Eu me chamo Luan Silva, morador do complexo do Alemão, desde que me entendo por gente. Eu moro com o seu Nestor, ele é um senhor que me tirou das ruas, por aqui a gente enfrenta muitas dificuldades, as vezes temos que guardar o almoço pra comer na janta, se é que me entendem. Eu tenho dez anos, vendo água no sinal, tá com uns dias que não vou, pois o seu Nestor tá doente e tem ficado em casa.
Um dia eu vou encontrar com a minha mãe e poder mostrar a ela que dei a volta por cima. Não faço questão de ter ela na minha vida, já que a mesma me abandonou. Não sei por qual motivo, nem me interessa saber, o que me interessa é sair dessa miséria que eu vivo.
Tia Helena fala que não posso andar com os manos da boca por que é perigoso, mas eu sinto que lá é o meu lugar. Quando pego na pistola deles, sinto algo diferenciado. um dia eu vou ser linha de frente junto com eles. Sei que não adianta eu ter sonhos de doutor e esses bagulho, minha realidade não condiz com isso, então eu vou focar na minha caminhada do crime. Posso até ter pouca idade e não entender muito bem esses lance, mas uma coisa é certa; um dia vou prestar conta com cada um que me humilhou até hoje, vou também ser respeitado e considerado, vocês podem anotar isso que eu tô falando.
A Malu é uma menina muito boazinha e jamais vai aceitar isso, mas eu vou sempre proteger ela. Ela é a única que nunca me chamou de moleque de rua, ou de outros apelidos que esses arrom.bados colocaram em mim.
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Tava saindo do barraco pra ir pra escadaria ficar com os cara da boca quando ela me viu e correu até mim.
Malu: Oi Luan. - Sorriu meiga.
Luan: Oi.
Malu: Você vai pra onde ?
Luan: Vou na venda do seu Zé. - Falei rápido.
Malu: Posso ir com você ?
Luan: Melhor não, fica aí que já eu venho.
Malu: Tá bom vou ficar esperando.
Eu continuei minha caminhada, não gosto de mentir pra ela, mas se eu contasse pra onde estava indo, com certeza ela iria dar com a língua nos dentes e falar pra tia.
Cheguei na escadaria e tinha três manos lá fumando. Fiz toque com eles e o Yuri que estava mais lá em cima me chamou.
Yuri: Vem aqui moleque.
Luan: Pode falar.
Yuri: Fala direito comigo rapá. - Deu um t**a na minha cabeça.
Luan: Qual foi parceiro ?
Yuri: Vai ali em cima e pede pro Mumu minha arma.
Luan: Já é.
Subi até a casa que eles ficam, lá é um lugar sujo, tem um cheiro estranho e várias pessoas direto. Entrei e foi como se eles não tivessem nem me visto, uns tavam embalando drogas, outros com mulheres. Fiquei procurando o Mumu até que vi ele na cozinha com um prato e um cartão na mão.
Luan: Iae Mumu, firmeza ?
Mumu: Quem te deixou entrar aqui menor ?
Luan: O Yuri pediu pra eu vir pegar a arma dele aqui.
Mumu: Tá ali em cima da geladeira.
Luan: Valeu mano.
Peguei a pistola e coloquei na cintura, porr* eu tiro onda com essa no pente. Tava andando até devagar pra curtir mais o momento.
Yuri: Rápido moleque, tu é folgado em neguim. - Entreguei sua arma.
Luan: Toma.
Tomas: Bora circulando, quero criança aqui não.
Yuri: Calmô ladrão, o menor tá fazendo um corre pra mim. - Falou sério.
Luan: O que agora ?
Yuri: Pega esse dinheiro e vai comprar um salgado e um refri pra mim.
Luan: Tá.
Yuri: Pega mais esse e compra pra ti também.
Luan: Valeu.
Tomas: Sem alarde, vai menor. - Falou em tom de bronca.
Já estava me afastando quando ouvi o Yuri falar ...
Yuri: Deixa o moleque sossegado, menor criado aqui dentro, no sangue dele corre o crime. Criado sem mãe e nem pai, daqui uns anos vai tá comandando isso aqui tudo. Fica ligado. - Imediatamente abri um sorriso largo ao ouvir aquilo.
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Comprei o salgado dele e fiz a entrega, depois voltei pra casa. Da esquina eu vi a Maria Luísa sentada na calçada passando um graveto no chão, como se estivesse desenhando.
Luan: Você ainda tá aí ?
Malu: Eu falei que ficaria te esperando.
Luan: Pega. - Tirei metade do salgado e dei a ela.
Malu: Você demorou Luan.
Luan: Tive que fazer um negócio.
Malu: Luan promete que vai sempre ser meu amigo ?
Luan: Nunca vou deixar de te proteger Luísa.
Passei o restante da tarde brincando com a Malu na rua.