A sala de reuniões do escritório de Eduardo estava impecável. Uma mesa de vidro no centro, os papéis do contrato cuidadosamente empilhados e duas canetas dispostas lado a lado aguardavam o momento decisivo. Helena chegou primeiro, trajando um conjunto elegante, mas confortável, enquanto Rafael entrou pouco depois, com seu típico terno sob medida que parecia ter sido desenhado para intimidar.
— Prontos? — Eduardo perguntou, analisando o semblante dos dois.
— Mais do que nunca, doutor — respondeu Rafael com um meio sorriso.
Helena, que cruzava os braços, lançou um olhar desafiador.
— Vamos acabar logo com isso.
Eduardo sorriu educadamente, tentando esconder o desconforto com a tensão no ar, e começou a explicar os últimos detalhes do contrato.
— Então, só para recapitular: eventos sociais são obrigatórios, mas dentro do limite de quatro horas. Moradia será em um imóvel neutro escolhido por ambos. Qualquer quebra de cláusula resultará em penalidades, conforme discutido. Ambos concordam?
— Sim — responderam os dois em uníssono, o que fez Eduardo dar um leve sorriso aliviado.
Eles assinaram, um de cada vez. Quando Helena terminou de colocar sua assinatura no último papel, olhou para Rafael e comentou:
— E agora, Montenegro? Alguma última provocação?
— Só que m*l posso esperar para ver como você vai lidar com isso, Costa.
Os dois se encararam por um instante antes de Eduardo interromper:
— Parabéns aos dois. Agora são oficialmente... parceiros.
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A Nova Casa
Dois dias depois, Helena e Rafael se encontraram na entrada do imóvel que haviam escolhido juntos — uma casa ampla e moderna localizada em um bairro de luxo. Tinha grandes janelas de vidro, uma cozinha planejada, uma sala de estar com pé-direito duplo e um jardim perfeitamente cuidado.
— Bem, pelo menos aqui não vou me sentir sufocada — Helena comentou ao entrar.
— E eu não vou tropeçar em móveis baratos — Rafael respondeu com um sorriso sarcástico.
— Você não consegue passar um dia sem fazer um comentário desnecessário, não é?
— Eu diria que é meu charme.
Helena revirou os olhos, mas decidiu não prolongar a discussão.
Enquanto exploravam o imóvel, ela se concentrou em desfazer as malas e organizar suas coisas. Rafael, por outro lado, parecia à vontade, como se já tivesse morado ali a vida toda.
— A suíte principal é minha — ele declarou casualmente ao passar pela escada.
— Nem pense nisso! — Helena rebateu. — Eu também moro aqui. Vamos dividir.
Rafael ergueu as sobrancelhas, surpreso com a resistência.
— Está bem. Você pode ficar com o closet menor.
— Ah, claro! Porque você tem mais roupas do que eu.
— Tecnicamente, tenho mais ternos.
A discussão foi interrompida por Amanda, que chegou com uma pequena caixa de presentes enviada por Márcia.
— Dona Helena, sua mãe pediu que entregasse isso pessoalmente.
Helena abriu a caixa e encontrou um conjunto de talheres com detalhes dourados e um bilhete: "Para você se lembrar de manter a classe, mesmo quando estiver cercada por barbárie."
Rafael leu por cima do ombro dela e riu alto.
— Gosto do estilo da sua mãe.
Helena suspirou, mas não pôde evitar um pequeno sorriso.
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Primeira Noite Sob o Mesmo Teto
O jantar foi um evento desconfortável. Helena cozinhou algo simples, enquanto Rafael trouxe uma garrafa de vinho.
— Surpreso que você saiba cozinhar — ele comentou, servindo-se.
— E eu estou surpresa que você saiba abrir uma garrafa de vinho sozinho.
— Toquei em um ponto sensível, pelo visto.
Ela o ignorou e começou a comer. Apesar das farpas, a comida estava boa, e a atmosfera, embora tensa, tinha um leve toque de humor.
Mais tarde, enquanto se preparava para dormir, Helena ouviu um barulho vindo do corredor. Ao abrir a porta, encontrou Rafael tentando ajeitar uma pilha de caixas.
— Precisa de ajuda? — ela perguntou, cruzando os braços.
— Não, estou bem.
