Acervo

2968 Words
Sua íris cor de mel refletia o azul límpido do céu, que pela janela, se revelava um ensolarado dia digno de um mergulho no mar, atividade essa engavetada nos próximos meses, até que retornasse de sua empreitada amazônica. Avoada naquele mundaréu vazio, reviveu cada etapa preparatória da viagem, sonorizada por Lindsay Buckingham - Holiday Road, sendo boa parte deles, burocrático, como tirar licença da faculdade, congelar seus cursos e treinamentos; além de tratar dos arranjos sentimentais com despedidas de amigos, familiares e uma lágrima sincera pela sensação de abandono do aconchegante apartamento. Desde o aceite da proposta, teve um mês para organizar a viagem e deliberar quais equipamentos levar, solicitar ou negligenciar. Aproveitou para estudar um pouco mais sobre a obra a ser restaurada e mergulhar noites em guias de viagens sobre a região do Amazonas. Nunca foi do seu feitio ir para lugares sem saber o básico para sobreviver. O monitor no banco à sua frente revelava a rota do avião, com pouco mais da metade do caminho percorrido. Embora tenha viajado para distâncias assaz expressivas, era irônico o frio na espinha por se tratar de um local dentro do país. Concluiu que não era a longitude que lhe agoniava, e sim, a psicológica, por desbravar terras impensáveis. Após oito horas de voo e duas conexões, Rhea desembarcou no Aeroporto Internacional de Cruzeiro do Sul, no Acre. Polo turístico, a Terra dos Náuas era cercada de monumentos simbólicos, preservadores de sua história. Um homem bem-vestido a aguardava, brandindo um cartaz com seu nome. Guiou-a pelo saguão triangular, informando que as malas seriam conduzidas num veículo secundário, exceto o mochilão nas costas, a qual Rhea se negou a despachar. Do lado de fora, um carro a esperava de porta-malas escancarado. Igualmente, se negou a abdicar da mochila, acomodando-a feito um passageiro, inclusive, pondo o cinto de segurança. Na saída, apreciou a concepção arquitetônica do aeroporto, a qual valorizava a cultura amazônica mimetizando uma habitação indígena. Durante o trajeto, e a pedido do anfitrião, o motorista fez um tour efêmero, permitindo a Rhea admirar a Catedral de Nossa Senhora da Glória; se interessar pelo Teatro dos Náuas, nome dado em tributo a tribo homônima que ocupava a região; se lembrar de casa diante do amalgama de tonalidades das águas do Balneário de Igararé Preto; terminando seu turismo através dos arcos coloniais ingleses da Estação do Porto, onde alternaria seu meio de locomoção, sendo o barco a única forma de se alcançar o município de Ipixuna. Depois de aprontado a carga, Rhea embarcou numa travessia de treze horas, rio acima. ○○○ Rhea dedicou a metade final da viagem apreciando a mata intocada às margens do rio Juruá, e ao som de Passenger – Life's for the Living, se alegrou com a aparição gradual de Ipixuna – ou Terrinha, para os íntimos, – nome dado tanto ao afluente, quanto a cidade. Ao desembarcar num dos trapiches, uma comitiva lhe aguardava como da outra vez. Com exceção de sua inseparável mochila, não careceu mover um dedo para o resto da bagagem ser transladada. Passeou ligeiramente pela região central, seguindo outros tantos quilômetros ao norte, cursando uma estrada de chão que perdia, a cada hora, qualquer aspecto urbano, findando o trajeto à beira da mata amazônica, frente a uma mansão, aos pés do Vale do Javari. — Morar m*l para quê, né? — disse Rhea, descendo do jipe. Dentre os empregados a sua espera, a governanta se destacava por sua altura incomum, em traje tão elegante quanto seu coque engessado. Com vários carregadores a seu dispor, coube a Rhea somente o esforço de acompanhar a cordial senhora. — Seja muito bem-vinda, senhorita Kûara. — a governanta guiava em passos curtos. — Rhea, por favor. — respondeu abanando o rosto, devido ao calor. A senhora assentiu. — Por aqui, Rhea. O senhor Nascimento a aguarda. — o abrir das portas foi como um sopro glacial, refrescando instantaneamente o dia. Ao retirar os óculos escuros, Rhea se surpreendeu com a decoração. — Definitivamente, dinheiro não é um problema. — disse se referindo a infinidade de obras de artes nas paredes. — Alegra-me saber que é de seu agrado, minha cara. — entoou uma voz rouca, descendo a escadaria central. De mãos unidas, o senhor se curvou sutilmente. — Rhea Amana Kûara. Sorridente, Rhea estendeu