Capítulo 5

1127 Words
Capítulo 5 HELEN NARRANDO — Eu não vou. Minha voz saiu firme. Mais firme do que eu me sentia por dentro. Corvo tava parado no meio do quarto, braços cruzados, aquele olhar de predador cansado de ouvir “não” desde que nasceu. Ele tinha acabado de dizer, com a naturalidade de quem manda alguém pegar um copo d’água, que eu ia sair com ele pro baile do morro no fim de semana. Como se eu fosse um acessório. Como se eu não fosse uma sequestradä. — Vai sim — ele respondeu, sem emoção. — Não vou — repeti. — Eu não sou sua boneca pra você me levar pra passear. Ele deu um passo à frente. — Você não entendeu ainda como isso funciona aqui. — Eu entendi muito bem — cruzei os braços. — Você é um bandido psicopatä que acha que pode mandar em tudo e em todos. A veia no pescoço dele saltou. — Cuidado com o jeito que fala comigo. — Ou o quê? — provoquei. — Vai me bater? Vai me trancar mais uma semana sem comida? Ele riu. Mas não tinha nada de engraçado nesse riso. — Você não tem querer, Helen. Meu estômago afundou. — Você vai entender isso por bem ou por mäl nessa porrä. Meu coração disparou. Mas eu não abaixei a cabeça. — Vai se föder. O tapa veio na parede ao lado do meu rosto. Não em mim. Mas perto o suficiente pra me fazer pular. — VOCÊ NÃO É NADA AQUI — ele rosnou. — VOCÊ RESPIRA PORQUE EU DEIXO SUA FILHA DA PUTÄ! MANDA EU SE FÖDER DE NOVO E RU MORRE HOJE MESMO! Eu senti meus olhos queimarem. Não de medo. De ódio. — Eu te odeio. Ele me encarou por alguns segundos longos. O maxilar travado. Os punhos fechados. Então virou de costas. — Isso ainda não terminou — olhou por cima do ombro. — A gente conversa de novo depois. — Eu já falei que não vou! Ele abriu a porta. — Você vai. Saiu. Bateu a porta. A tranca girou. Eu fiquei sozinha. De novo. Andei pelo quarto como um bicho enjaulado. — Filho da putä… filho da putä… filho da putä… Sentei na cama. Enterrei o rosto nas mãos. Eu odiava esse homem. Odiava a casa dele. Odiava esse morro. Odiava o fato de uma parte estúpida de mim ter sentido alguma coisa estranha quando ele chegou perto demais. Raiva. Confusão. Algo que eu não queria nem nomear. ( ... ) O tempo passou arrastado. E logo o final de semana chegou. Quando a porta abriu de novo, eu quase joguei o travesseiro nele. Mas ele não tava com cara de briga. Tava sério. Focado. — Levanta — ele mandou. — Eu disse que não vou. — Não me testa hoje, Helen. Ele fez um sinal com a cabeça pra fora do quarto. — Um vapor e dois soldados vão te levar pra resolver umas coisas no complexo. — Resolver o quê? Ele me olhou de cima a baixo. Sem vergonha nenhuma. — Isso aí — fez uma careta. — Tá horrível. Eu não vou te apresentar no meu nome assim. Meu rosto queimou. — Apresentar aonde? — Você vai ver. — Eu não entendi nada do que você acabou de dizer. — Não precisa entender — ele respondeu. — Só se mexe. Eu hesitei. Mas a verdade é que eu tava desesperada pra sair desse quarto. Nem que fosse pra andar cinco minutos na rua. Nem que fosse pra ver gente. Nem que fosse pra fingir, por meia hora, que eu não tava sequestradä por um psicopatä. — Tá. Ele abriu a porta. Dois homens armados e um garoto mais novo, de boné e corrente falsa, estavam esperando. — Essa é a Helen — Corvo disse. — Vocês vão com ela. Nada de gracinha. Nada de desvio. Qualquer coisa errada, eu mato vocês três. — Sim, chefe — os três responderam em coro. Eu engoli em seco. Desci as escadas da casa dele com o coração batendo na garganta. Quando botei o pé na rua do complexo, foi como levar um tapa de realidade. O morro tava vivo. Gente indo e vindo. Criança jogando bola. Música alta. Cheiro de comida. Moto passando. Mulher rindo. Homem discutindo. Era um mundo inteiro funcionando normalmente. E eu no meio dele. — Pra onde a gente vai? — perguntei pro vapor. — Primeiro na lojinha da Dona Néia — ele respondeu. — Roupa. Depois salão da Jô. Cabelo, unha. Essas parada de mulher. Eu soltei um riso nervoso. — Parece um dia normal de shopping. — Aqui é o shopping do morro, princesa — ele brincou. A lojinha era pequena, mas cheia de roupa pendurada. Vestido. Short. Cropped. Jeans. Sandália. Tênis. A dona, uma mulher, me olhou com curiosidade. — Essa é a mulher do chefe? — cochichou pro vapor. Meu estômago revirou. — Deve ser — o vapor respondeu. Ela me levou até o provador. Eu experimentei um vestido preto justo. Uma saia jeans. Uma blusa branca. Um short de couro falso. Quando saí, o vapor fez um sinal de aprovação. — Esse aí tá bonito. Eu me senti estranhamente normal. No salão, fizeram meu cabelo. Escova, prancha, hidratação. Pintaram minhas unhas de vermelho. Limparam minha sobrancelha. Por uma hora, eu quase esqueci onde eu tava. — Tô com fome — falei quando saímos. — Tem um lanche da hora ali em cima — o vapor respondeu. — Quer ir? — Quero. Meu estômago roncava. A gente virou uma esquina. E eu vi ele. Corvo tava sentado numa mesa de plástico, cercado de homens armados. Uma mulher tava sentada no colo dele. Rindo. Com a mão no peito dele. Meu peito apertou. Por quê? Eu não tinha direito nenhum de sentir isso. Eu não queria sentir isso. Mas senti. Ciúme. Raiva. Um gosto amargo na boca. Eu passei reto. Cabeça erguida. Como se ele não existisse. Eu ouvi a risada dele. O vapor cumprimentou ele com a cabeça. — Salve, chefe. Corvo olhou pra mim. Os olhos dele demoraram mais do que deviam. Ele me avaliou. De cima a baixo. Devagar. A mulher no colo dele percebeu. — Quem é essa? — ela perguntou. Ele não respondeu. Eu não olhei pra ele. Entrei no lugar do lanche. Pedi um hambúrguer e uma coca. Sentei com os vapores. Ri de uma piada idiotä que um deles contou. Fingi que tava tudo bem. Mas meu estômago tava embrulhado. Quando saí, Corvo ainda tava lá. Me encarando. Eu passei por ele de novo. Sem dizer nada. Sem abaixar a cabeça. Sem pedir permissão. E, pela primeira vez desde que cheguei nesse infernö… Eu senti que eu tinha ganhado uma batalha. Pequena. Mas minha.
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