Negociação Explosiva

1384 Words
O escritório de Eduardo estava impecavelmente organizado, mas o clima dentro dele era tudo menos tranquilo. Helena e Rafael estavam sentados frente a frente, com Eduardo entre eles, tentando, sem sucesso, manter uma aura de profissionalismo. Na mesa, o contrato aberto parecia um campo de batalha, e cada cláusula era uma nova bomba prestes a explodir. — Eu não vou aceitar isso — declarou Helena, cruzando os braços e encarando Rafael com olhos faiscantes. — Não? E o que exatamente você não aceita? — rebateu Rafael, levantando uma sobrancelha, a voz carregada de sarcasmo. — Essa cláusula ridícula de que precisamos morar juntos. Isso não é um reality show, Rafael. — E como você sugere que façamos isso parecer real para os investidores e a mídia? — Ele a encarou, desafiador. — Dividindo casas? Você quer que eu diga para eles que somos um casal moderno que vive separado? Helena bufou, virando-se para Eduardo. — Isso não faz sentido! Estamos falando de um contrato, não de um casamento de verdade. — E é exatamente por isso que vocês precisam parecer autênticos — explicou Eduardo com paciência, como se falasse com crianças briguentas. — Ok, e quem vai decidir onde vamos morar? — Rafael perguntou, um sorriso provocador no rosto. — Certamente não será no seu apartamento minimalista e frio, cheio de móveis pretos! — Helena retrucou imediatamente, sem perder o tom. — E eu não vou viver em uma casa onde cada centímetro parece ter saído de um catálogo de revista feminina! — Ah, claro, porque ter bom gosto é um crime para você, não é? Eduardo levantou as mãos, pedindo silêncio. — Calma, vocês dois. Vamos encontrar um meio-termo. Rafael suspirou, massageando as têmporas. — Certo, vamos resolver isso depois. O que mais você quer mudar, Helena? Ela pegou o contrato, deslizando os dedos pelas páginas. — Essa cláusula aqui. — Apontou para um parágrafo. — Por que precisamos aparecer juntos em eventos toda semana? — Porque é o que casais fazem, Helena — respondeu Rafael, como se fosse óbvio. — Não casais de mentira, Rafael. — Não são só eventos sociais. Alguns são empresariais. Você também vai se beneficiar disso. Ela revirou os olhos, irritada. — Beneficiar? Como, exatamente? — Sua empresa terá visibilidade, você poderá fazer contatos importantes. Quer mais ou está bom? Helena estreitou os olhos, mas decidiu não responder. Eduardo aproveitou o momento de silêncio para intervir. — Vocês podem revisar o número de eventos, mas precisam comparecer juntos a pelo menos três por mês. — Três? — Eles exclamaram em uníssono, como se fosse uma tortura. — Sim, três. — Eduardo suspirou. — Se vocês querem que isso funcione, precisam ceder um pouco. Rafael olhou para Helena, um sorriso torto surgindo. — Ceder não parece ser seu ponto forte. — E você é um exemplo de flexibilidade? — Pelo menos eu sei negociar. — Negociar? Você só sabe impor suas vontades. — E você só sabe reclamar. Eduardo bateu levemente na mesa, chamando a atenção deles. — Vamos focar, por favor? Helena respirou fundo, tentando recuperar o autocontrole. — Tudo bem. Vamos para a próxima cláusula. --- Momentos depois Depois de quase duas horas de discussões intermináveis, Eduardo olhou para os dois, exausto. — Vocês precisam assinar até amanhã. Sugiro que durmam sobre isso e voltem aqui com as decisões finais. — Ótimo — Helena se levantou, recolhendo sua bolsa. — E por dormir, eu espero que você sonhe em mudar algumas dessas cláusulas, Rafael. — Não conte com isso — respondeu ele, inclinando-se na cadeira com um sorriso arrogante. Helena saiu do escritório, e Eduardo olhou para Rafael, balançando a cabeça. — Você gosta de provocar, não é? — Não é minha culpa se ela facilita tanto. — Rafael, lembre-se: isso é um contrato, não uma batalha. Rafael riu, mas no fundo sabia que aquela dinâmica explosiva tornaria tudo muito mais complicado. --- Naquela noite Helena estava em casa, desabafando com Amanda enquanto tomava um copo de vinho. — Ele é insuportável! Arrogante, mandão e... e... — Bonito — completou Amanda, com um sorriso travesso. — O quê? Não! Não é isso. — Claro que