Lorena
O silêncio após o tiroteio não durou muito. Cada passo que eu dava ainda ecoava nas paredes estreitas do Vidigal, e o cheiro da pólvora se misturava ao suor do medo que eu sentia. Dona Maria do Carmo estava encostada em mim, frágil, mas tentando manter a dignidade que sempre teve. Eu segurava sua mão, tentando passar força que nem eu tinha completamente.
Anjo se mantinha perto, sempre atento, analisando cada sombra, cada movimento suspeito. Não havia gesto desnecessário, nada fora do lugar. Eu sentia os olhos dele sobre mim constantemente, e não era apenas vigilância — havia algo mais, algo que queimava silencioso e profundo, e eu não sabia se queria enfrentar ou fugir dele.
— Lorena — ele chamou, a voz firme mas suave ao mesmo tempo. — Você tem
coragem.
Eu quase engasguei com a surpresa. Coragem? Eu só estava tentando sobreviver, tentando manter minha avó viva, mas a maneira como ele falou parecia transformar meu medo em algo maior, como se ele enxergasse uma força que eu mesma duvidava existir.
— Eu… eu só faço o que preciso — respondi, tentando não deixar a emoção transparecer. — Não tem coragem nisso.
Ele sorriu levemente, e foi a primeira vez que notei um gesto quase humano naquele homem imponente. Um sorriso rápido, mas que trouxe uma pontada de calor ao meu peito. — Às vezes, fazer o que é necessário é mais difícil do que qualquer outra coisa. — E então ele se virou, observando novamente a rua. — Vamos precisar de mais do que sorte pra passar por hoje.
Enquanto ele falava, senti o peso da situação. Eu ainda não sabia quem exatamente ele era, ou o quão perigoso, mas o Vidigal tinha suas regras: se Caíque estava envolvido, estávamos dentro de algo maior do que eu poderia compreender. Meu instinto dizia para confiar nele, mas a razão gritava para ter cuidado.
— Onde… onde vamos agora? — perguntei, finalmente.
— Primeiro, precisamos garantir que ninguém nos siga. Depois, vou achar um lugar seguro pra vocês ficarem. — Ele não me olhou quando falou, mas senti a intensidade de cada palavra. — Confie em mim, Lorena.
Era impossível não confiar. Mesmo que minha mente gritasse “perigo”, meu corpo, de algum modo, já havia aceitado que ele era a proteção que eu não sabia que precisava.
Caminhamos pelas vielas mais estreitas, desviando de lixo, escadas improvisadas e pedaços de concreto. Cada esquina parecia esconder inimigos, cada sombra podia ser um alerta. Mas, mesmo com todo o medo, eu não conseguia tirar os olhos dele. A postura, o jeito de andar, a forma como mantinha os ombros sempre firmes — tudo nele parecia dizer que nada podia pará-lo. E, ao mesmo tempo, havia algo em sua voz e em seu olhar que me dizia que, se eu confiasse, ele não permitiria que nada nos acontecesse.
— Lorena — disse ele, finalmente me olhando. — Eu preciso que você fique atrás de mim. Sempre. Não tente tomar decisões sozinha hoje. — Havia autoridade na voz dele, mas não havia grosseria. Era um comando que eu não podia, nem queria, ignorar.
Eu apenas assenti, incapaz de falar. Sentia meu coração acelerar com cada palavra, com cada movimento dele. Era mais do que apenas medo ou gratidão — havia algo que queimava silencioso, algo que eu ainda não podia nomear.
Enquanto subíamos uma escada de ferro improvisada que levava a um beco mais alto, eu percebi a extensão do poder dele no Vidigal. Havia olhares que se desviavam, vozes que sussurravam e silêncios que se alongavam na medida em que ele passava. Eu entendi, naquele momento, que Caíque não era apenas mais um homem do morro. Ele era o dono, o que todos respeitavam e temiam, e isso me deixou ainda mais vulnerável diante dele.
— Por que você faz isso? — perguntei, finalmente quebrando o silêncio, com a curiosidade vencendo o medo. — Por que se importa?