a mão feito uma donzela, e aderiu a teatralidade. — Por deveras és tênue tal rebusco na prolação lídima de meu sobrenome. Sinto-me sabujada. — respondeu Rhea com voz caricata. — Tenho um apreço enorme pela cultura indígena. — esclareceu o homem tomando as mãos de Rhea de maneira gentil. — Uma pena as escolas negligenciarem isso. — De fato. Todo meu aprendizado veio de minhas viagens. Pode não parecer, mas esse corpo velho e cansado já cruzou os quatro cantos desse mundo. — Acredito em você. — disse Rhea, apreciando outros itens decorativos. — Além disso, procuro estudar com antecedência as pessoas que ora, frequentam minha residência. Seus traços indígenas são leves, mas há um teor exótico em seu rosto, a qual não consigo identificar. — Minha avó era indígena. Sou a terceira geração. — Por parte de quem? — Mãe. — E seu pai? — Descendente de grego. — Uma combinação inusitada. — Não há barreiras geográficas para o amor. — E você, já encontrou o seu? — Não estou mais a procura. Vivo melhor sozinha. — Compreensivo. — respondeu o homem. — Oh, perdão pela minha indelicadeza. Herodes Gaillard do Nascimento, a seu dispor. — beijou as mãos de Rhea. — Enchanté. — respondeu com gracejo. — Vamos passar muito tempo juntos, logo, creio ser o bastante de formalidades, não concorda? — disse Herodes com bom humor. Rhea assentiu. A governanta, sem expressividade alguma, se retirou ao término das formalidades. — Que postura curiosa. — comentou Rhea. — Eu já desisti de dizer a ela para ser menos formal. É resistente feito uma pedra, e insiste em me chamar de senhor. — Deve ter seus motivos. — Rhea sorriu. Herodes voltou a juntar as mãos. — Sua coleção é impressionante, Herodes. De verdade. — Apesar de gostar da arte, de forma geral, as pinturas me conquistaram. E ainda que haja apreço sentimental por cada uma delas, não são essas minhas melhores peças. — Há mais? — disse Rhea, surpresa. — Sim, claro. Venha, vou lhe apresentar a casa. — Herodes deu o braço e Rhea enganchou, marchando juntos pela sala de música e uma biblioteca, onde Rhea apreciou outras belas obras ornamentando as paredes. No entanto, sua atenção se focou no corredor que interligava esses ambientes. Nele, havia pinturas ilustrando a geração da família Gaillard do Nascimento, numa ordem cronológica terminante na própria figura do anfitrião, no auge dos seus vinte e poucos anos. Percebendo o interesse, Herodes interveio. — Cada familiar teve sua contribuição para que essa residência se tornasse realidade, e essa é a forma de não deixar seus esforços desabarem no esquecimento. Ao lado da gravura do jovem Herodes havia a de uma fascinante mulher. Contudo, a alegria de Rhea lhe escapou a face, ao notar que, dali em diante, só havia autorretratos de Herodes, sozinho, numa progressão aritmética por décadas, culminando em seu último retrato comemorativo de oitenta anos, sugerindo não ter irmãos, companheira ou filhos. — Minha falecida esposa, Helena. Pintava retratos como ninguém. — respondeu o homem a uma pergunta feita pelo suspiro de Rhea. — Meus sentimentos, Herodes. — Casamos jovens, desbravamos o mundo por anos, até que Deus decidiu que era hora dela partir. Mesmo efêmera, sua companhia me trouxe muita felicidade. Portanto, não se espante com a quantidade de quadros dela na mansão. — São belas obras. — Rhea enganchou no braço de Herodes, esbanjando simpatia pela opção da solidão. Após a biblioteca, enfim, atingiram o salão principal de obras de artes. Um espaço amplo, estrategicamente iluminado para enfatizar uma infinidade de obras, seja nas extremidades e paredes, seja em cavaletes estilizados e colunas centrais, simulando um museu. Herodes largou o braço de Rhea, como quem solta um peixe no mar, e admirou a jovialidade deslumbrada da garota, descobrindo o recinto feito uma criança numa loja de brinquedos. Obras famosas, a qual Rhea jurava estarem num museu, se mesclavam com desconhecidas, mas que conversavam num mesmo tom: eram pinturas arrebatadoras. E diferente de Herodes, a interpretação de Rhea não se limitava a beleza, e sim, aos detalhes, nas técnicas utilizadas e sobretudo, nos desgastes, sugestionando sua mente a arquitetar formas de repará-los. Concluiu o circuito num intenso suspiro de exultação. — Isto é praticamente uma terapia. — Não é surpresa que tenha gostado, Rhea. — Sensacional. De verdade, Herodes. Parabéns. — Obrigado. Saiba