Prólogo
Prólogo
A única luz acesa no quarto vinha da tela do celular.
O brilho azulado iluminava seu rosto enquanto o resto do ambiente permanecia mergulhado na escuridão. Do lado de fora, a vida continuava barulhenta. Vozes atravessavam as paredes, motos subiam e desciam pelas vielas, portas batiam e risadas ecoavam pela noite.
Ela conhecia aquelas risadas.
Algumas pertenciam a pessoas que já tinham feito questão de lembrá-la, inúmeras vezes, de que ela não se encaixava.
Na vida real, ela aprendera a falar pouco.
A andar de cabeça baixa.
A pensar duas vezes antes de entrar em qualquer lugar.
Aprendera a ignorar comentários, olhares e piadas que fingiam ser brincadeira, mas que sempre encontravam uma maneira de machucar.
Por muito tempo, acreditou nas coisas que diziam sobre ela.
Até descobrir que existia um lugar onde ninguém sabia quem ela era.
A internet.
Ali, ninguém conhecia seu rosto. Ninguém conhecia suas inseguranças. Ninguém sabia quantas vezes ela tinha apagado uma mensagem antes de enviá-la por medo de parecer ridícula.
Ali, ela podia ser qualquer pessoa.
E escolheu ser Lua.
Não havia foto de rosto em seu perfil. Apenas uma paisagem distante, propositalmente desfocada. Nenhuma informação pessoal. Nenhum detalhe que pudesse entregar sua identidade.
Lua não era a garota insegura que existia fora daquela tela.
Lua era atrevida.
Sarcástica.
Mandona.
E, principalmente, não tinha medo de responder.
Foi justamente isso que chamou a atenção de Caveira.
Ele apareceu em sua vida quase por acaso e, desde o primeiro dia, parecia ter transformado a descoberta da identidade dela em uma missão pessoal.
O celular vibrou.
Caveira estava online.
Ela abriu a conversa e encontrou uma mensagem esperando por ela.
Caveira:
Sumiu de novo, Lua?
Ela sorriu.
Antes que pudesse responder, outra mensagem apareceu.
Caveira:
Tá ficando especialista em me deixar falando sozinho.
Lua digitou calmamente.
Lua:
E você tá ficando especialista em reclamar.
Os três pontinhos apareceram imediatamente.
Caveira:
Porque você faz isso de propósito.
Lua:
Faço.
Ele demorou alguns segundos para responder.
Caveira:
Você é impossível.
Lua:
E mesmo assim você sempre volta.
Dessa vez, a resposta demorou mais.
Caveira:
Porque eu ainda quero descobrir quem está por trás dessa tela.
O sorriso dela desapareceu por um instante.
Era sempre assim.
Ele brincava, provocava, fazia perguntas e tentava arrancar dela alguma informação que pudesse revelar sua identidade.
Mas havia uma regra que Lua nunca quebrava.
Ele poderia conhecer suas palavras.
Poderia conhecer suas manias.
Poderia até perceber quando ela estava triste mesmo quando dizia que estava bem.
Mas jamais conheceria seu rosto.
Lua:
Já falei que isso não vai acontecer.
Caveira:
Você fala isso toda vez.
Lua:
Porque você pergunta toda vez.
Caveira:
E um dia você vai cansar de esconder.
Ela encarou a frase durante alguns segundos.
Se ele soubesse...
Se soubesse quem ela realmente era, talvez desaparecesse.
Talvez risse.
Talvez enxergasse nela exatamente aquilo que todos os outros enxergavam.
E era justamente isso que ela não suportaria.
Por isso, Lua precisava daquele espaço.
Aquela conversa tinha que continuar sendo apenas uma conversa.
Aquela amizade precisava permanecer atrás da tela.
Sem encontros.
Sem fotos.
Sem perguntas demais.
Sem realidade.
Ela respirou fundo e respondeu:
Lua:
Não confunda as coisas, Caveira. O que existe entre nós fica aqui. Na internet.
Caveira:
Você fala como se tivesse medo de mim.
Ela soltou uma pequena risada.
Lua:
De você? Não.
Caveira:
Então do quê?
Dessa vez, ela não respondeu imediatamente.
Porque a verdade era simples.
Ela não tinha medo dele.
Tinha medo de que ele descobrisse quem ela era.
Medo de que a pessoa que parecia gostar tanto de Lua não gostasse nem um pouco da garota que existia por trás dela.
Do outro lado da tela, Caveira continuava esperando.
Ele não sabia que, enquanto tentava descobrir o segredo de Lua, ela lutava diariamente para acreditar que alguém poderia gostar dela sem precisar conhecer uma versão inventada.
Para ele, aquilo era um jogo.
Para ela, era um refúgio.
E nenhum dos dois fazia ideia de que, em algum momento, a tela que os mantinha separados deixaria de ser suficiente para esconder a verdade.
Porque Caveira estava decidido a descobrir quem era Lua.
E Lua estava determinada a nunca deixar isso acontecer.