Capítulo 6

1201 Words
Capítulo 6 HELEN NARRANDO Eu sabia que esse dia ia mudar tudo. Não porque eu quisesse. Mas porque, desde que o Corvo tinha dito que eu iria ao baile do morro, alguma coisa dentro de mim não parava de vibrar, uma mistura de medo, raiva e uma curiosidade perigosa. Passei a tarde inteira andando de um lado pro outro no quarto que agora chamavam de “meu”. O quarto confortável. A prisão de luxo. A gaiola dourada onde ele achava que eu ia aprender a ser dócil. Spoiler: não ia. A vapor tinha vindo mais cedo mandar eu me arrumar. Ela não falava muito, mas tinha um jeito meio cúmplice no olhar, como se dissesse sem palavras: sobrevive aí, menina. — Ele mandou você se arrumar. — ela disse, jogando uma sacola de roupas em cima da cama. — E não demorar. Revirei os olhos. — Então ele que espere o tempo que eu achar necessário. — respondi, puxando uma das peças. Escolhi um vestido curto demais para o gosto de qualquer homem controlador. Justo demais. Decotado demais. Preto, colado no corpo, com uma fendä na lateral que subia até metade da coxa. Se ele queria me exibir como troféu, eu ia virar um incêndio fora de controle. Deixei o cabelo solto, ondulado, pesado nas costas. A maquiagem foi marcada nos olhos, boca vermelha, provocação pura. Quando me olhei no espelho, levei um susto. Eu estava linda. Perigosa. E, pela primeira vez desde que tinha sido sequestrada, me senti poderosa. Quando a porta abriu sem bater, eu já esperava. Corvo encostou no batente como se o mundo fosse dele. Os olhos dele me varreram de cima a baixo sem nenhum pudör. A mandíbula travou. O maxilar ficou tenso. A respiração mudou. Por um segundo, ele esqueceu de ser monstro. Depois lembrou. — Tu tá querendo morrer, porrä? — ele murmurou, a voz grossa, carregada de raiva e alguma coisa mais escura. Sorri de lado. — Relaxa. Se eu morrer hoje, pelo menos morro bonita. Ele veio até mim em dois passos largos, parando perto demais. — Sem gracinha, Helen. — a mão dele segurou meu queixo com força suficiente pra doer. — Ou tu morre. Engoli seco. Mas não desviei o olhar. — Promessas vazias não me assustam mais, Corvo. Ele me soltou de repente, como se tivesse medo de fazer algo que não pudesse desfazer. — Vambora. — rosnou. Desci as escadas com ele atrás de mim. Cada degrau parecia um palco. Cada passo, uma decisão errada. Quando saímos, o som do morro já pulsava no ar. Graves batendo no peito. Luzes coloridas cortando a noite. Cheiro de bebida, suor, fumaça e liberdade misturados. O carro me deixou perto da entrada do baile. Dois soldados vieram junto. Corvo não ficou colado em mim, e isso foi de propósito. Ele queria ver até onde eu ia. Assim que entrei, senti. Todos olharam. Todos. Os olhos deslizavam, curiosos, tensos, respeitosos, desejosos. Sussurros se espalhavam como fogo. — É ela. — A filha do inimigö. — A mulher do Corvo. — Tá doido? Ele vai matar alguém hoje. Eu ergui o queixo. Se eu ia ser espetáculo, então que fosse no meu controle. Peguei uma bebida no bar improvisado e dei um gole generoso. O álcool queimou a garganta e desceu quente, me dando coragem. Comecei a dançar sozinha, sentindo o ritmo atravessar meu corpo. Quadril lento. Olhar desafiador. Postura de quem não deve nada a ninguém. Subi pro camarote com dois vapores que riam e falavam alto. Aqui de cima dava pra ver tudo. Pedi outra bebida. Depois mais uma. Eu sentia o olhar dele em mim mesmo sem ver. Homens começaram a se aproximar. Primeiro foi um cara alto, camisa branca aberta no peito. — E aí, gata… — ele sorriu. — Sozinha assim? Inclinei a cabeça, fingindo pensar. — Nunca tô sozinha. Ele riu, achando que era charme. — Posso sentar? — Pode tentar. Ele sentou perto demais. O cheiro de perfume barato misturado com bebida. A mão dele encostou no meu joelho. Foi aí que o ar mudou. Eu senti antes de ver. Um peso invisível caiu sobre o lugar. Olhei pro outro lado do camarote e encontrei Corvo. Ele não estava sorrindo. Não estava brincando. Não estava relaxado. Ele estava parado, braços cruzados, mandíbula dura, olhos negrös cravados em mim como uma sentença de morte. Meu coração disparou. Mas eu não recuei. Sorri pro cara ao meu lado. — Você dança bem? — Quer ver? — Respondi e ele sorriu. Levantei e puxei ele pela mão. Desci pro meio da pista. Eu dançava só pra provocar. Mais perto. Mais lenta. Mais sensual. Eu sabia que estava cavando minha própria cova. Mas queria ver até onde ele ia. A mão do cara desceu pra minha cintura. Depois escorregou pra minha bundä. Foi rápido. Um puxão violento no meu braço. — TU VAI MORRER HOJE, PORRÄ! — Corvo rosnou, apontando a arma pro cara. O cara levantou as mãos. — Foi m*l, patrão, eu não sabia... O soco veio antes da frase acabar. Um murro seco, brutal, que jogou o homem no chão. — NINGUÉM TOCA NELA! — Corvo berrou. — NINGUÉM! O baile inteiro congelou. Eu tremia. Não de frio. Não de raiva. De uma mistura doentia de medo e adrenalina. — VOCÊ É LOUCO?! — eu gritei. — Tá tentando me matar de vergonha?! Ele me puxou mais forte. — Cala a boca, Helen! — ele rosnou. — Tu tá brincando com coisa que não entende! — Eu entendo sim! — rebati. — Você não manda em mim! Ele riu sem humor. — Eu mando em tudo que é meu. — Eu não sou sua! — É sim. — ele se inclinou até meu ouvido. — E tu vai aprender isso hoje. Ele me arrastou pra fora do baile. Me jogou dentro do carro. Entrou logo depois, batendo a porta com força. O silêncio aqui dentro era mais pesado que qualquer grito. Eu sentia o corpo dele tenso ao meu lado. A respiração irregular. O cheiro de raiva, álcool e algo quente demais pra ser só ódio. — Você quase matou um cara por minha causa! — eu disse. — Ele tocou no que é meu. — EU NÃO SOU SUA COISA! Ele virou o rosto devagar pra mim. Os olhos dele estavam escuros. Perigosos. Famintos. — A partir dessa noite, tu é. Meu estômago revirou. — Você tá doente. Ele riu baixo. — Tu também tá, Helen. — a mão dele subiu devagar pela minha coxa, parando um centímetro antes do limite. — Tu provocou. Tu dançou. Tu bebeu. Tu quis me ver surtar. Engoli em seco. — E você surtou. — E vou surtar mais ainda se tu continuar fingindo que não sente. — Eu sinto ódio . — Mente. Ele se aproximou mais . O ar ficou curto. Meu corpo traiu minha cabeça . Meu coração batia rápido demais . — Tu é minha mulher agora. — ele murmurou. — Não é pedido. É decreto . Fechei os olhos por um segundo . Eu sabia . Sabia que tinha acabado de atravessar uma linha sem volta . Ele não pediu. Ele decretou .
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD