Malu

1101 Words
Meados de 2010 ... Oi eu me chamo Maria Luísa Furtado Silva, tenho oito anos e moro no complexo do Alemão. Moro aqui com minha mãe, meu padrasto e minha tia Hérica. Minha mãe se chama Maria Helena, ela é costureira e trabalha em uma fábrica. Quando eu crescer quero ser cantora. Minha mãe sempre fala que minha voz é a mais linda que ela já ouviu, mas sei que todas as mães são assim. . . . . . . . . . . . Eu estava na rua brincando com minhas amigas quando ouço o Luan me chamar do outro lado da rua. Olhei pro lado e ele estava encostado na parede, passou a mão em seu cabelo preto e sorriu em seguida para mim. O Luan é meu amigo, ele mora aqui no complexo também, não tem família. Mãe dele abandonou ele quando ainda era um bebezinho. Corri até onde ele estava pra falar com ele. Malu: Oi Luan. - Falei um pouco ofegante. Luan: Malu você quer tomar um sorvete ? Malu: Eu não tenho dinheiro. Luan: Não tem problema, eu pago. Malu: Onde você arrumou dinheiro se não está mais vendendo água no sinal ? - Olhei seria pra ele. Luan: Eu busquei as quentinhas dos meninos da boca. Malu: Você sabe que não pode, minha mãe sempre te fala isso e você não aprende. - Balancei a cabeça negativamente com a mão na testa. Luan: Não fiz nada de r**m. - Argumentou revirando os olhos. Malu: Eu não quero sorvete. Luan: Você que sabe, eu vou lá. - Deu de ombros. Malu: Tchau. Voltei pra onde minhas amigas estavam. Minha mãe sempre fala que não é pra gente andar com o pessoal da boca, por que são perigosos, apesar do namorado da tia Hérica viver por lá. Minha tia Hérica tem quinze anos, minha mãe trouxe ela quando a vovó morreu, ela é bem bonita mas meio doidinha. Um tempo depois de brincar com as meninas minha mãe me chama pra entrar pra casa, já estava escurecendo. Helena: Vem comer Malu. - Gritou. Malu: Oi mamãe. - Abracei ela. Helena: Já está escurecendo, vá tomar banho e depois lanchar. Malu: Mãe hoje aconteceu uma coisa que acho que a senhora não vai gostar de saber. - Falei entrando pra casa. Helena: O que foi ? Malu: O Luan ganhou dinheiro do pessoal do crime. Helena: Eu não acredito que o Luan tá metido com esse povo, esse menino não me ouve mesmo. Malu: Tô preocupada com ele. Helena: Vou conversar com ele meu amor. Malu: A mamãe dele um dia vai voltar pra buscar ele, aí ele não vai mais precisar fazer essas coisas, nem faltar aula pra ir vender água. Helena: Eu queria tanto que isso fosse verdade. O Luan é um menino tão esforçado, não merecia esse destino. Malu: Calma mamãe ele vai ser cantor igual eu. - Ela riu. Helena: Pois vá pro banheiro sujinha. - fez cosquinha em mim. . . . . . . . . . . . . . . Helena narrando: Fiquei tão pensativa nisso que a Malu me contou, eu queria tanto poder ajudar mais o Luan, mas aqui em casa a situação não é muito boa, ajudo como posso. Sempre está por aqui com a Malu, vejo tanto potencial nesse menino, super inteligente e generoso. O pouco que tem, sempre dividi com os mais necessitados. Lembro bem da mãe dele, era uma moça de família nobre aqui do Rio de Janeiro, pai empresário, ela vivia aqui pelo morro atrás dos traficantes, usando drogas e se prestando a papéis horríveis por eles. Quando engravidou não sabia quem era o pai, deixou nascer mesmo só por curiosidade, e quando o garoto completou dois anos jogou nas ruas da favela. Sempre demos suporte a ele, muitos moradores o ajudam, mas na pobreza que enfrentamos é muito difícil ajudar do jeito que deveria. Ele mora com seu Nestor, um senhor que vende água e balas no sinal, em consequência o menino o ajuda e acaba se prejudicando, falta aulas e perde muito de sua infância. Sempre converso com ele para não entrar nos caminhos errados da vida, considero muito essa criança. Ele e minha filha sempre se deram muito bem. Ele é dois anos mais velho que a Malu. A vida por aqui nem sempre é fácil, eu sou costureira e trabalho em uma fábrica de jeans. Saiu de casa cinco horas da manhã pra pegar o primeiro ônibus, são dois até chegar lá, passo o dia na fábrica e às vezes quando chego minha pequena já está dormindo. O pai da Maria Luísa me abandonou na gravidez, dizia que era muito novo pra ser pai. Veja lá ele com quinze anos e eu com treze, mas fui forte e tive minha filha mesmo assim. Depois que encontrei o Regis ele tem me ajudado um pouco. Peço que ele não se meta na criação da Malu pois não é pai dela. Ele me ajuda nas contas da casa e é um homem honesto, ele é pedreiro e trabalha fazendo b***s. A gente mora em um barraco pequeno, no inverno é que as coisas pioram por aqui, nosso barraco tem muitos remendos e boa parte é madeira, no inverno o bicho pega. Queria dar uma vida melhor pra minha pequena, mas infelizmente não tive como continuar os estudos depois que ela nasceu, então um bom salário é um sonho distante. Minha irmã Hérica mora com a gente a pouco mais de três anos, nossa mãe faleceu e eu não podia deixar ela sozinha. É uma típica adolescente sem muito juízo, mas me ajuda tanto a cuidar da Maria Luísa. . . . . . . . . . . . . . Maria Luísa saiu do banho e eu coloquei seu lanche em cima da mesa pra ela comer. Helena: Come tudo. Malu: Tá certo mamãe. Ela sentou e ficou lá comendo. Fiquei na janela observando as crianças na rua e avistei o Luan passar. Helena: Ei. - Gritei. Luan: Oi tia ? Helena: Vem aqui. Ele abriu o portão e entrou. Helena: Que história é essa de ganhar dinheiro daquele pessoal ? Luan: Tu é muito fofoqueira. - Olhou bravo pra Malu. Malu: Não sabia que era segredo. Helena: Eu já falei pra vocês dois não se meterem com esse povo. Luan: Eu só comprei as quentinha pra eles comer. - Olhou pro chão. Helena: Tá com fome ? Luan: Sempre. Helena: Pois senta ali que vou preparar um pão na chapa pra você comer. Luan: Eba. - Sorriu.
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