não, chefe. — Amanda fingiu concordar, mas o sorriso não saiu de seu rosto. Helena bufou, frustrada. — Isso vai ser um inferno. Enquanto isso, Rafael estava no bar com Gustavo, rindo da situação. — Cara, ela vai te enlouquecer. — Já está conseguindo. Ambos riram, mas Rafael sabia que a relação explosiva entre ele e Helena ainda renderia muitos desafios — e algumas surpresas. Na manhã seguinte, Rafael chegou ao escritório de Eduardo com o mesmo ar confiante de sempre. No entanto, quando viu Helena já sentada, folheando o contrato, ele sentiu que o dia seria mais longo do que imaginava. — Decidiu desistir? — ele provocou, largando a maleta em cima da mesa e sentando-se de frente para ela. Helena levantou os olhos, desafiadora. — Decidi que não vou deixar você levar a melhor. Eduardo suspirou ao entrar na sala e perceber que a energia entre os dois era tão intensa quanto no dia anterior. — Bom dia. Antes que comecem, gostaria de lembrar que estamos aqui para chegar a um consenso. Helena apontou para uma das cláusulas no contrato e começou: — Sobre a cláusula de convivência. Três eventos por mês, ok. Mas quero um limite de tempo nesses eventos. Não vou ficar à mercê do senhor Rafael Montenegro até altas horas. Rafael riu baixo, cruzando os braços. — O que foi tão engraçado? — ela perguntou, estreitando os olhos. — Nada, só estava imaginando como vou explicar a sua "hora de recolher" para os investidores. Helena ignorou a provocação e continuou: — Quero estipular no contrato: cada evento terá um máximo de quatro horas. Eduardo olhou para Rafael, esperando sua reação. — Tudo bem. Quatro horas — ele concordou, surpreendendo-a. Helena arqueou as sobrancelhas. — Você concorda? — Não sou tão inflexível quanto você pensa. Ela revirou os olhos, mas por dentro estava levemente aliviada. Eduardo aproveitou a calmaria momentânea para passar para outro ponto. — E sobre a cláusula de moradia? Decidiram algo? — Sim. — Helena tomou a dianteira. — Vamos morar no meu apartamento. — Nem pensar — rebateu Rafael. — O seu apartamento é pequeno demais. Precisamos de algo mais espaçoso e apropriado para receber visitas, caso necessário. — Espaçoso demais é o seu ego. Meu apartamento é perfeitamente funcional. — Funcional para quem? Para anões? — Rafael! — Eduardo o repreendeu, enquanto Helena o fulminava com o olhar. — Escutem, há um jeito simples de resolver isso — interveio Eduardo. — Escolham um imóvel neutro, algo que seja confortável para os dois. Rafael concordou, mesmo a contragosto. — Ok. Podemos procurar algo juntos. — Excelente. Vamos seguir para o próximo ponto — disse Eduardo, claramente aliviado por evitar uma guerra. --- No fim da reunião Após horas discutindo cláusulas e ajustando detalhes, Helena e Rafael finalmente chegaram a um acordo preliminar. Eduardo revisaria os ajustes e prepararia a versão final para ser assinada no dia seguinte. Ao saírem do prédio, a tensão entre eles ainda era palpável. — Não pense que isso será fácil, Rafael — Helena disse, parando na calçada e o encarando. — Eu não esperava que fosse. Mas você deveria saber que eu sempre cumpro o que prometo. Ela não respondeu, apenas ergueu o queixo e entrou no carro que a aguardava. Rafael observou o veículo partir, um sorriso leve surgindo em seus lábios. — Vai ser interessante. --- Naquela noite Helena voltou para casa exausta. Ao abrir a porta, foi recebida por Márcia, que a observou com um olhar inquisitivo. — E então? Conseguiu resolver alguma coisa? — Sim... mais ou menos — respondeu Helena, jogando a bolsa no sofá e tirando os sapatos. — Espero que saiba o que está fazendo, Helena. Essa empresa é o legado do seu pai. Helena suspirou profundamente. — Eu sei, mãe. Não precisa me lembrar disso o tempo todo. — Só estou dizendo porque quero que você tenha sucesso. Helena deu um sorriso cansado. — Obrigada, mãe. Enquanto isso, Rafael estava em seu apartamento, revisando mentalmente as cláusulas que haviam acordado. Ele sabia que a convivência com Helena seria um desafio, mas parte dele estava curioso para ver onde aquilo tudo levaria.
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