capitulo 1
Examinei a papelada espalhada sobre minha mesa e soltei um suspiro profundo.
Por alguns segundos, abandonei os documentos e virei o rosto para a janela. O céu estava de um azul-claro quase perfeito, cortado apenas por uma única nuvem branca que flutuava solitária lá no alto, sendo empurrada suavemente pelo vento.
Então algo chamou minha atenção.
Uma coluna de fumaça cinza-chumbo se erguia ao longe, girando em espiral na direção da nuvem.
Apertei os olhos, tentando enxergar melhor.
— Senhor Stark? Senhor Stark?
A voz parecia distante.
— Hum... né? — respondi, finalmente me virando, ainda segurando os papéis que havia retirado do topo da pilha.
Minha secretária estava parada à porta. Pela expressão preocupada, parecia ter me chamado mais de uma vez.
— Está tudo bem?
— Sim. Não foi nada — respondi depressa. Não havia motivo para assustá-la.
Ela olhou pela janela.
— Está olhando aquela coluna de fumaça?
— Sim. Era exatamente isso que eu estava tentando descobrir.
— Todos estão tentando saber de onde vem. Estão dizendo que é na direção do bairro onde o senhor mora — comentou, apontando discretamente para a janela.
Franzi a testa.
— Tem certeza?
— Não, senhor. Apenas ouvi alguns comentários e achei melhor avisá-lo.
— Certo. Efharisto.
Peguei o telefone imediatamente e liguei para meu chefe de segurança.
— Dion? Está tudo bem aí?
— Sim, senhor Stark.
— O que é essa fumaça que estou vendo da janela do meu escritório? Parece vir da direção da minha casa.
Imaginei que ele saberia de alguma coisa se o incêndio fosse próximo da minha residência.
— Um pequeno incêndio em uma livraria antiga, no centro — respondeu de maneira objetiva.
— Ela estava aberta quando o fogo começou?
— Sim. Havia um evento de escritores acontecendo lá hoje. Alguma coisa relacionada a livros.
— Entendo. Kalispera.
Antes que pudesse continuar, meu outro telefone tocou.
Desliguei a chamada e atendi imediatamente.
— Karyn? Está tudo bem?
— Damon, o incêndio... Ouvi dizer que foi na livraria onde Caroline estaria hoje.
Meu corpo ficou rígido.
— Droga! Aquela fedelha? Está falando sério?
— Nem em uma situação dessas você consegue deixar de ser implicante com ela? Apenas vá verificar se está bem.
— Por que eu preciso ir?
— Porque alguém da família precisa aparecer. Caroline não atende ao telefone e ninguém consegue informar o que aconteceu.
Soltei um suspiro impaciente.
— Eeeeeela... Eu sou um homem ocupado...
— Pame, pame, querido! Não posso ir com Árion, posso? — rebateu.
Ela sabia exatamente onde estava me atingindo.
Do outro lado da linha, ouvi nosso filho de seis meses balbuciar.
Fechei os olhos por um instante.
— Óchi. Está bem. Vou para lá imediatamente.
Ela tinha razão. Se Caroline estivesse envolvida, provavelmente não dariam informações detalhadas a um funcionário meu. Eu precisava estar ali como família.
— Efharisto para poli, querido — respondeu Karyn, satisfeita por ter vencido a discussão.
Desliguei.
Saí do escritório às pressas, liguei para a garagem e pedi que preparassem o carro. Antes de entrar no elevador, avisei Yohana:
— Estou saindo. Reorganize minha agenda.
As portas se fecharam e comecei a descer.
Durante o trajeto, meus pensamentos voltaram para Caroline.
Eu não sabia muito sobre escritores. Gostava de ler, mas algumas histórias com palavras complicadas demais e tramas excessivamente elaboradas conseguiam me deixar cansado e sonolento.
Havia um livro que eu estava tentando terminar havia mais de um ano. Era sobre um morro, o vento e pessoas com uma índole tão r**m que pareciam determinadas a destruir qualquer possibilidade de felicidade.
Tinha sido extremamente recomendado na internet e na livraria onde o comprei.
Karyn riu quando recebi uma cópia autografada pela própria Caroline. Para não ser indelicado, deixei o livro na cabeceira da cama.
Até aquele momento, porém, ele não havia conseguido me impressionar.
Eu sequer lembrava do título.
O motorista estacionou a algumas quadras da livraria, que ficava em um grande cruzamento, ocupando um terreno de esquina em uma das áreas mais movimentadas do centro.
Desci e percorri o restante do caminho a pé.
Havia uma multidão reunida na calçada. Curiosos se amontoavam atrás das barreiras enquanto bombeiros trabalhavam para controlar os últimos focos do incêndio e policiais organizavam o local.
Abri caminho entre as pessoas.
— Senhor Damon Stark.
Uma voz masculina chamou minha atenção.
Virei-me.
O homem mostrou o distintivo. Era um policial responsável por isolar a área. Com uma expressão cansada, levantou a fita e fez um gesto para que eu passasse.
Entrei rapidamente.
E então ouvi uma voz conhecida.
— Cunhado?
Virei-me.
Caroline estava se aproximando.
Baixinha, curvilínea e com os longos cabelos escuros e cacheados parcialmente desalinhados, ela parecia ter acabado de atravessar uma tempestade. Havia fuligem em seu nariz e nas têmporas.
