Já fazia uma semana desde o encontro dos dois, Jamile não tinha permissão de sair do quarto se ele estivesse em casa. Bruno, mudo á escoltava para fora, Jamile fazia o que tinha de fazer e voltava. Pelo menos conseguiu livros, e passava o tempo folheando. Aliás Matheo era um amante de romances.
O sol estava se pondo de novo, logo ela receberia o jantar, e bem tarde da noite ouviria os passos dele caminhando até o quarto. Bruno havia ficado mudo, talvez enojado com os atos dela, ou cansado tanto quanto ela de tudo aquilo. Jamile limpou as lágrimas com a manga da blusa, colocou as mãos nas grades e imaginou o mundo sem ela. Ananda pirando, a polícia vasculhando tudo. Mexendo nas coisas da mãe dela, e por fim não encontrando nada. A essa hora ela já perdera o apartamento, que estava por um fio.
Alguém estava abrindo a porta. Ela se sentiu alerta. Se sentia nervosa, sei lá, não podia ser saudade, ele era um mafioso, e ela tinha plena consciência disso.
- Jamile, hoje teremos um leilão, quero que se vista, - Matheo jogou duas sacolas grandes em cima da cama. - Aí tem tudo o que precisa.
- Eu não quero ir. - Ela deu um passo à frente.
Matheo a olhou nos olhos, estava sério, na verdade, sem expressão alguma.
- Você não tem que querer ou não. - Ele falou num tom ríspido.
- Mas o que fiz? - Ela deu mais um passo.
- Sua amiga não procurará mais por você. - Ele virou de costas e caminhou até a porta. E antes de fechar falou, - Você só fala quando eu mandar....
Fechou a porta e caminhou para longe. Jamile escorregou para o chão se sentia cada vez mais perdida e quebrada.,
Onde eu estava com a mente? Me envolver achando que ia poder ser livre. Ou... Ou que talvez ele a libertasse.
Bruno se moveu impaciente do outro lado da porta. Ela ouviu ele destravando o próprio celular, e digitando alguma coisa. Logo ela entendeu.
- Depois de uma semana de buscas intensas, foi encontrado o corpo de Jamile Alencar, a jovem que desapareceu após um encontro com um homem misterioso. O corpo da enfermeira foi encontrado carbonizado dentro de um carro, no matagal próximo à rodovia que dá acesso à saída da cidade.
Era o máximo para ela, Acabou...
*****
Uma semana atrás...
- Papá.
- Figlio..
Matheo havia recebido uma mensagem do pai, precisava vê-lo o quanto antes.
O pai estava sentado na poltrona, com a pernas longas cruzadas e fumava um charuto, Matheo viu a ponta da tatuagem dele, um par de asas, velhas e enrugadas, e um coração tão frio como o dele.
- Seu irmão Fabrício foi preso. - Ele olhava para o charuto enquanto falava.
- Você sabia que ele era muito novo, não sabia? - Matheo se revirou na outra poltrona.
Fabricio havia completado a maioridade, e havia sido trazido da Itália, para dar continuidade ao trabalho do pai, e ser o subchefe de Matheo, já que Andreas era um peso morto.
- Podia ter deixado a mercadoria nas mãos do Andreas. - Ele estava ficando irritado.
O pai, ficou calado, deixou o charuto de lado, esticou a mão e logo uma moça bem vestida, apareceu, o velho falou alguma coisa no ouvido dela, a garota saiu da sala, e logo depois voltou com um copo com bebida pela metade.
- Andreas acabou com a família quando se casou com a médica, irmã do juiz, agora ele está marcado. Pelo menos até eu matar aquele sujeito.
- Posso tentar tirar o Fabricio da cadeia.
A resposta ficou no ar.
- Daqui a uma semana faremos um leilão. - o velho disse. - Falando nisso, como está a sua coelhinha?
Coelhinha... Ele sabia o significado disso.
- Porque? - Ele perguntou ao pai.
- Escuta, me ofereceram uma boa grana por ela. De qualquer forma a sua coelhinha está famosa, e logo viram atrás da gente. Ou você a vende, ou executa ela. Ou tem uma terceira opção.
- Qual é? - Matheo mantinha os olhos no pai. Por algum motivo estava com o coração batendo forte.
- Ou executa o Bruno. Ele está marcado. - O velho sentou ereto. - A menos que esteja apaixonado por ela. - Ele soltou uma risada roca. - Você não seria burro. Ainda mais depois de herdar todos os nossos negócios. De qualquer forma, estou indo para Inglaterra na próxima semana.
- Quem te ofereceu uma oferta? - Matheo estava impaciente.
- Los Hermanos...
*******
Tempos atuais
- Senhor. - Bruno bateu de leve na porta. Os convidados estão chegando.
Matheo havia escolhido para aquela noite, um terno preto feito por medida, e camisa preta. Estava combinando com o humor dele. Fechou o relógio e mandou que Bruno chamasse Jamile. Bruno, concordou virou as costas e saiu do quarto.
Jamile estava acabando de colocar os brincos quando Bruno abriu a porta. Ele mesmo ficou um tempo olhando para ela. Jamile foi até o espelho e se olhou, tinha feito um bom trabalho, soltou o cabelo longo e fez cachos nas pontas. Mas o vestido longo vermelho de costas nuas e alças finas era lindo, somado a f***a que ia até a metade da coxa. Ela havia caprichado na maquiagem que encontrara no banheiro, e estava satisfeita por fora, por dentro morria aos poucos.
Seguiu Bruno para fora, Matheo estava esperando no topo da escada, ela notou um brilho estranho nos olhos azuis dele. Jamile se aproximou de olhos baixos, a garganta apertada.
- Vamos descer. Você sorri para todos, só fala se eu mandar. Ouviu. - Ele buscou os olhos dela. - Fica perto de mim, e de forma alguma faça cara de espanto.
Era a vez dela ficar calada. Matheo pegou no braço dela com um tranco e desceu as escadas.
A casa estava toda iluminada, com empregados de um buffet andando para todo lado, e todo tipo de homens andando, fumando ou bebendo. O leilão, ela notou, era de mulheres, escravas, tão drogadas que pareciam bonecas. Ela apertou o braço do Matheo, e se ele notou? Não fez menção.
- Você vem comigo. - Ele falou para Jamile.
Matheo andou até um canto na sala enorme, subiu num palco improvisado. E logo as mulheres que ela havia visto pela casa formaram filas e subiram uma a uma.
- Vamos dar início ao leilão...