Capítulo 8

912 Words
Capítulo 8 CORVO NARRANDO Eu fechei a porta do quarto atrás de mim com mais força do que precisava. Não porque estivesse com raiva dela. Mentira. Era exatamente por isso. Desci as escadas devagar, sentindo o peso dessa casa cair em cima de mim. A música do baile ainda zunia distante na minha cabeça, misturada com a imagem dela dançando, provocando, sorrindo como se não estivesse com uma arma apontada pra vida. A sala estava vazia. Silenciosa demais. Peguei a caixinha de metal em cima da mesa, abri, enrolei o baseadö com mãos que ainda tremiam um pouco. Acendi. Traguei fundo. A fumaça queimou a garganta. Boa. Eu precisava sentir alguma coisa que não fosse esse nó no peito. Me joguei no sofá, encarando o teto. A imagem dela vinha sem pedir licença. A boca dela. O jeito que me xingava. O jeito que retribuiu o beijo sem querer. — Merdä… — murmurei. Passei a mão no rosto. Isso não podia continuar desse jeito. Helen não era mulher pra eu perder controle. Ela era inimiga. Arma. Vingança. E eu tava começando a olhar pra ela como outra coisa. Traguei de novo. Fumaça encheu o pulmão, saiu devagar. Fiquei aqui um tempo que nem sei medir. Até uma certeza bater forte dentro de mim. Hoje ela não ia dormir sozinha. Hoje eu ia acabar de vez com essa ilusão de que ela ainda tinha escolha. Apaguei o baseadö no cinzeiro, levantei. Subi as escadas decidido. Quando abri a porta do quarto dela, ela tava sentada na cama, de braços cruzados, me olhando como se já soubesse. — O que você quer agora? — ela perguntou fria. — Levanta. — Não. Sorri sem humor. — Não te dei opção. — Eu não vou dormir com você. — Vai sim. Ela levantou da cama de um pulo. — Nem morta. Cheguei perto. — Então escolhe: ou vem andando ou eu te levo. Ela me encarou por alguns segundos. O orgulho brigando com o medo dentro dos olhos dela. No fim, passou por mim sem dizer nada. Caminhou até o meu quarto. Entrou. Eu fui atrás. Fechei a porta. A cama enorme no meio do quarto parecia um campo de guerra. Ela ficou parada perto da janela. — Eu não vou te dar nada. — ela disse rápido. — Não encosta em mim. — Fica tranquila. — eu respondi. — Hoje não. Ela franziu a testa. — Então por que me trouxe aqui? — Pra você entender onde é o teu lugar. Ela riu nervosa. — Na sua cama? Que romântico. — Na minha vigilância. Tirei a camisa devagar, sem tirar os olhos dela. Não por sedução. Por domínio. Ela desviou o olhar. — Você é nojento. — E você vai dormir aqui mesmo assim. Deitei de um lado da cama. Bati com a mão no colchão do outro. — Deita. Ela hesitou. Depois deitou, dura, virada pra beirada, o mais longe possível de mim. Ficamos em silêncio. Um silêncio pesado. Eu ouvia a respiração dela. Rápida demais pra alguém tentando fingir calma. — Satisfeito? — ela murmurou. — Nem um pouco. Ela virou o rosto. — Por que você faz isso comigo? A pergunta me pegou de surpresa. Demorei a responder. — Porque eu posso. Ela fechou os olhos. — Você não é feliz sabia? Sorri no escuro. — Felicidade morreu junto com minha mulher. Ela ficou quieta. Alguns minutos depois, ela se mexeu. — Eu odeio você. — Eu sei. — Você vai queimar no infernö. — Provável. O silêncio voltou. E dentro dele algo começou a me sufocar. Levantei de repente. Ela abriu os olhos assustada. — Onde você vai? Peguei a camisa. — Relaxar. — Como assim? Olhei pra ela com uma calma crüel. — Do jeito que você não quer. Ela empalideceu. — Você vai… — Vou. Ela engoliu em seco. — Faz isso só pra me provocar? Cheguei perto da cama. Inclinei o rosto até ficar a poucos centímetros do dela. — Faço isso porque você me dá estresse demais. Beijei a testa dela de leve. Não carinho. Marca. — Dorme. Saí do quarto. Fechei a porta. E fui direto pra casa da Bianca. Ela abriu sorrindo. Bonita. Perfume doce. Corpo fácil. Não perguntou nada. Me levou pro quarto. E eu fiz o que sempre fazia quando queria esquecer. Mas nessa noite… Nada funcionava direito. Eu via Helen no teto. No espelho. No gosto da boca de outra mulher. Terminei rápido. Frio. Sem alma. Saí sem falar nada. Voltei pra casa com raiva. Quando abri a porta do meu quarto… Ela tava acordada. Sentada na cama. De braços em volta dos joelhos. Me olhando como se já soubesse. — Se divertiu? — ela perguntou sem emoção. — Não é da tua conta. — Claro que é. — ela respondeu. — Eu sou sua propriedade, lembra? Isso doeu mais do que devia. — Dorme. — Não consegui. Tirei a roupa em silêncio. Deitei longe dela. Virado pro outro lado. Nenhum de nós dormiu. Algum tempo depois… Meu celular vibrou. Mensagem do Sapo. — Movimento estranho em SP. PCC juntando homem. Parece resgate. Sorri no escuro. Um sorriso lento. Perigoso. Virei o rosto pra Helen. Ela já tinha fechado os olhos de novo. — Vai começar… — murmurei baixo. A guerra que eu esperei por um ano inteiro. Se eles viessem buscar ela… Passei a mão devagar pelo lençol, sentindo a presença dela aqui. Iam ter que passar por cima de mim...
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