1. Rebeca
Se eu soubesse que aquela seria a última manhã em que minha irmã existiria oficialmente, teria prestado mais atenção em tudo.
No jeito como Isa deixou a toalha molhada em cima da minha cama.
Na caneca de café esquecida na pia.
No som da voz dela cantando errado uma música qualquer enquanto procurava o carregador do celular pela terceira vez naquela semana.
— Você pegou de novo — falei, parada na porta do quarto.
Isabela ergueu os olhos para mim com a maior cara de inocência do mundo.
— Eu?
— Não. O fantasma que mora aqui.
Ela olhou para o cabo branco enrolado na mão e abriu um sorriso.
— Tecnicamente, eu achei.
— Dentro da minha bolsa.
— Detalhes.
Eu deveria ter brigado.
Em vez disso, ri.
Isa tinha dezoito anos e uma capacidade irritante de transformar qualquer discussão em piada. Eu tinha vinte e oito e, desde muito cedo, aprendera que alguém naquela casa precisava lembrar consulta, conta, horário, documento, comida na geladeira e o fato de que sobreviver exigia um pouco mais do que boa vontade.
Nossa mãe dizia que eu tinha nascido velha.
Isa dizia que eu tinha nascido mandona.
As duas estavam certas.
— Vai se atrasar — avisei.
— Você também.
— Eu trabalho.
— Eu estudo.
— Você passa metade do tempo reclamando que quer largar o curso.
Ela colocou a mão no peito, ofendida.
— Eu reclamo com responsabilidade.
Peguei o carregador da mão dela.
— Compra um.
— Você ganha mais.
— Esse argumento não funciona comigo.
— Funciona desde que eu tinha oito anos.
Foi impossível não sorrir.
Eu ajudara a criar Isa desde que ela era pequena. Não porque nossa mãe tivesse desaparecido ou porque tivéssemos vivido uma tragédia dessas que parecem feitas para justificar personagem de livro. A vida tinha sido mais comum e, talvez por isso, mais cansativa.
Nossa mãe trabalhava demais.
Meu pai foi virando ausência aos poucos, até ser só um nome que aparecia de vez em quando.
E eu fui preenchendo espaço sem perceber.
Levar na escola.
Buscar no médico.
Ajudar com tarefa.
Ensinar a atravessar a rua.
Ficar acordada quando ela tinha febre.
A diferença de dez anos entre nós nunca pareceu apenas diferença de idade. Às vezes eu era irmã. Às vezes quase mãe. Em alguns dias, era as duas coisas e ainda tinha vontade de mandar aquela garota morar sozinha por vinte minutos, só para descobrir quem ia separar a roupa branca da colorida.
— Rebeca?
— O quê?
— Você tá me olhando estranho.
— Tô pensando se sobreviveria sem mim.
Isa pegou a mochila.
— Claro que sobreviveria.
Deu dois passos.
Voltou.
Beijou minha bochecha.
— Mas ia ser bem mais chato.
Foi embora antes que eu pudesse responder.
Fiquei parada na cozinha por alguns segundos, ouvindo o barulho do portão.
Depois segui a minha rotina.
Naquele momento, eu ainda acreditava que rotina era uma coisa banal.
⸻
O centro de atendimento onde eu trabalhava ficava numa área movimentada da Zona Norte.
Não era bonito.
Nunca tinha sido.
Parede descascando perto da janela, ventilador que fazia barulho demais, impressora que engolia papel quando estava de mau humor e cadeiras suficientes apenas quando ninguém faltava com o compromisso de trazer problema.
O que, obviamente, nunca acontecia.
Quando cheguei, Nádia já estava na mesa ao lado com três prontuários abertos e uma expressão que eu conhecia bem.
— Bom dia pra quem acredita — ela disse.
Coloquei minha bolsa na cadeira.
— Que foi?
— O encaminhamento da menina de ontem voltou.
— Voltou por quê?
— “Documentação insuficiente.”
Fechei os olhos.
— Ela levou tudo.
— Eu sei.
— Relatório?
— Foi.
— Declaração?
— Foi.
— Documento da mãe?
— Foi.
Nádia girou o monitor na minha direção.
— Então explica.
Li duas vezes e senti aquela irritação conhecida subir.
Aos trinta e um, Nádia tinha o tipo de paciência que eu admirava porque nunca tive. Ela conseguia ouvir uma pessoa durante quarenta minutos sem interromper nem quando já tinha entendido o problema nos primeiros cinco.
Era n***a, de pele escura, cabelo crespo curto e um olhar tão atento que muita gente começava a contar coisas que nem pretendia.
— Vou ligar — falei.
— Vai brigar?
