5. TRANSFERÊNCIA

1553 Words
Rebeca A palavra impressa naquela etiqueta fez todo o resto desaparecer por alguns segundos. O corredor, o choro da minha mãe, o barulho de rodas de maca, a televisão ligada sem ninguém assistir. Tudo. Eu conhecia hospital o suficiente para saber que transferência podia significar muita coisa. Mudança de setor. UTI. Centro de imagem. Outro andar. Outro hospital. Sozinha, aquela palavra não provava nada. O horário, porém, me incomodava. 21h18. Quatro minutos depois da mensagem que eu havia mandado para minha mãe dizendo que Isa estava consciente e fazendo exames. Vinte e quatro minutos antes do horário de óbito informado. Coloquei a etiqueta sobre a palma da mão e fotografei. Uma vez. Duas. Depois virei o papel e fotografei o verso também. Bia me observava. — O que você está pensando? — Que eu não vou entregar isso pra ninguém. — Transferência pode ser de setor, né? — Pode. — Então talvez… — Eu sei. Interrompi antes que ela terminasse, não por impaciência com ela, mas porque precisava me lembrar da mesma coisa. Podia ser banal. Eu não queria enlouquecer minha mãe com uma hipótese construída em cima de uma etiqueta. Ainda. Guardei o papel no bolso interno da bolsa e peguei o saco com os pertences. — Fica com ela um pouco. Bia olhou para minha mãe. — Você vai aonde? — Descobrir o que significa 21h18. Atravessei o corredor até o balcão. A atendente da primeira vez não estava mais lá. Um rapaz mais novo ocupava o lugar, digitando com dois dedos enquanto tentava responder a uma senhora irritada sobre uma autorização de exame. Esperei. O que, naquele ponto da noite, já parecia uma provocação pessoal. Quando chegou minha vez, coloquei o celular sobre o balcão com a fotografia aberta. — Isabela Duarte. Quero saber para onde ela foi transferida às nove e dezoito. O rapaz aproximou o rosto da tela. — A senhora é familiar? — Irmã. — Tem documento? Mostrei. Ele começou a procurar no sistema. Demorou mais do que eu gostaria. — Aqui consta movimentação interna. — Para onde? — Não aparece nesse acesso. — Então quem consegue ver? — Talvez a enfermagem do setor. — A enfermagem me mandou falar com o médico. O médico me mandou aguardar. A supervisão disse que o sistema teve erro. Agora você está me dizendo que houve uma movimentação que não consegue localizar. Preciso que alguém pare de me mandar de um lado pro outro. Ele levantou as mãos de leve. — Eu entendo que a senhora está nervosa. A frase quase me fez perder a educação. — Não. Você entende que minha irmã morreu. Nervosa eu fico quando o banco cobra tarifa errada. Ele pareceu se arrepender. — Vou chamar a supervisora. — Chama. A mulher que apareceu não era a mesma de antes. Essa tinha uns cinquenta anos, cabelos curtos grisalhos e óculos presos por uma corrente fina. No crachá, li Helena — Coordenação de Plantão. — Senhora Rebeca, meu nome é Helena. Me explicaram que existe uma dúvida sobre uma etiqueta de movimentação. Finalmente alguém começou uma conversa sem tentar me tratar como criança. Mostrei a fotografia. — Isso veio no saco de pertences da minha irmã. A etiqueta diz transferência às 21h18. Quero saber de onde ela saiu e para onde foi. Helena olhou a imagem por alguns segundos. — Esse tipo de etiqueta também pode ser gerado em transferência entre setores. — Eu sei. Qual setor? — Preciso consultar o prontuário. — Consulta. Ela me estudou. Talvez não estivesse acostumada a familiares respondendo assim. — Vou precisar de alguns minutos. — Eu espero aqui. — Pode levar um pouco. — Já esperei minha irmã morrer sem ninguém me explicar direito o que aconteceu. Mais alguns minutos não vão fazer diferença. Ela respirou fundo e entrou por uma porta lateral. Fiquei encostada no balcão. Cinco minutos. Dez. Quinze. Nádia me ligou enquanto eu esperava. Olhei o nome dela na tela e quase não atendi. Atendi porque, se não fizesse, ela continuaria ligando até aparecer pessoalmente. — Rebeca, pelo amor de Deus, eu vi sua mensagem agora. Como a Isa está? Olhei para minha mãe. — Ela morreu. Silêncio. Não o silêncio vazio. Aquele em que você sente a pessoa do outro lado tentando reorganizar o mundo. — Rebeca… — Eu vi ela viva, Nádia. Minha voz falhou pela primeira vez desde que Marcelo tinha me dado a notícia. — Eu entrei no quarto. Falei com ela. Ela fez piada comigo. Depois levaram pra um exame e agora estão dizendo que morreu. — Eu estou indo pra aí. — Não precisa. — Eu não perguntei se precisava. Fechei os olhos. Aquilo era muito Nádia. — Minha mãe está aqui. A