O escritório de Eduardo estava impecavelmente organizado, mas o clima dentro dele era tudo menos tranquilo. Helena e Rafael estavam sentados frente a frente, com Eduardo entre eles, tentando, sem sucesso, manter uma aura de profissionalismo. Na mesa, o contrato aberto parecia um campo de batalha, e cada cláusula era uma nova bomba prestes a explodir.
— Eu não vou aceitar isso — declarou Helena, cruzando os braços e encarando Rafael com olhos faiscantes.
— Não? E o que exatamente você não aceita? — rebateu Rafael, levantando uma sobrancelha, a voz carregada de sarcasmo.
— Essa cláusula ridícula de que precisamos morar juntos. Isso não é um reality show, Rafael.
— E como você sugere que façamos isso parecer real para os investidores e a mídia? — Ele a encarou, desafiador. — Dividindo casas? Você quer que eu diga para eles que somos um casal moderno que vive separado?
Helena bufou, virando-se para Eduardo.
— Isso não faz sentido! Estamos falando de um contrato, não de um casamento de verdade.
— E é exatamente por isso que vocês precisam parecer autênticos — explicou Eduardo com paciência, como se falasse com crianças briguentas.
— Ok, e quem vai decidir onde vamos morar? — Rafael perguntou, um sorriso provocador no rosto.
— Certamente não será no seu apartamento minimalista e frio, cheio de móveis pretos! — Helena retrucou imediatamente, sem perder o tom.
— E eu não vou viver em uma casa onde cada centímetro parece ter saído de um catálogo de revista feminina!
— Ah, claro, porque ter bom gosto é um crime para você, não é?
Eduardo levantou as mãos, pedindo silêncio.
— Calma, vocês dois. Vamos encontrar um meio-termo.
Rafael suspirou, massageando as têmporas.
— Certo, vamos resolver isso depois. O que mais você quer mudar, Helena?
Ela pegou o contrato, deslizando os dedos pelas páginas.
— Essa cláusula aqui. — Apontou para um parágrafo. — Por que precisamos aparecer juntos em eventos toda semana?
— Porque é o que casais fazem, Helena — respondeu Rafael, como se fosse óbvio.
— Não casais de mentira, Rafael.
— Não são só eventos sociais. Alguns são empresariais. Você também vai se beneficiar disso.
Ela revirou os olhos, irritada.
— Beneficiar? Como, exatamente?
— Sua empresa terá visibilidade, você poderá fazer contatos importantes. Quer mais ou está bom?
Helena estreitou os olhos, mas decidiu não responder. Eduardo aproveitou o momento de silêncio para intervir.
— Vocês podem revisar o número de eventos, mas precisam comparecer juntos a pelo menos três por mês.
— Três? — Eles exclamaram em uníssono, como se fosse uma tortura.
— Sim, três. — Eduardo suspirou. — Se vocês querem que isso funcione, precisam ceder um pouco.
Rafael olhou para Helena, um sorriso torto surgindo.
— Ceder não parece ser seu ponto forte.
— E você é um exemplo de flexibilidade?
— Pelo menos eu sei negociar.
— Negociar? Você só sabe impor suas vontades.
— E você só sabe reclamar.
Eduardo bateu levemente na mesa, chamando a atenção deles.
— Vamos focar, por favor?
Helena respirou fundo, tentando recuperar o autocontrole.
— Tudo bem. Vamos para a próxima cláusula.
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Momentos depois
Depois de quase duas horas de discussões intermináveis, Eduardo olhou para os dois, exausto.
— Vocês precisam assinar até amanhã. Sugiro que durmam sobre isso e voltem aqui com as decisões finais.
— Ótimo — Helena se levantou, recolhendo sua bolsa. — E por dormir, eu espero que você sonhe em mudar algumas dessas cláusulas, Rafael.
— Não conte com isso — respondeu ele, inclinando-se na cadeira com um sorriso arrogante.
Helena saiu do escritório, e Eduardo olhou para Rafael, balançando a cabeça.
— Você gosta de provocar, não é?
— Não é minha culpa se ela facilita tanto.
— Rafael, lembre-se: isso é um contrato, não uma batalha.
Rafael riu, mas no fundo sabia que aquela dinâmica explosiva tornaria tudo muito mais complicado.
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Naquela noite
Helena estava em casa, desabafando com Amanda enquanto tomava um copo de vinho.
— Ele é insuportável! Arrogante, mandão e... e...
— Bonito — completou Amanda, com um sorriso travesso.
— O quê? Não! Não é isso.
