Ventura

1276 Words
Ainda abalada pela proposta indecente, Rhea regressou para sua segunda jornada de trabalho, desta vez indo para uma outra sala, onde vários restauradores concentravam-se em seus afazeres. Com um semblante tranquilo, avaliou as metodologias e desacertos, orientando e elogiando cada um, evidenciando apreço pela equipe que ela mesma treinou. Seus cursos de inverno eram disputadíssimos, pois ao final, três alunos destaques eram contratados. Sua afinidade com a equipe criava uma atmosfera confortável que proporcionava primíssimos resultados. Cada funcionário aguardava apreensivo sua vez de auferir aval de Rhea, que mobilizava a sala ao assinalar uma falha, partilhando ensinamentos profundos, aprendidos ao longo de sua carreira doutrinada por: quanto mais pessoas souberem o que eu sei, mais fácil será meu trabalho. Ao fim do expediente, pegou um ônibus e partiu para Santo Antônio de Lisboa, uma herança açoriana da cidade; seu ritual de sextas-feiras. Lá, aproveitou o dia longo de verão para caminhar rente ao mar e relaxar na areia, petiscando algo acompanhado de cerveja e o rubro pôr do sol. Com o cair da noite, peregrinou pela pracinha admirando o movimento e o artesanato decorrente da Feira das Alfaias, e por fim, seguiu até a Igreja da Nossa Senhora das Necessidades, cujos quadros que a adornavam haviam sido restaurados por ela. Cada uma das doze obras representavam a vida de Jesus Cristo. — Faz tempo que não a vejo, minha filha. — disse o padre, estendendo a mão para o confessionário. Quando ambos se arranjaram, Rhea iniciou a conversa. — Trabalho me consome, padre. — O trabalho edifica o homem, minha jovem. Apenas devemos nos atentar ao excesso. Esse é o caminho para todos os aspectos da vida. — Até que me saio bem nessa corda bamba. — Então por que parece arrastar uma montanha nos ombros, jovem? Achei que tivéssemos superado tudo. — É que toda vez que me deparo com decisões importantes, fico preocupada, pois em geral, quero as duas opções. É tão difícil escolher. — A vida é uma escolha, Rhea. Até mesmo quando se alimenta, é uma escolha. Estamos a todo instante sendo submetidos a isso. A inevitabilidade do mundo é aplicada sobre todas as suas decisões, logo, não existem uma mais ou menos importante, e sim, as que se afeiçoam a sua vontade naquele instante; e as que lhe outorgam o excesso. Esse é o equilíbrio a ser buscado. — Mas e quando a vontade quer as duas? — É uma ilusão achar que queremos duas coisas, Rhea. Você já escolheu. — Se já me decidi, por que sinto meu coração preso? — Porque seu tormento é pela opção renegada. — Cada escolha, uma perda. — comentou Rhea. — Sua vontade é o motor que te direciona para o que verdadeiramente deseja. Almejar duas vertentes opostas é mergulhar no excesso; tentar abraçar o mundo, e fatalmente, fracassar na frustação, se aprisionando num ciclo de falsa felicidade. — Tenho medo de escolher errado. — Não há escolhas ruins quando sua vontade está no controle. Ela sempre te guiará pelo caminho do sucesso, mesmo a princípio, te assombrando diante do infortúnio. — Espero que tenha razão, padre. — Deus tem razão, e Ele está contigo, minha jovem. Deus está contigo. — o padre rezou, executou o sinal da cruz e a abençoou. Apesar das palavras do padre terem o desígnio de causar aconchego, Rhea prosseguiu castigada por uma dúvida que a transportou para fora da igreja. Felizmente, foi na correnteza de amigos transeuntes que seus ombros puderam relaxar, numa noitada no Gambarzeira, boteco tradicional do bairro, famoso por suas placas de cartazes bem-humorados. Tarde da noite, e de volta seu apartamento, largou as coisas no sofá e tomou um banho. Em seguida, se espreguiçou na sacada para observar as luzes enquanto abria a tampa dourada do mimo que havia recebido de Heitor. O que parecia ser um perfume, na verdade, estava rotulado como "Cachaça de Butiá" em letras