Capítulo 3

1032 Words
Lorena O silêncio que antes parecia apenas sufocante tornou-se verdadeiramente aterrador quando percebi que Dona Maria do Carmo estava cada vez mais fraca. Eu sentia sua mão escorregar lentamente da minha, os dedos trêmulos, o suor frio em sua testa, cada detalhe denunciando que suas forças estavam se esgotando. Meu coração doía de forma quase física, e o medo que até então eu tentava controlar transformou-se em pânico absoluto, como se alguém tivesse arrancado o chão sob meus pés. — Vovó… não agora… por favor… — sussurrei, agarrando-a com a força desesperada de quem tenta segurar a própria vida pelas mãos. — Você não pode me deixar, eu preciso de você. Ela abriu os olhos por um instante e fitou os meus com um último brilho de ternura, como se ainda tentasse me acalmar mesmo enquanto seu corpo sucumbia. — Lorena… minha flor… eu… — murmurou com extrema dificuldade, cada palavra arrancada com dor — eu te amo… Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto e se misturou ao suor e à poeira do morro. — Eu também te amo, vovó! — gritei, apertando-a contra mim com desespero. — Por favor, não me deixa, eu não sei viver sem você! Mas o corpo dela fraquejou de vez. Os olhos, antes cheios de sabedoria, perderam o brilho aos poucos, e sua mão se soltou da minha como se o mundo inteiro estivesse indo embora junto. Eu a senti escorregar dos meus braços para esse silêncio definitivo, e, naquele instante, um vazio profundo se abriu dentro de mim, um buraco que parecia engolir toda a força que ainda restava. — Não… não agora… — murmurei, tentando agarrar qualquer resto de respiração, qualquer batida de coração que já não existia. — Eu prometo que vamos sair daqui… eu prometo… — mas era inútil; não havia promessa que trouxesse a vida de volta. O corpo de Dona Maria do Carmo rendeu-se ao silêncio final, e eu permaneci ali, abraçada a ela, sentindo o calor desaparecer pouco a pouco e recusando-me a aceitar a realidade c***l que se impunha. O Vidigal, indiferente à minha dor, parecia ainda mais c***l. Os sons do morro continuavam, mas já não eram sinais de perigo; tornaram-se um fundo frio para o meu desespero. Eu gritei, e meu grito ecoou pelas vielas estreitas, carregando tudo o que eu não conseguia suportar: a dor, a revolta, a sensação de ter sido arrancada de mim mesma. — Vovó! — chorei alto, sem vergonha, sem conseguir me calar. — Não me deixa, por favor! A cada lágrima que caía, eu sentia como se uma parte de mim morresse junto com ela. O morro não perdoa nem os corações mais fortes, e naquele instante entendi que eu estava sozinha de um jeito que jamais havia conhecido. Abraçada ao corpo dela, tentei falar, mas a voz saía quebrada. Eu murmurava o nome dela, repetia como se a repetição fosse capaz de trazê-la de volta; tudo o que recebia em resposta era o silêncio brutal, absoluto, que agora me cercava como única companhia. As lembranças começaram a invadir minha mente com violência — sua risada, seus conselhos, o carinho que sempre me deu — e, junto delas, a certeza dolorosa de que nada disso voltaria. Eu sabia que, por mais que doesse, precisaria continuar respirando, existir apesar do coração despedaçado; porém, naquele momento, tudo o que consegui fazer foi chorar, presa na perda da minha rocha, da minha proteção, da mulher que foi a base de tudo o que sou. — Eu não sei como seguir sem você… — confessei, quase sem voz. — Mas eu prometo que vou lutar por nós. Eu te amo… muito… O morro continuava vivo ao redor, indiferente à minha dor, mas dentro de mim formou-se um juramento silencioso: nada apaga o amor que ela me deixou. Eu podia ser a flor do morro, sim — mas agora era uma flor marcada pela ausência, pela dor, e pela força que nasce da perda. Segurei sua mão uma última vez, sentindo o frio substituir o calor que antes aquecia minha alma, e sussurrei palavras que talvez ninguém além dela pudesse ouvir: — Adeus, minha flor… minha vovó… eu vou sobreviver. Eu prometo. Mesmo com o coração em pedaços, percebi que a vida no Vidigal não pararia para o meu luto. O morro é implacável: não espera, não pergunta, não se compadece. Eu precisava levantar, seguir, lutar e sobreviver, não apenas por mim, mas por ela, por tudo que representou e por cada lição que deixou. Quando o dia amanheceu, o céu parecia carregar o mesmo peso que eu. Cinzento, denso, como se também sentisse a falta dela. O velório reuniu vizinhos, amigos, irmãs da igreja com seus véus brancos e olhares cheios de compaixão; até alguns vapores apareceram, mantendo distância, mas prestando respeito silencioso à mulher que o morro inteiro admirava. Meu peito doía ao encontrar cada olhar solidário. Eu tentava manter a postura, mas o coração parecia se despedaçar a cada passo. E então eu o vi. Parado na entrada, imponente como uma sombra que domina tudo ao redor, estava Arcanjo— o homem mais temido do Vidigal. Sua presença mudou o ar. As pessoas se afastaram instintivamente, com respeito e medo, mas quem congelou de verdade fui eu. Algo em mim se agitou, uma mistura confusa de tensão, receio e um sentimento que eu não sabia nomear. Ele deu alguns passos para frente, mantendo-se respeitosamente distante, mas sua presença falava mais alto que qualquer palavra. Meus olhos encontraram os dele, e, por um segundo, tive a estranha sensação de que ele sabia exatamente o que eu sentia — a dor, o luto, o vazio. Anjo observava tudo com atenção, como se o morro inteiro estivesse sob comando dele. Quando seus olhos se fixaram em mim, a intensidade quase me fez perder o ar. Não era apenas curiosidade: havia algo protetor, silencioso, um aviso mudo de que nada me tocaria enquanto ele estivesse ali. Meu coração acelerou, minha respiração ficou irregular, e senti, pela primeira vez, que minha vida estava mudando de forma irreversível. Anjo estava ali — e, com ele, veio a certeza de que nada no meu mundo seria igual novamente.
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