— Claro que não, chefe. — Amanda fingiu concordar, mas o sorriso não saiu de seu rosto.
Helena bufou, frustrada.
— Isso vai ser um inferno.
Enquanto isso, Rafael estava no bar com Gustavo, rindo da situação.
— Cara, ela vai te enlouquecer.
— Já está conseguindo.
Ambos riram, mas Rafael sabia que a relação explosiva entre ele e Helena ainda renderia muitos desafios — e algumas surpresas.
Na manhã seguinte, Rafael chegou ao escritório de Eduardo com o mesmo ar confiante de sempre. No entanto, quando viu Helena já sentada, folheando o contrato, ele sentiu que o dia seria mais longo do que imaginava.
— Decidiu desistir? — ele provocou, largando a maleta em cima da mesa e sentando-se de frente para ela.
Helena levantou os olhos, desafiadora.
— Decidi que não vou deixar você levar a melhor.
Eduardo suspirou ao entrar na sala e perceber que a energia entre os dois era tão intensa quanto no dia anterior.
— Bom dia. Antes que comecem, gostaria de lembrar que estamos aqui para chegar a um consenso.
Helena apontou para uma das cláusulas no contrato e começou:
— Sobre a cláusula de convivência. Três eventos por mês, ok. Mas quero um limite de tempo nesses eventos. Não vou ficar à mercê do senhor Rafael Montenegro até altas horas.
Rafael riu baixo, cruzando os braços.
— O que foi tão engraçado? — ela perguntou, estreitando os olhos.
— Nada, só estava imaginando como vou explicar a sua "hora de recolher" para os investidores.
Helena ignorou a provocação e continuou:
— Quero estipular no contrato: cada evento terá um máximo de quatro horas.
Eduardo olhou para Rafael, esperando sua reação.
— Tudo bem. Quatro horas — ele concordou, surpreendendo-a.
Helena arqueou as sobrancelhas.
— Você concorda?
— Não sou tão inflexível quanto você pensa.
Ela revirou os olhos, mas por dentro estava levemente aliviada.
Eduardo aproveitou a calmaria momentânea para passar para outro ponto.
— E sobre a cláusula de moradia? Decidiram algo?
— Sim. — Helena tomou a dianteira. — Vamos morar no meu apartamento.
— Nem pensar — rebateu Rafael. — O seu apartamento é pequeno demais. Precisamos de algo mais espaçoso e apropriado para receber visitas, caso necessário.
— Espaçoso demais é o seu ego. Meu apartamento é perfeitamente funcional.
— Funcional para quem? Para anões?
— Rafael! — Eduardo o repreendeu, enquanto Helena o fulminava com o olhar.
— Escutem, há um jeito simples de resolver isso — interveio Eduardo. — Escolham um imóvel neutro, algo que seja confortável para os dois.
Rafael concordou, mesmo a contragosto.
— Ok. Podemos procurar algo juntos.
— Excelente. Vamos seguir para o próximo ponto — disse Eduardo, claramente aliviado por evitar uma guerra.
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No fim da reunião
Após horas discutindo cláusulas e ajustando detalhes, Helena e Rafael finalmente chegaram a um acordo preliminar. Eduardo revisaria os ajustes e prepararia a versão final para ser assinada no dia seguinte.
Ao saírem do prédio, a tensão entre eles ainda era palpável.
— Não pense que isso será fácil, Rafael — Helena disse, parando na calçada e o encarando.
— Eu não esperava que fosse. Mas você deveria saber que eu sempre cumpro o que prometo.
Ela não respondeu, apenas ergueu o queixo e entrou no carro que a aguardava. Rafael observou o veículo partir, um sorriso leve surgindo em seus lábios.
— Vai ser interessante.
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Naquela noite
Helena voltou para casa exausta. Ao abrir a porta, foi recebida por Márcia, que a observou com um olhar inquisitivo.
— E então? Conseguiu resolver alguma coisa?
— Sim... mais ou menos — respondeu Helena, jogando a bolsa no sofá e tirando os sapatos.
— Espero que saiba o que está fazendo, Helena. Essa empresa é o legado do seu pai.
Helena suspirou profundamente.
— Eu sei, mãe. Não precisa me lembrar disso o tempo todo.
— Só estou dizendo porque quero que você tenha sucesso.
Helena deu um sorriso cansado.
— Obrigada, mãe.
Enquanto isso, Rafael estava em seu apartamento, revisando mentalmente as cláusulas que haviam acordado. Ele sabia que a convivência com Helena seria um desafio, mas parte dele estava curioso para ver onde aquilo tudo levaria.