Capítulo 7

1149 Words
Capítulo 7 CORVO NARRANDO Eu não lembro o caminho inteiro de volta pra casa. Só lembro do barulho da música ficando longe, da porta do carro batendo forte demais, do motor rugindo enquanto eu subia as ruas estreitas do morro como se estivesse fugindo de um incêndio que eu mesmo tinha provocado. Helen ia muda ao meu lado. Não porque estivesse calma. Mas porque quando uma pessoa fica quieta demais é aí que mora o perigo. As mãos dela estavam fechadas em punhos no colo. O corpo rígido. O olhar cravado na janela como se preferisse encarar o escuro da favela inteira do que olhar pra mim. E isso me incomodava mais do que qualquer xingamento. Eu tava com raiva. Não dela. De mim. Do cara que tinha quase perdido o controle em público. Do chefe que tinha batido num homem alheio por ciúme. Do homem que tinha sentido vontade de matar e de beijar ao mesmo tempo. Quando chegamos, eu estacionei de qualquer jeito. Ela saiu do carro antes mesmo de eu desligar o motor. Subiu as escadas rápido, os saltos batendo forte no chão, como se quisesse me desafiar até no som. Eu fui atrás. Vi quando ela entrou no quarto e tentou bater a porta na minha cara. Tentou. Porque eu segurei a maçaneta antes. Empurrei a porta com força e entrei. — SOME DO MEU QUARTO! — ela gritou. Fechei a porta atrás de mim com calma demais. Aquele tipo de calma que só vem antes de uma explosão. — Aqui não tem teu quarto. — eu disse baixo. — Tudo nessa casa é meu. Ela riu. Um riso sem humor. — Claro. O rei do morro, dono de tudo. Até de gente agora? — Até de você. Ela veio pra cima de mim. — EU NÃO SOU SUA PRISIONEIRA DE ESTIMAÇÃO! — É sim. — eu respondi. — E já passou da hora de tu entender isso. Ela me empurrou no peito. Fraco. Mas cheio de ódio. — Você é um doente, Corvo! Isso acendeu alguma coisa errada dentro de mim. Cheguei perto. Devagar. Controlado. — Presta atenção no que eu vou te falar agora. Porque eu não vou repetir. Ela ergueu o queixo. Desafiadora. Corajosa demais pra própria segurança. — Regra número um: tu não sai dessa casa sozinha. — Vai pro infernö. — Regra número dois: tu não olha pra outro homem. — Você não manda em... — MANDO SIM. — minha voz subiu, cortando a dela. — Porque qualquer um que eu achar que tá te olhando diferente morre. Ela empalideceu por um segundo. Mas não recuou. — Regra número três: tu não me trai. Ela soltou uma gargalhada nervosa. — TRAIR? Você acabou de dizer que eu sou sua prisioneira, não sua mulher! Cheguei mais perto. Agora a um passo dela. — E regra número quatro… — abaixei a voz — …eu não vou ser fiel. Ela me olhou como se eu tivesse dado um tapa. — Como é que é? — Tu ouviu. — eu disse. — Tu não tem direito nenhum de reclamar de quem eu como, de quem eu beijo, de quem eu levo pra minha cama. — SEU HIPÓCRITA! — ela gritou. — Você quer me prender, controlar minha vida inteira, mas você pode fazer o que quiser?! — Posso. — Eu te odeio. — Ótimo. Ela respirava rápido. O peito subindo e descendo com força. Os olhos brilhando de raiva e alguma coisa que eu não queria nomear. — Isso tudo é culpa sua! — ela cuspiu. — Não. Cheguei mais perto ainda. — Isso tudo é culpa do teu pai. Ela congelou. — Não fala dele. — Falo sim. — eu rosnei. — Foi ele que mexeu onde não devia. Foi ele que atravessou território. Foi ele que quis bancar o herói. Ela veio pra cima de mim de novo. Me bateu no peito. — VOCÊ SEQUESTRÄR UMA PESSOA NÃO TE FAZ CERTO! Segurei os pulsos dela antes que ela continuasse. Forte. Mas sem machucar. — Se tu quer sentir raiva sente dele. — eu disse. — Porque se ele não tivesse começado essa guerra, tu tava agora na tua casa, com tua vida de princesa. Ela me encarou. Os olhos marejados. Mas cheios de fogo. — Eu prefiro morrer do que viver presa em você. Isso bateu fundo. Sorri de canto. Um sorriso sem alegria nenhuma. — Morrer é fácil, Helen. Soltei um dos pulsos e passei a mão devagar pelo rosto dela, forçando-a a me olhar. — Difícil é viver. — Principalmente presa em mim. Ela cuspiu no chão entre nós. — Eu te odeio. Eu te odeio tanto que às vezes tenho vontade de te matar dormindo. Ri baixo. — Já pensei nisso também. Ela tentou se soltar de novo. — ME SOLTA! — Cala a boca. Ela me xingou. Me chamou de tudo que você pode imaginar. Covarde. Assassino. Monstro. Demôniö. Cada palavra era como gasolina no fogo. Até que ela tentou me empurrar com força de verdade. E aí… Aí eu perdi o resto de controle que ainda tinha. Segurei ela pelos braços e a empurrei contra a parede. O impacto fez ela ofegar. Antes que ela pudesse falar mais qualquer coisa… Eu beijei. Não foi um beijo bonito. Não foi beijo de filme. Foi violento. Foi raivoso. Foi como se eu estivesse tentando calar tudo que ela dizia com a boca. Ela tentou virar o rosto no começo. Tentou me empurrar. Me bater. Mas eu segurei o rosto dela com uma mão e continuei. Com fome. Com ódio. Com desejo. Senti quando o corpo dela começou a ceder. Quando a respiração mudou. Quando, sem perceber… Ela retribuiu. Pouco. Quase nada. Mas o suficiente pra me enlouquecer. O gosto dela era quente. Doce. Perigoso. Minha mão escorregou pra cintura dela. O corpo dela tremeu. E por um segundo… Um único segundo… Eu quase esqueci quem eu era. Quase esqueci a guerra. O pai dela. O morro. O sangue. Quase... Mas eu não podia. Me afastei de repente. Ofegante. Com raiva de mim mesmo. Ela ficou me olhando, confusa, respirando rápido, os lábios vermelhos, inchados. — Cuidado… — eu murmurei. Ela engoliu em seco. — Com o quê? Aproximei meu rosto do dela, sem tocar. — Pra não se apaixonar por mim. Ela me empurrou com força dessa vez. — VAI SE FÖDER, CORVO! Sorri. Agora de verdade. — Dorme bem, Helen. Abri a porta. Antes de sair, olhei pra ela mais uma vez. Sozinha no meio do quarto. Bonita. Furiosa. Perigosa. — Amanhã tu vai começar a aprender — eu disse baixo — o que significa ser minha. Fechei a porta atrás de mim. E só quando fiquei sozinho no corredor… Eu percebi. Minhas mãos ainda estavam tremendo. E pela primeira vez em muitos anos… Eu estava com medo. Não dela. Mas do que eu estava começando a sentir.
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