Ele parou por um instante, me encarando. O olhar era intenso, quase impossível de suportar. — Porque alguém tem que se importar. — A resposta foi simples, direta, mas carregava um peso que eu não conseguia decifrar completamente. — E hoje, essa pessoa sou eu.
Enquanto falava, senti uma estranha mistura de medo e atração. Era como se cada palavra dele tivesse um efeito físico, fazendo meu corpo reagir antes mesmo da mente entender. Eu tentei me concentrar em manter a avó segura, em não demonstrar nada, mas era impossível ignorar.
Quando finalmente chegamos a um ponto relativamente seguro, Anjo se virou para
mim. — Fiquem aqui, não façam nada até eu voltar — disse, olhando ao redor, atento a qualquer sinal de ameaça. — Não se preocupem com o que está lá fora.
Eu sentia a adrenalina ainda pulsando nas veias, o coração disparado, mas havia uma estranha sensação de segurança ao lado dele. Era um paradoxo: o homem mais perigoso do Vidigal se tornara, em minutos, minha âncora.
Minha avó descansava, exausta, e eu tentava organizar meus pensamentos. Mas cada vez que olhava para Caíque, meu corpo reagia, o medo se misturava à curiosidade, a tensão à atração silenciosa. Eu sabia que aquele encontro não era casual. Ele não era apenas um salvador; ele seria parte de tudo que viria depois.
— Você vai me dizer seu segredo, ou vai manter esse ar de mistério por muito tempo? — perguntei, finalmente, tentando provocar algum sorriso ou reação nele.
Ele me encarou por alguns segundos, como se ponderasse, e então deu um pequeno sorriso. — Talvez, Lorena. Mas primeiro, precisamos sobreviver. Depois, eu te conto.
E naquele momento, eu entendi: minha vida havia mudado para sempre. Entre o fogo do tiroteio, o caos do Vidigal e a presença imponente de Caíque, eu percebi que nada seria mais como antes. Eu era a flor do morro, e aquele homem… ele seria o fogo que poderia me queimar ou me proteger.
O silêncio depois do tiroteio era quase sufocante. Cada som distante do Vidigal fazia meu coração disparar, como se cada passo que eu desse pudesse ser o último. Segurava firme a mão da minha avó, Dona Maria do Carmo, sentindo seus dedos frágeis tremerem na minha palma. Ela nunca fora tão frágil. Sempre foi a rocha da nossa família, a força que me ensinou a lutar, a sobreviver. E agora, naquele momento, parecia pequena diante do morro, do medo, do mundo.
— Minha flor… — ela murmurou, a voz baixa, quase um sussurro. — Acho que… não consigo… — suas palavras se perderam no ar, e seu corpo se inclinou levemente, demonstrando que algo não estava certo.
Meu coração deu um salto. — Vovó! — exclamei, tentando apoiá-la, mas ao mesmo tempo sentindo um frio percorrer a espinha. — Fica calma! Eu tô aqui, eu cuido de você. Sempre vou cuidar.
Ela tossiu, e dessa vez o som foi mais forte, dolorido. Eu senti cada músculo do meu corpo se contrair. Cada passo no Vidigal parecia mais perigoso agora, cada sombra uma ameaça invisível. Eu sabia que não podia fazer nada errado, que qualquer distração poderia nos custar caro.
— Calma, Dona Maria do Carmo, respira devagar… — eu repetia, como se minhas palavras pudessem criar uma bolha de segurança em torno de nós. — Não vamos deixar nada nos atingir. Não agora.
Mas o medo era grande demais para ser afastado apenas com palavras. Eu precisava agir, encontrar algo que aliviasse a situação, mas estávamos presas naquele lugar que Anjo havia apontado como seguro, e ainda assim eu sentia que o perigo rondava a cada esquina.
— Minha flor… — a voz dela falhou novamente. — Eu… — ela segurou meu braço com força. Seus olhos, normalmente tão doces, agora estavam assustados e confusos. — Não sei se consigo… —
Eu respirei fundo, segurando as lágrimas. — Não diga isso, vovó. Você é mais forte do que imagina. Eu preciso que você fique comigo. Eu não posso perder você agora. Não depois de tudo.
