Arcanjo Eu parei a caminhonete em frente à casa, eu desliguei o motor devagar. Não era pressa. Era respeito pelo momento. A casa estava silenciosa, aquele silêncio estranho de depois de uma tempestade emocional, quando tudo parece em suspensão. Desci primeiro e dei a volta, abrindo a porta pra ela. Lorena saiu com cuidado, como se aquele chão fosse novo, como se estivesse entrando ali pela primeira vez. Quando nossos olhos se cruzaram, eu vi: não era medo. Era entrega misturada com cautela. E eu merecia cada grama dessa cautela. Entramos. A casa ainda tinha o cheiro dela. Sempre teve. O sofá com a manta jogada de qualquer jeito, a sandália perto da escada, um copo esquecido na pia. Coisas pequenas que, na ausência dela, tinham virado punhal. Agora, estavam ali como prova de que ela pe