que cada um deles tem uma história e um valor sentimental único, e creio que se sentássemos para conversar sobre, terminaríamos com você atingindo a minha idade. Rhea gracejou. — Sabe o que é impressionante? — Rhea girou de braços abertos no próprio eixo. — O quadro mais famoso e conhecido no mundo, a Mona Lisa, não é sua! Herodes juntou as mãos. — Queira me acompanhar. Rhea fechou o sorriso e escoltou Herodes calada. — Conforme mencionei, busco apenas quadros que despertam sentimentos, mesmo que breve. A Mona Lisa, apesar de sua aura vexante, não mexeu comigo da forma que espero. — Herodes parou diante de uma segunda porta, trancada eletronicamente, e só abriu após conferência digital, ocular e vocal. — Mas não posso dizer o mesmo da sua... 'irmã'. — Irmã? — Rhea seguiu Herodes por um corredor de iluminação de emergência. A sensação era de estar dentro de um túnel, dado sua amplitude, onde sua respiração disputava o eco com seus passos. As janelas laterais, apesar de permitirem passagem de luz, encontravam-se abafadas com cortinas negras. Na porta seguinte, houve nova identificação, e sua a******a revelou uma única fonte de luz na parede, seguido da a******a na parede que atraiu Rhea feito inseto. — Monna Vanna! — disse trocando olhares com Herodes, como quem pede permissão. O milionário, do lado de fora, assentiu com afeto ao vislumbre de Rhea. O tal quadro, também conhecido como La Joconde Nue, retratava o b***o de uma mulher nua, disposta semelhantemente a Mona Lisa. Um quadro controverso, no que diz respeito a sua autoria. — Já conhecia? — perguntou Herodes. — Sim, claro. Quando era estudante, tive a oportunidade de efetuar um treinamento de reversibilidade, no Centre de Recherche et de Restauration des Musées de France. — disse num francês límpido. — Uma ótima referência. — disse Herodes, surpreso. — Foi lá que vi esse quadro pela primeira vez. Mas tratava-se de um esboço em carvão. O que você tem aqui está finalizado. — Rhea virou-se para Herodes. — Não vai me dizer que o esboço em carvão é o falso, e o verdadeiro, é o seu. Herodes coçou as costas da mão esquerda. — Toque no quadro. — Ãn? — Toque, com gentileza, no vidro que a protege. Rhea se dispôs frente ao quadro, e num toque leve, um clique precedeu sua a******a, revelando detrás, o tal esboço em carvão. — Isso! É essa que eu havia visto! Você... você manteve a original e mandou pintarem uma? — Não esperava que eu estragasse uma obra de arte, não é? — Herodes cultivava a coçada nas costas da mão esquerda. — Apesar de gostar do esboço original, eu carecia ter a versão finalizada. Foi um trabalho árduo encontrar um profissional capaz de alcançar tal feito replicando o estilo da época. — Ficou lindo. Ambas são maravilhosas. — Rhea encostou a portinhola com leveza. — E vendo a autoria, vejo que você é do time da Vinci, não é? — Rhea se referia a identificação abaixo do quadro. — Nunca saberemos com certeza, mas a maioria das características são atribuídas a Leonardo, ou a seu ateliê. Logo, acho justo mantê-lo como artífice. — Concordo com você. — Rhea dirigiu-se para a saída. — Você deve gostar mesmo desse quadro, visto ter criado uma sala exclusiva só para ela. — A sala não é só para ela... — Herodes acendeu outras luzes que revelaram seis nichos na parede que abriram como a primeira, tornando visível em cada face da sala octogonal, uma obra de arte. {ilustração} — Meu Deus... — Rhea empacou no centro da sala, estonteada. Cada obra ostentava sua primorosa singularidade, dando a impressão de terem sido pintadas há poucos dias. — Você restaurou todos? — perguntou Rhea, quase sem ar. — É o projeto a qual venho me dedicando nos últimos anos. Achar o artista perfeito para renovar cada uma delas. — Incrível! — Rhea zanzou por cada um, testemunhando detalhes vívidos brotarem de suas estruturas, até estar diante de uma parede vazia. — Esse espaço em branco é o que estou pensando? — Sim. — Vou vê-lo hoje? — Em breve. — Por que o mistério? — Não há mistério, Rhea. Só não quero alguém exausta de uma viagem tocando o quadro. Procure descansar, e depois do jantar, apresento vocês. Rhea se virou para a parede vazia e suspirou desapontada. — Tudo a seu tempo, Rhea. — a voz de Herodes soou calma. — É que é tudo tão incrível, que parece um sonho. — Eu sei. — disse Herodes, coçando a mão esquerda. — Tudo bem, irei