O calor do seu corpo era frágil contra o meu, e eu senti uma onda de desespero crescer. Cada lembrança de momentos felizes, cada conselho que ela me deu, agora se misturava com o medo de perdê-la. Eu sabia que precisava manter a calma, mas a ansiedade me consumia, fazendo minhas mãos tremerem e meu coração acelerar.
Enquanto isso, ouvia ao redor os sons abafados do morro. O Vidigal continuava vivo, com o eco de passos, vozes e o leve som distante de funk misturado com sirenes. Cada ruído era uma lembrança de que estávamos vulneráveis, de que a segurança era frágil. Eu precisava manter a avó protegida, mas também precisava proteger meu próprio coração, que se apertava a cada instante.
— Respira, vovó. Vamos tentar sentar aqui um pouco — disse, apontando para uma cadeira próxima, enquanto segurava o corpo dela com cuidado. — Eu não vou te deixar sozinha. Prometo.
Ela assentiu levemente, apoiando-se em mim com toda a fraqueza que carregava. E naquele momento, percebi a dimensão do meu amor por ela. Não era apenas cuidado, era proteção absoluta. Eu faria qualquer coisa para mantê-la viva, para protegê-la do mundo c***l que nos cercava.
O silêncio entre nós era quebrado apenas pelo som de respirações profundas e pelos leves gemidos de dor da minha avó. Eu tentava pensar rápido, raciocinar, encontrar uma solução que pudesse aliviar a situação. Mas cada opção parecia limitada, e o medo de errar era esmagador.
— Lorena… minha flor… — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu… tenho medo… —Eu apertei sua mão com força, tentando transmitir confiança. — Eu também, vovó. Mas o medo não vai nos vencer. Não hoje. Eu tô aqui. Eu nunca vou te deixar.
Enquanto falava, senti algo se acender dentro de mim. Não era apenas proteção, era uma determinação feroz, quase instintiva. Eu não permitiria que nada nos destruísse. Eu seria a fortaleza dela, a flor que floresce mesmo em meio ao fogo do morro.
Os minutos se arrastavam lentamente. Cada som do lado de fora fazia meu coração saltar, cada sombra projetada nas paredes do lugar onde estávamos parecia se mover com intenções desconhecidas. Mas eu mantinha minha postura firme, apesar do desespero, tentando passar segurança à minha avó.
— Minha flor… — Dona Maria do Carmo murmurou novamente, e dessa vez parecia mais confusa, mais frágil. — Eu… — Ela fechou os olhos, e eu senti meu peito apertar. — Não sei se consigo…
Eu respirei fundo, colocando a mão em sua testa, sentindo a febre, o calor do corpo dela.
— Você consegue, vovó. Eu sei que consegue. Você sempre conseguiu. Eu aprendi com você a ser forte. Agora deixa que eu cuide de você. —A tensão do morro parecia se intensificar, como se o próprio Vidigal sentisse nossa vulnerabilidade e estivesse prestes a testar nossa resistência. Mas, naquele momento, nada importava mais do que Dona Maria do Carmo e o juramento silencioso que fiz a mim mesma: eu não permitiria que nada a machucasse, nem mesmo o fogo e o perigo que rondavam o morro.
Enquanto cuidava dela, senti que cada segundo era precioso, cada respiração, cada gesto de carinho, cada palavra de incentivo. Eu sabia que estava sendo testada, que aquele momento era uma prova da força que carregava dentro de mim. E, mesmo em meio ao medo e à incerteza, descobri uma coragem que não sabia que existia, um amor tão profundo que poderia enfrentar qualquer ameaça.
O tempo parecia se arrastar, mas eu continuei ali, firme, cuidando, respirando com ela, transmitindo força mesmo quando a minha própria vacilava. E assim, entre sussurros, mãos entrelaçadas e o silêncio tenso do Vidigal, eu percebi que a flor do morro não se curva diante do medo. Ela floresce, mesmo entre o fogo, mesmo quando tudo parece perdido.