— Vou conversar educadamente.
Ela riu.
— Vou pegar café.
O trabalho de assistência social tinha me ensinado que a palavra rede era bonita no papel.
Rede de proteção.
Rede de atendimento.
Rede intersetorial.
Na prática, às vezes parecia mais um monte de portas que mandavam a mesma pessoa bater na próxima.
Naquela manhã, atendi uma mulher que escondia hematomas debaixo de uma blusa de manga comprida, embora o Rio já estivesse quente às nove.
Depois, uma mãe desesperada porque o filho adolescente havia sumido havia três dias e alguém na delegacia sugerira que ele devia ter “ido curtir”.
A frase ficou presa em mim.
— Sumir não é comportamento — falei, depois que ela saiu.
Nádia parou de digitar.
— Eu sei.
— Três dias e tratam como se fosse rebeldia.
— Você quer que eu procure os registros dos últimos meses?
Olhei para ela.
— Por quê?
— Porque essa é a quarta família que aparece aqui falando praticamente a mesma coisa.
Franzi a testa.
— Quarta?
— Talvez quinta. Preciso conferir.
Nádia tinha isso.
Enquanto eu reagia ao caso que estava na minha frente, ela juntava pedaços.
— Procura — pedi. — Depois a gente vê se existe algum padrão.
Ela assentiu.
Na época, aquela frase não significou nada.
Depois significaria tudo.
⸻
No horário do almoço, Isa me mandou uma foto de um salgado amassado dentro de um guardanapo.
“Almoço dos campeões.”
Respondi:
“Você tem dinheiro pra comer direito.”
Ela mandou:
“Tenho uma irmã assistente social. Estou habituada a programas de redução de danos.”
Eu ri sozinha.
Nádia esticou o pescoço.
— Isa?
— Quem mais?
— Essa menina ainda acaba com sua pressão.
— Minha pressão é ótima.
— Por enquanto.
Guardei o celular.
— Ela quer sair hoje.
— Deixa.
— Nádia.
— Ela tem dezoito.
— Exatamente. Dezoito. Ontem tinha dez.
— Ontem você tinha vinte.
Apontei a caneta para ela.
— Não ajuda.
— Você não criou uma irmã pra trancar dentro de casa, Rebeca.
Aquilo me incomodou porque era verdade.
Eu passava o dia falando sobre autonomia, direito de escolha, proteção sem controle.
E voltava para casa querendo saber onde Isa estava, com quem, que horas voltava e se o motorista do aplicativo tinha avaliação boa.
A teoria sempre parecia mais simples quando a vida era dos outros.
Às cinco e quarenta, recebi outra mensagem.
“Vou encontrar a Bia e depois volto. Não surta.”
Respondi:
“Localização ligada.”
Ela mandou um emoji revirando os olhos.
“Sim, mãe.”
Eu digitei não sou sua mãe, apaguei e escrevi:
“Juízo.”
A resposta veio quase imediatamente:
“Tenho pouco, mas uso.”
Essa foi a última mensagem normal que recebi da minha irmã.
⸻
Saí do trabalho depois das seis.
O trânsito estava um inferno.
Chovia fino, daquele jeito que não refresca nada e só deixa o asfalto brilhando. Comprei pão na esquina, passei na farmácia e cheguei em casa pensando no relatório que ainda precisava terminar.
Às sete e vinte e três, percebi que a localização de Isa tinha parado de atualizar.
Às sete e vinte e cinco, liguei.
Chamou até cair.
Às sete e vinte e oito, liguei de novo.
Nada.
Eu disse a mim mesma que a bateria tinha acabado.
Às sete e trinta e dois, mandei mensagem.
“Isa?”
Um tique.
Nenhuma resposta.
Às sete e quarenta, comecei a andar pela sala.
Às sete e quarenta e seis, Bia me ligou.
Não lembro exatamente da primeira frase.
Lembro do tom.
Do choro.
De ouvir:
— Acidente.
De perguntar onde.
De derrubar a sacola da farmácia no chão.
— Ela tá consciente? — perguntei, já procurando a chave.
Do outro lado, Bia chorou mais.
— Tava. Quando colocaram ela na ambulância, tava.
Meu coração bateu tão forte que doeu.
— Qual hospital?
Ela me disse.
Saí de casa sem fechar direito a janela.
Sem pegar o pão.
Sem pensar no relatório.
Sem imaginar que, dentro de poucas horas, alguém olharia nos meus olhos e diria que minha irmã estava morta.
E que eu seria a única pessoa naquele hospital incapaz de acreditar.
*Preparados para essa nova jornada? Aviso terá cenas hot bem intensas. Este livro é para maiores de 18 anos*