Bia também. — E você está fazendo o quê? Olhei para a porta por onde Helena tinha desaparecido. — Tentando entender uma coisa. — Que coisa? Contei sobre o horário errado. Depois sobre a etiqueta. Do outro lado, ela não tentou me acalmar. Foi justamente por isso que eu gostava dela. — Fotografa tudo — disse. — Já fotografei. — Faz backup. — Nádia… — Rebeca, você está em choque. Amanhã pode esquecer detalhe. Manda as fotos pra mim, por e-mail, qualquer coisa. Não porque isso prove alguma irregularidade, mas porque documentação some, sistema atualiza e papel se perde. Aquilo me atingiu. Não era paranoia. Era procedimento. — Vou mandar. — E não entrega original sem recibo. — Eu te odeio quando você pensa igual a mim. — Por isso você me ama. Respirei pela primeira vez um pouco melhor. — Eu te aviso. — Eu vou ficar acordada. Se precisar de mim, me chama. Desliguei e enviei as fotos. Para Nádia. Para meu próprio e-mail. Para uma pasta na nuvem. Quando terminei, Helena voltou. Trazia uma folha impressa na mão. — Eu consultei a movimentação. Às 21h18, sua irmã foi registrada para transferência da sala de observação para o setor de diagnóstico por imagem. Franzi a testa. — Ela já estava indo fazer exame. — Sim. — Então por que isso aparece como transferência? — Porque a movimentação física do paciente entre determinadas áreas gera esse código. A explicação fazia sentido. Quase. — E depois? — Depois ela retornaria à observação. — Retornaria? Helena desviou os olhos para a folha. — Houve a intercorrência antes do retorno. — Onde? — No setor de diagnóstico. — Foi lá que ela teve a parada? — Pelo registro, sim. — Então por que ninguém falou isso quando eu perguntei? — Eu não estava presente na comunicação médica. Cheguei mais perto do balcão. — Helena, eu não estou tentando criar problema. Eu preciso montar uma linha do tempo porque cada pessoa aqui me conta uma coisa de um jeito diferente. Ela assentiu. — Eu entendo. — Minha irmã saiu consciente da observação. Às 21h18, foi registrada para imagem. Às 21h36, apareceu um registro de óbito antes do horário que o médico declarou, 21h42. Isso está certo? O rosto dela mudou. Muito pouco. Mas mudou. — Eu não tenho acesso ao documento que você viu anteriormente. — Então me diz se é normal registrar um óbito antes da hora da morte. — Não. A resposta veio limpa. Sem rodeio. Finalmente. — Obrigada. Ela percebeu tarde demais que tinha dito mais do que talvez devesse. — Mas pode existir diferença entre horário de inserção, geração automática do sistema e validação médica. — Eu sei. — Não significa necessariamente que exista irregularidade. — Também sei. Peguei o celular. — Quero protocolo do pedido do prontuário completo. Dessa vez, ela não discutiu. ⸻ Quando voltei para minha mãe, encontrei Marcelo conversando com ela. Aproximava-se com a mesma calma de sempre. — Estávamos falando sobre os próximos procedimentos — explicou quando me viu. — Quais? Minha mãe respondeu antes dele. — Disseram que talvez eu não consiga ver a Isa. Parei. — Como assim? Marcelo ajustou a postura. — A equipe avaliou que houve alterações importantes depois da reanimação. Existe uma recomendação para que o reconhecimento seja restrito. — Recomendação não é proibição. — Não. — Então nós vamos ver. Minha mãe concordou com a cabeça. Marcelo demorou. — Vou providenciar. Eu quase ri de nervoso. — Dessa vez eu vou com você enquanto providencia. Ele me encarou. — Rebeca, não é necessário. — Pra mim é. Comecei a acompanhá-lo pelo corredor antes que decidisse se autorizava. Depois de alguns passos, ele parou próximo a uma porta. — Aguarde aqui. — Quanto tempo? — Alguns minutos. — Dez? — Provavelmente. Olhei o relógio. 23h58. — Vou contar. Ele entrou. Eu fiquei. Foi então que ouvi vozes do outro lado do corredor. Uma porta estava entreaberta. Duas pessoas conversavam baixo. Eu não conseguia ver quem eram. Ouvi apenas pedaços. — …não era pra família ter recebido aquilo. Outra voz respondeu: — Já recolheram. Meu corpo ficou imóvel. — E a transferência? — Resolve amanhã. Agora o problema é a irmã. Meu coração acelerou. A primeira voz baixou ainda mais. Precisei chegar discretamente mais perto. — Ela viu a menina antes. Silêncio. Depois: — Então fica atento. Se ela começar a juntar horário, vai dar trabalho. Meu celular já estava na minha mão. Abri o gravador sem pensar. E, pela primeira vez naquela noite, parei de tentar convencer a mim mesma de que tudo podia ser apenas erro.
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