Ato I

274 Words
Sábado, 27 de Março de 2032 | 21h46 ## Espreitou pela fresta da porta, como quem faz traquinagem, mas ao invés de topar com um adulto recriminador, por estar acordada até tão tarde, deparou-se com murmúrios vindo do andar inferior, póstumo ao grito. Se arrastou de joelhos abraçada ao livro e encaixou a cara por entre as colunas do parapeito, questionando-se curiosa sobre aporta da sala escancarada refletindo azul e vermelho. Não havendo impeditivos, desceu as escadas e peregrinou com pés de lã até a rua, onde descobriu um apinhado de pessoas submersas num falatório incompreensível. Mesmo reconhecendo alguns vizinhos, a maior parte tratava-se de curiosos de pijamas, cuja função era dificultar sua tentativa de encontrar os pais. Posto isso, traçou um objetivo: rumaria ao ponto mais tumultuoso e fulgurado, pois acreditava encontrá-los lá. Graças a seu porte pequeno, desviou com facilidade de pernas anônimas, alcançando uma área aberta, onde teve a visão ofuscada pelo giroflex de uma viatura. Quando sua visão se habituou com a luminosidade, os vultos se revelaram policiais e enfermeiros. No entanto, seu contato visual com a mãe não lhe trouxe a tranquilidade esperada, uma vez que ela se encontrava aos prantos, debruçada nos ombros do pai, o qual fixava o olhar no chão, onde um volume jazia imóvel, acobertado por um lençol encharcado de sangue. Um policial de alta patente surgiu, trocou palavras com os subalternos, que prontamente responderam a ordem, descobrindo parte do rosto da vítima. Diante daquilo, e mesmo sem entender direito o que se passava, a pequenina, involuntariamente, derramou uma lágrima. O livro caiu de suas mãos, revelando-se um tríptico de ilustrações rupestres. ▪▪▪
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