rococó. Bebeu rindo até sentir o baque que lhe carregou para a cama e lhe deu um sono tranquilo. ○○○ Na manhã seguinte, partiu para a Universidade Federal de Santa Catarina, onde ministrava aos sábados o curso de pós-graduação em História da Arte. Adorada pelos alunos em virtude de sua desenvoltura e amor ao que fazia, cunhava laços duradouros, perdendo as contas de quantos ex-alunos brotavam durante os intervalos para confabularem. Carismática, almoçava em conjunto, aproveitando cada momento como se fosse único, trocando aprendizados e enraizando amizades expressivas. Após as obrigações, e munida do seu biquini, aproveitou o sol à beira do mar. No caminho de volta, visitou sua colega de faculdade e parceira de trabalho, para um chá de atualização de novidades – termo cunhado pela mesma –, e por fim, comprou miudezas no mercado. Chegando em casa, seu smartphone se conectou a rede interna, ligando não só as luzes e televisão, como também o sistema de som, que respondeu ao comando de voz com a música Low Roar – Slow Down. Deixou as compras na cozinha e foi para o quarto se banhar. Após vestir algo confortável, cursou o apartamento estúdio recolhendo a bagunça desamparada por uma manhã agitada. Na cozinha, vestiu seu avental cuja estampa era de um homem sarado descamisado, e encetou o preparo do seu prato preferido, Spaghetti alla Carbonara. Riu ao mentalizar a pronúncia rebuscada vinda de Heitor. Enquanto o vinho resfriava, comandou uma exibição de fotos na televisão, filtrando por Museu do Prado. Durante as dezenas de fotos, Rhea congelou a que estava diante de Os Jardins das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch. A qualidade da pintura, agora, fazia sentido: vinha sendo restaurada sem escrúpulos, visto não se tratar da original. O aroma de bacon e ovos fundidos num molho cremoso preencheu a cozinha, indicando o fim do preparo. Montou seu prato numa mesinha docemente enfeitada na sacada, serviu-se de uma taça de vinho e apreciou a vista iluminada da cidade. Seu smartphone vibrou com uma mensagem de Heitor, que imediatamente foi transmitido para a televisão. Lá, Rhea leu a mensagem: Pensa com carinho ;) Uma sequência de nove fotos corroborava a proposta de trabalho, revelando a verdadeira obra de Bosch, que impetuosamente sobrevivera – mesmo que degradado – a mais de quinhentos anos. Cada fotografia aguçava não só seu apreço por trípticos, como também, a possibilidade de restaurar seu quadro preferido, ao preço módico de meses de isolamento na Amazônia. Uma segunda mensagem evidenciava fotos do ateliê de Herodes, anexo a um formulário contendo as ferramentas disponíveis. Mesmo atentando com afinco, Heitor estava certo: o ricaço não só tinha experiência no ramo, como também possuía utensílios que ela mesma ansiava adquirir. No final do documento havia uma área livre para solicitações adicionais. — Eu. — riu sozinha com a piada. Admirou seu apartamento com carinho; era sóbrio, discreto, monocromático mas elegante; de janelas extensas e vista para um trapiche. Na sala, ostentada acima do sofá, havia uma fotografia panorâmica, dividida em três quadros separados, da Pedra do Telegrafo, no Rio de Janeiro, o qual lhe remeteu a bons momentos não só daquele dia, mas de todo o seu meio de vida, rotina, amigos e estabilidade adquirida ao longo de anos. Ao embarcar num sonho de estudante rumo as entranhas da Amazônia, abriria mão temporariamente dessa redoma confortável. Concluiu a panorâmica em sua geladeira, a qual revelava, através da infestação de imãs de comida delivery, suas noites. — 'É uma ilusão achar que queremos as duas coisas, Rhea. Você já escolheu.' — brandiu a voz do padre em seu pensamento. Deu um gole no vinho, sentou para comer, abocanhou uma porção do macarrão e mastigou com um semblante satisfatório no rosto. — Você nunca cozinha, Rhea.
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