conter minha ansiedade por um tempo, principalmente porque você tem razão. Eu estou um bagaço. — Rhea cheirou seu sovaco. Ao sair da sala, notou, além do gesto de Herodes com as mãos, o fato de ele não ter entrado na sala em momento algum. — Sala exclusiva, climatizada e protegida. Fico assombrada com tamanha dedicação pela segurança das suas obras, Herodes. E entendo agora por que não quer tirá-las debaixo de suas asas. — Meus pais eram bem preocupados com a segurança dos pertences de valor dessa casa, tanto que há formas de rastrear boa parte delas, através de GPS, portanto entenderei isso como um elogio, afinal, vem de uma pessoa que não largou a mochila de equipamentos desde que chegou. — Herodes sorriu, referindo-se ao que Rhea carregava com afinco. — Hahaha, ponto pra você. Eu tenho muito amor pelos meus brinquedos de trabalho, e eles só viajam sob minha supervisão. Eu verdadeiramente te entendo, Herodes. Você deve se sentir realizado por, em breve, ter sua sala concluída, não é? Já que só resta o quadro que irei restaurar. — Sim. Mas confesso que sempre penso além. — Herodes franziu a testa. — Além? O que quer dizer? — Existe uma obra que está... digamos, em projeto de aquisição. — Herodes apontou para o corredor de onde vieram, e acendeu as luzes, fazendo Rhea engasgar-se com a saliva ao presenciar o teto curvo, de pilares peculiares e familiares. — Sem chance... — Rhea desatou a rir. — Você não tá falando sério. — Só há duas maneiras de atingir esse objetivo, Rhea. Na primeira delas, a barreira é a burocracia. — Isso é impossível! — fitava consternada o teto branco. — Quando a papelada se consolidar, desmontarei o afresco de Michelangelo e trarei para minha coleção. Rhea sentia um nervosismo jovial correr-lhe as pernas. — Herodes, você é louco! — Louco, não. Sou determinado. — Você não pode simplesmente desmontar a Capela Cistina e trazer para seu acervo! — Um aporte financeiro torrencial, e perpétuo, me diz que posso. — Herodes... você recriou a estrutura da Capela Cistina na sua casa... em proporções reais! — Rhea estarreceu com o plano miraculoso de Herodes. — Tudo tem um preço, Rhea... afinal, você está aqui, não está? Rhea fez uma pistola com o dedo, e deu uma piscadinha, confirmando outro ponto adquirido pela resposta certeira. — Isso é tão surreal, Herodes. — Na verdade, isso é bem comum, Rhea. Inclusive, já foi feito no passado, mais de uma vez. — Está falando do templo egípcio Debod, em Madri? — Ahã. Por conta da construção de uma represa, o templo foi desmontado e presenteado à Espanha, em detrimento ao auxílio prestado com a realocação de um segundo templo, anos mais tarde. — Abul Simbel. — divagou Rhea. — E há de concordar que se tratava de uma estrutura muito mais complexa. — afirmou Herodes. — Ainda assim, Herodes. São eventos particulares. O Templo Debod transladou quilômetros, mas era pequeno. Abul Simbel é gigante, mas ficou na mesma região, apenas num terreno mais elevado. O seu caso é diferente, e evolve muito mais do que logística. Se trata de retirar um local sagrado para muita gente. — E os templos não eram sagrados para os egípcios? — questionou Herodes. Rhea não soube o que dizer. — Se tem uma coisa que aprendi, durante minha vida, foi ter paciência, Rhea. — Isso é uma qualidade comprovadamente admirável. — salientou Rhea, notando a placa na entrada da sala octogonal, com os dizeres: ü veay gea — O que significa? Não me é um idioma familiar. — Eu não sei. — respondeu Herodes com frustração na voz. — São palavras escritas em sangue, num livro antigo, que encontrei durante uma viagem. — O livro todo estava nessa linguagem? — Não. — Herodes apagou as luzes da sala octogonal. — Só havia essas palavras, escrita repetidas vezes. Rhea ficou atônita. — Posso vê-lo? — Infelizmente, não. Fui incapaz de obtê-lo. — Seria bem curioso analisar um livro desses. — Sem dúvida. — Herodes sugeriu que saíssem. — Mas voltando ao assunto do seu plano mirabolante. Você disse que há duas maneiras de ter o original da Capela Sistina, mas não vejo outra forma de retirá-lo, sem ser a movimentação física. Herodes juntou as mãos. — Ressuscitar Michelangelo. — Herodes... — Rhea enganchou em seu braço. — Você é o cara mais louco que já conheci na vida. — Louco, não. Eu sou é rico. — respondeu o homem, rindo junto.
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