Capítulo 1
Lorena
O dia sempre começava cedo no morro, antes mesmo de o sol iluminar as vielas estreitas e de os primeiros sons das sirenes se misturarem ao batidão do funk que ecoava das caixas de som das casas vizinhas. Eu, Lorena, já estava de pé com os olhos ainda pesados de sono e o coração carregado por uma preocupação que havia se tornado constante desde que a doença da minha avó, Dona Maria do Carmo, começara a se intensificar. Ela sempre fora uma mulher forte, daquelas que parecem nascer com raízes fincadas na terra, mas os últimos meses a haviam transformado em alguém frágil, dependente de cuidados que eu, tão jovem, me empenhava em oferecer.
Minha rotina seguia quase automática: acordar, preparar o café da manhã que ela conseguia comer, ajudá-la a levantar, administrar os remédios, organizar cada detalhe do dia antes mesmo de o cheiro do pão tostando na chapa da birosca onde eu trabalhava invadir o ar. Enquanto isso, o som dos passos das crianças correndo pela rua de paralelepípedos se misturava ao grito das vendedoras anunciando frutas, verduras e o pão quentinho da padaria do morro, como um coro cotidiano que nunca falhava.
A birosca era pequena e apertada, mas carregava o aroma do café forte e do pão fresco, que de alguma forma parecia me dar forças para enfrentar o que viesse. Trabalhar ali nunca era fácil: o movimento não parava, o tempo corria depressa e cada rosto que cruzava a porta trazia uma história diferente — algumas marcadas por sorrisos, outras pesadas pelo medo. Aprendi a ouvir murmúrios, a decifrar olhares e a entender que, naquele lugar, cada gesto podia significar lealdade ou ameaça.
Mesmo enquanto servia café e pães, minha mente raramente se afastava da minha avó. Dona Maria do Carmo sempre foi meu porto seguro, a mulher que me ensinou a sobreviver no Vidigal sem perder a delicadeza que eu carregava dentro de mim. Ela falava com frequência do amor escondido nas pequenas coisas: a flor no parapeito da janela, o cheiro da chuva depois de dias de calor, a risada sincera de alguém que, apesar de tudo, ainda acreditava na bondade. Agora, vendo-a tossir fraca na cadeira, essas pequenas belezas pareciam um luxo distante demais.
O Vidigal não perdoava fraquezas. Quem se mostrava vulnerável corria riscos, e eu sabia disso melhor do que ninguém. Desde criança aprendi a observar, a escutar, a entender que cada sombra podia esconder um inimigo e que cada sorriso podia ser uma armadilha. Ainda assim, me recusava a endurecer completamente. Dentro de mim havia uma flor insistente, que teimava em florescer mesmo entre os escombros do medo e da violência.
Naquela manhã, o som das sirenes se intensificou e se misturou ao batidão do funk que atravessava o morro. Meus dedos pararam por um instante sobre o balcão da birosca. O mesmo frio na espinha percorreu meu corpo, aquele aviso silencioso de que algo estava prestes a acontecer. Ajudei Dona Maria do Carmo a se levantar quando ela precisou de apoio. Ela murmurou um “minha flor” com a voz fraca, mas cheia de carinho. Sorri tentando esconder a aflição e sussurrei que tudo ficaria bem, que eu estava ali — sempre estaria.
De repente, o movimento aumentou, um grupo de jovens passou correndo e os tiros estouraram de forma abrupta, rasgando o ar quente da manhã. O coração disparou e, por um segundo, tudo parou. A rotina se transformou em caos. Agarrei a mão da minha avó, protegendo-a enquanto os clientes se abaixavam; gritos, correria e medo tomaram conta do espaço. Eu ainda não sabia, mas aqueles disparos mudaram o rumo da minha vida.
Sem pensar, ergui Dona Maria do Carmo e corria pelas vielas, desviando de escombros, fumaça e de figuras que surgiam e desapareciam. Cada passo era guiado pelo desejo de mantê-la viva, de preservar a única pessoa que realmente importava para mim. Uma força nova tomou conta do meu corpo: coragem nascida do amor. Eu era apenas uma garota do Vidigal, mas, naquele instante, senti que enfrentaria o mundo inteiro para proteger minha avó.
Quando os tiros cessaram, paramos em uma viela mais afastada. O cheiro de pólvora ainda queimava nas narinas, e meu coração batia desacompanhado. Foi então que ouvi passos firmes se aproximando. Não era apenas o medo comum do morro — era a presença de alguém que exalava poder, autoridade e perigo.
— Ei… — a voz soou baixa, mas carregada de comando.
Virei-me rapidamente e o vi. Alto, imponente, olhar intenso, postura de quem controla o ambiente e não se curva a ninguém. Ele parecia enxergar através de mim. Aproximou-se com calma e perguntou se estávamos bem. Minha voz falhou quando respondi que sim. Ele observou minha avó com atenção e afirmou que nos levaria para um lugar seguro. Havia naquele tom uma ordem inquestionável. Eu queria recusar, mas intuía que, se não aceitasse, talvez não sobrevivemos. O morro não perdoa erros.
Seguimos por becos e escadas, e a tensão crescendo dentro de mim se misturava a uma estranha sensação de proteção. Quando perguntou meu nome, respondi “Lorena”. Ele repetiu devagar, como quem guarda, e disse que eu poderia chamá-lo de Anjo. O nome caiu sobre mim como aviso e promessa ao mesmo tempo.
Ao chegarmos a um local mais seguro, ele pediu que eu ficasse ali com minha avó e garantiu que não precisaríamos nos preocupar enquanto estivesse por perto. A simplicidade da frase carregava uma força que me surpreendeu. Perguntei por que ele nos ajudava, e ele respondeu que alguém precisava sobreviver naquele morro e que, naquele dia, essa responsabilidade era dele. As palavras ficaram pesadas no ar.
Permanecemos em silêncio por alguns minutos, apenas ouvindo o eco distante da confusão e sentindo o morro pulsar ao nosso redor. Eu sabia que aquele encontro não era casual. Anjo não era só o homem que havia aparecido em meio ao tiroteio: era o ponto de virada de tudo que viria a seguir. Entre o cheiro de pólvora, o calor do Vidigal e aquela presença que misturava perigo e proteção, compreendi que a minha vida, assim como o morro, nunca mais seria a mesma.