Claro que, logo após dizer isso, uma das caixas caiu, espalhando papéis e livros pelo chão.
Helena riu, pegando alguns itens.
— Você é tão desastrado quanto parece.
— E você é mais irritante do que eu lembrava.
Apesar das palavras, havia algo leve na interação deles. Era como se o contrato, ao invés de criar apenas obrigações, estivesse começando a forçá-los a se conhecerem de verdade.
Depois de ajudar Rafael a recolher os papéis espalhados pelo chão, Helena pegou um deles e não resistiu a provocá-lo.
— O que é isso? Uma lista de “Como ser insuportável em dez lições”?
Rafael ergueu uma sobrancelha e puxou o papel da mão dela.
— Não, é minha lista de objetivos. Mas, agora que mencionou, talvez eu adicione “ensinar Helena a não ser irritante” como um novo item.
— Boa sorte com isso, Montenegro. Você precisaria de uma vida inteira.
Ele soltou uma risada abafada, enquanto terminava de recolher os papéis. Mas então, outro barulho surgiu no corredor — desta vez, vindo da cozinha.
— Você deixou algo no fogão? — Rafael perguntou, franzindo o cenho.
— Claro que não. Eu não sou você, que provavelmente ligaria o forno para guardar documentos.
— Engraçada.
Os dois caminharam juntos para a cozinha, apenas para encontrar um pequeno desastre: a torneira havia ficado m*l fechada, e um copo que estava na pia virou, espalhando água pelo balcão e pelo chão.
— Ótimo — Helena murmurou. — Sua culpa.
— Minha culpa? Você estava lavando a louça.
— Eu estava cozinhando! A louça era sua responsabilidade.
Ele cruzou os braços, tentando conter uma risada.
— Vamos resolver isso antes que vire uma enchente, Costa.
Rafael pegou um pano, enquanto Helena buscava um rodo. Mas, em meio à confusão, ele escorregou na água e, para evitar cair de cara no chão, acabou segurando a lateral da bancada — e levando um pratinho decorativo com ele.
O som do prato quebrando ecoou pela cozinha.
— Sério? — Helena colocou as mãos na cintura. — Um dia, Rafael. Um único dia, e você já está destruindo coisas.
Ele se levantou, fingindo um ar ofendido.
— Para sua informação, foi um acidente. E quem coloca um prato decorativo em cima de uma pia?
— Gente normal, Montenegro. Mas entendo que você não tenha experiência com isso.
Apesar do tom sério, Helena não conseguiu evitar rir da expressão de Rafael, que parecia um misto de indignação e resignação.
— Tá bom, Costa. O que eu faço pra você me perdoar por esse “crime”?
— Hm, deixa eu pensar... — Ela olhou em volta, fingindo avaliar a situação. — Amanhã você faz o café da manhã.
— Fechado. Mas não reclame se eu usar cereal e leite.
Helena riu e voltou a secar a água no chão, enquanto Rafael recolhia os cacos do prato quebrado. Aquele pequeno incidente, por mais bobo que fosse, parecia ter quebrado parte da tensão entre eles.
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Mais Tarde, na Sala de Estar
Depois de arrumar a cozinha, os dois decidiram relaxar na sala. Helena se jogou no sofá, exausta, enquanto Rafael abriu uma garrafa de água com gás e ofereceu a ela.
— Quer?
— Só se você prometer não deixar cair no chão e destruir o copo também.
— Engraçadinha.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, assistindo a um noticiário qualquer na TV.
— Sabe, Costa, isso pode não ser tão r**m.
— O quê? Dividir a casa com você? Claro que não, é um sonho realizado — respondeu Helena com sarcasmo.
— Não, digo... trabalhar juntos para enganar meio mundo. Parece algo que a gente é bom em fazer.
Ela o encarou, percebendo o brilho divertido nos olhos dele, e riu.
— Você tem razão. Somos ótimos em sermos péssimos.
— Um brinde a isso, então. — Ele ergueu a garrafa de água como se fosse uma taça de champanhe.
Helena pegou sua própria garrafa de água e fez o mesmo.
— Um brinde ao começo de uma convivência... peculiar.
Eles brindaram, e, pela primeira vez, parecia que poderiam realmente sobreviver àquele contrato — mesmo que fosse preciso algumas piadas ácidas e pratos quebrados pelo caminho.