Por um instante, o alívio foi maior do que a irritação.
— Graças a Deus, fedelha!
Soltei o ar que nem percebi estar prendendo.
Ela estava viva.
Meus olhos, porém, desviaram-se rapidamente dela para o prédio destruído, os bombeiros e os agentes que controlavam a situação.
— Já contei o que vi para cinco pessoas diferentes e ninguém parece prestar atenção! — reclamou, exasperada.
Observei a fuligem em seu rosto.
Aquilo a deixava... estranhamente engraçada.
— Talvez seja porque o que você tem a dizer não seja interessante — provoquei, com um sorriso frio.
— Seu idio...
— O que estava dizendo, cunhada? — interrompi, enfatizando a última palavra.
Ela estreitou os olhos.
Caroline nunca foi do tipo que se intimidava comigo.
— Sou Caroline Kass. A K. Kass. Não se esqueça disso.
Ela me encarou como se esperasse algum tipo de reação.
Não dei.
— É? Que bom para você.
Sua boca se abriu em indignação.
— Meu Deus! Eu sou uma das escritoras da leitura de hoje!
— Ah... A famosa Caroline Kass.
Falei aquilo apenas para provocá-la.
Não sei por quê.
Talvez porque fosse divertido vê-la perder a paciência.
— Tá. Já entendi. Não dá a mínima, não é? Seria pedir demais que prestasse atenção ao que acontece ao seu redor sem envolver dinheiro?
Revirei os olhos.
— Olha só, fedelha. Sua opinião sobre mim não me interessa. Se não tem mais nada a fazer, vou falar com o inspetor e levá-la para casa, como Karyn pediu. Antes que você tenha tempo de atrapalhar a investigação com suas fantasias.
Os olhos dela faiscaram.
— Eu vi uma mão com luvas pretas de borracha colocar fogo na lixeira perto da porta do banheiro! O inspetor não quer acreditar em mim! Mas quer saber? Eu não preciso disso e essa investigação não é problema meu. Vou embora!
Ela se virou e começou a sair.
— Segurem aquela mulher do vestido de borboletas! É uma testemunha! — ordenou o inspetor.
Um guarda imediatamente foi atrás dela.
Caroline voltou praticamente arrastada, debatendo-se como uma fera enjaulada.
— Miserável! Eu não sou criminosa! Por que está me tratando assim? Eu mesma procurei vocês para contar o que vi! Ninguém quis me ouvir!
Olhei para o inspetor.
— Vai mesmo ignorá-la?
— Ela está incomodando todo mundo há algum tempo com essa história.
— Ouviu o que ela tem a dizer?
Minha voz saiu mais ríspida do que pretendia.
O inspetor suspirou.
— Sim. Mas não faz muito sentido. O prédio é antigo e vinha apresentando problemas elétricos. Todos os apartamentos estavam sendo evacuados porque o imóvel seria demolido. A livraria era a única que ainda funcionava. Esse evento seria o último antes do fechamento definitivo. Uma espécie de despedida.
Olhei para o prédio.
— O estrago foi grande?
— Felizmente, não. A maior parte dos livros já tinha sido retirada. Isso também ajudou a liberar espaço para o evento. Apenas uma pequena parte foi danificada.
Ele fez uma pausa.
— A maioria dos livros destruídos era justamente dos autores que participariam da leitura hoje.
Caroline soltou um som indignado ao nosso lado.
— Senhor, misericórdia! Eles não fazem ideia do nosso prejuízo!
Olhei para ela.
Era como uma pulga impertinente. Pequena, irritante e determinada a continuar mordendo até alguém perder a paciência.
— Vai pegar o depoimento dela? — perguntei ao inspetor.
Ele balançou a cabeça.
— Não acho mais necessário. Pode deixá-la ir.
O guarda soltou o braço de Caroline.
Ela imediatamente se afastou.
— Bando de pombos! Não preciso da ajuda de idiotas. Vou sozinha para casa!
Fiquei observando enquanto ela passava pela fita e seguia pela calçada, pisando duro e rebolando de raiva.
Franzi a testa.
Pombos?
Desde quando aquilo era um insulto?
Também não fazia ideia do que ela quis dizer com "bugiganga". Talvez fosse alguma expressão de escritora que eu desconhecia.
Caroline continuou andando até se transformar em um ponto minúsculo na distância.
— Tem bonitos melões e um bom pandeiro, se é que me entende — comentou o inspetor. — Mas a boca é muito frouxa.
Meu olhar voltou imediatamente para ele.
— Cuidado com o que diz. A fedelha é minha cunhada. Ela tem um gênio difícil, mas não é qualquer uma.
— É assim que eu gosto. Das bravas. Mas recado recebido, senhor Stark.
Ele deu de ombros.
— Além disso, ela mesma arranharia sua cara como uma fera se ouvisse você falando assim dela.
O homem riu.
— Provavelmente. Bem, deixo essa beleza aos seus cuidados.
Ele fez um aceno respeitoso e se afastou.
Retribuí brevemente.
Então virei as costas e segui meu caminho, deixando para trás a multidão de curiosos e os profissionais que ainda corriam de um lado para o outro.
Só que, enquanto caminhava, uma coisa não saía da minha cabeça.
Aquela mulher tinha visto alguém provocar o incêndio.
E, pela primeira vez, comecei a me perguntar se a minha irritante cunhada estava realmente falando bobagem...