Bernardo estava deitado tranquilamente em uma rede da casa de Max. Aqueles dias de folga estavam sendo bons, ainda mais com a visão que ele tinha.
Ele ainda se lembrava da primeira vez que a tinha visto: Iara, uma índia linda, de pele morena, cabelos negros como a noite, que iam até abaixo da cintura. Ele salivava com a vontade de passar a mão por eles. Olhos tão castanhos que chegavam a ser negros, ao menos quando ela estava com raiva; lábios carnudos e avermelhados, e ele sabia que aquilo não era um batom comum, devia ser algo que as mulheres da tribo criavam.
Iara tinha sido sua perdição. Justo ele, um homem que tinha jurado deixar o amor de lado e focar apenas na diversão. Mas o destino era algo c***l e o tinha pego de calças curtas quando viu aquela linda morena. Agora ele estava ali, deitado na rede na casa de Max, enquanto a observava fazer a limpeza com concentração.
— Kenai te mata se não falar com ele antes. — diz Max, se aproximando e sentando em uma poltrona perto dele, um cigarro na mão.
Bernardo observa Max, vendo como o cão da Fênix tinha mudado. Agora ele era um Dom sanguinário que tocava o terror nos seus inimigos, mas, entre amigos, permanecia o mesmo: tranquilo e leal.
— Só estava admirando. — diz ele, ignorando o constrangimento por ter sido pego olhando.
Max arqueia a sobrancelha enquanto se reclina na poltrona; ele não acreditava naquilo.
— Se não falar logo com ele, você vai perdê-la. — o adverte.
Aquilo chama a atenção de Bernardo. Ele se senta na rede, voltando-se para Max.
— Quem? — pergunta, controlando a fúria que havia subido por seu peito. Ele se recusava a ver Iara com outra pessoa. Só de imaginar outras mãos que não as suas a tocando, sentia vontade de matar, seja lá quem fosse.
— Iara é bonita, gentil e boa na cozinha, o que não falta são pretendentes para ela. Mas Kenai é rígido sobre escolher pretendentes para seu povo. Não é qualquer um que entra no seu círculo.
Max admirava o amigo. Ele cuidava bem do seu povo e, graças a isso, eles estavam se desenvolvendo bem.
— Ele vai querer me matar. — diz com um suspiro pesado.
— Vai. — responde Max, sem esconder o sorriso. — Mas, se fizer isso pelas costas dele, ele jamais te perdoará, e Iara não te aceitaria. Ela é leal ao líder, Bernardo. Se Kenai disser que não a quer com você, ela não fará isso.
A convivência de Max com a tribo de Kenai tinha lhe ensinado muitas coisas, e uma delas era que a lealdade era a mais importante. Eles não questionavam o líder, não quando o respeitavam verdadeiramente. Então, a luta de Bernardo estava acabada antes mesmo de começar; ele precisava encarar a fúria de Kenai.
— Isso não me anima muito. — diz ele, caindo de volta na rede com um suspiro.
— Não, mas não vou te iludir. E não pense que ele ainda não percebeu, porque já notou. — diz Max com um sorriso de canto.
Bernardo geme dentro da rede. Ele precisava resolver aquilo antes que seu chefe recebesse apenas os seus restos mortais em uma caixa; teria que enfrentar Kenai.
— Eu vou falar com ele. — diz de forma convicta, mas, quando percebe Kenai se aproximando, muda de ideia. Ele não estava com uma cara boa. — Mas não vai ser hoje.
Max apenas balança a cabeça, rindo da cara de desespero de Bernardo.
Kenai se aproxima resmungando algo ininteligível. Max ri ao ver aquilo; não importava que os anos tivessem passado, que o seu braço direito fosse pai de um garoto e uma menininha, ele continuava o mesmo.
— O que te estressou agora? — pergunta Max, divertido.
— Eu vou matar um Dom, e falo sério dessa vez. — diz ele, passando a mão pelos cabelos enquanto andava de um lado para o outro.
— Você já disse isso antes, chefe. — diz Iara, se aproximando e entregando um copo de suco a cada um.
— Mas dessa vez falo sério. Esses malditos estrangeiros estão testando os meus limites. Sou um homem de sangue quente, não tolerarei isso para sempre. — fala antes de tomar seu suco de uma vez.
— O que houve? — pergunta Bernardo, curioso.
— Um maldito estrangeiro estava me oferecendo o filho como pretendente da minha belezinha. Só nos sonhos dele que eu entregaria a encarnação da deusa da lua ao seu filho pestilento. — diz ele, cuspindo no chão ao falar aquilo.
— Eu te entendo, e ficaria muito chateado se fosse comigo. — diz Max, segurando o riso.
— Por que não a compromete com um dos meninos da Fênix? Sei que nem todos têm pretendentes. — diz Bernardo.
Kenai olha para ele e pragueja em seu idioma, andando de um lado para o outro.
— Ele não está errado. E ao menos você sabe que os garotos serão bons maridos, a Fênix leva um compromisso a sério. — responde Max.
— Eu sei, Dom, mas só de pensar em um marmanjo tocando o meu pequeno anjo eu enlouqueço.
— Um dia ela terá que encontrar alguém, chefe. — diz Iara.
— Se o problema for os meninos não serem de uma tribo, posso falar com o Charles. A esposa dele é índia, às vezes você consegue alguém na família dela. — diz Max.
— Não ligo com isso, Dom. Se o meu anjinho quiser um maldito estrangeiro, eu mesmo o buscarei para ela, e, se ele passar no teste de fogo, poderá estar ao lado dela. — diz ele com um sorriso no rosto.
— Algo me diz que esse teste não é tão simples quanto parece. — diz Bernardo.
— Vai por mim, Bernardo, esse teste é tudo menos fácil. — responde Max.
— Mas é necessário, Dom. Não podemos permitir que uma pessoa fraca faça parte da nossa família. — diz Iara com confiança.
Bernardo olha para a mulher e engole em seco. Ao se virar, encontra o olhar sombrio de Kenai sobre ele. Ele estava em problemas, sérios problemas.