregalou os olhos, empolgado diante daquela informação.
— Não acredito! — disse, levantando-se. — Pai!
O grito chamou a atenção de Cobra, que se aproximou.
— O que foi?
— Ele tem a mesma idade que eu! Precisamos fazer uma festa de aniversário juntos este ano! — disse Félix, empolgado.
— Pode marcar. Eu faço questão de pagar — respondeu Cobra, sem hesitar.
Cobra não permitiria que o seu afilhado não ganhasse algo grandioso, a cada vez que olhava para Nerone e para seu filho ele percebia que tinha feito a escolha certa ao te-lo em sua família.
— Quando é o seu aniversário, garoto? — perguntou.
Nerone fica rígido, ele não sabia qual a sua verdadeira data de aniversário, então sempre comemoravam no dia em que tinha sido resgatado.
— Eu… não sei, padrinho — respondeu, encarando-o.
No momento em que os olhos de Cobra encontram os de Nerone ele entende que o garoto a sua frente devia ter uma pancada de fantasmas, e isso explicava cada ação sua naquela noite.
— Isso não importa. Vamos comemorar do mesmo jeito — disse, virando-se e se afastando.
Félix percebeu imediatamente que aquele era um assunto delicado.
— Eu te entendo, irmão — disse, com a voz mais suave. — Todos nós carregamos algo difícil demais para lembrar.
Nerone não respondeu. Apenas permaneceu ali, em silêncio, com o copo nas mãos.
O seu olhar se perdeu no céu, nas estrelas, e inevitavelmente… em Amália.
A sua tampinha. Ele sentia falta dela.
— Eu preciso ir, Félix — disse, levantando-se.
Félix sorriu.
— Deixa eu adivinhar… uma mulher?
— Minha noiva.
Os olhos de Félix se arregalaram antes que ele começasse a rir.
— Filho da mãe! Vai casar antes de mim! — disse, dando um tapa leve em suas costas.
Chamou um dos homens e ordenou que organizasse a partida imediatamente. Poucos minutos depois, tudo estava pronto.
— Não se esqueça de que você tem uma família aqui na Toca, irmão — disse Félix, puxando-o para um abraço.
— Não vou esquecer. E vou enviar um convite para o meu casamento. Já que são minha família… precisam estar lá.
— E nós vamos! — respondeu Félix, rindo. — Alguém precisa animar a festa.
Nerone se despediu de Cobra — agora, seu padrinho —, pegou a jovem e partiu.
Sua missão…
Havia saído muito melhor do que ele poderia imaginar.