A noite caiu sobre o resort como um véu de luxo silencioso.
As luzes externas acenderam em tons quentes, dourados, refletindo nos espelhos d’água e nas superfícies polidas de mármore. O som distante do mar misturava-se a uma música instrumental suave que parecia pensada exatamente para aquele tipo de evento: elegante, discreta, cara.
Magno saiu do quarto ajustando o relógio no pulso, vestindo um terno escuro sob medida. O tipo de roupa que não chamava atenção pelo excesso, mas pela autoridade silenciosa que impunha. Ele estava no modo automático — postura eret4, expressão controlada, mente focada em negócios.
Até bater à porta de Gabriella.
Ela abriu.
E por um breve segundo, Magno esqueceu completamente onde estava.
Gabriella usava um vestido longo, de tecido fluido, num tom claro que contrastava com a pele. O decot3 era sutil, elegante demais para ser chamado de provocação — e ainda assim, impossível de ignorar. O cabelo estava solto, levemente ondulado, como se tivesse sido arrumado sem esforço, e o perfume… discreto, mas envolvente.
— Pronta — ela disse, girando levemente o corpo, como quem pede aprovação sem pedir.
Magno demorou um segundo a mais para responder.
— Está… adequada — disse por fim, escolhendo cada palavra com cuidado excessivo.
Ela sorriu.
— “Adequada” foi o máximo que consegui?
— Para um jantar com investidores, sim.
— Que pena — ela murmurou, divertida. — Eu esperava algo mais honesto.
Ele ignorou o comentário e ofereceu o braço. Gabriella aceitou, encaixando o dela com naturalidade demais. O toque foi breve, mas Magno sentiu o corpo reagir de um jeito que o irritou profundamente.
O salão do jantar estava impecável.
Mesas redondas, toalhas claras, arranjos minimalistas. Homens de terno, mulheres em vestidos caros, risadas controladas, taças de cristal tilintando com precisão. Assim que entraram juntos, alguns olhares se voltaram imediatamente para eles.
Ou melhor: para ela.
Magno percebeu na hora.
O primeiro foi um investidor europeu, sorriso treinado, olhar avaliador.
— Magno, que prazer revê-lo. — Apertou sua mão antes de se voltar para Gabriella. — Imagino que esta seja a jovem de quem todos comentam.
— Gabriella — Magno respondeu, firme. — Minha afilhada.
O homem ergueu as sobrancelhas, surpreso e curioso ao mesmo tempo.
— Encantadora.
— Obrigada — ela respondeu, com educação perfeita.
Mas o olhar dele demorou demais.
Magno deu um passo sutil à frente, quase imperceptível, posicionando-se entre eles de forma automática.
— Ela não bebe — completou, seco, quando o garçom se aproximou oferecendo taças.
Gabriella virou o rosto para ele, surpresa.
— Desde quando você decide isso?
Magno sustentou o olhar.
— Desde agora.
O investidor riu, sem graça, e se afastou.
Gabriella reprimiu um sorriso.
— Você foi… intenso — comentou quando se sentaram.
— Fui claro.
— Protetor — ela corrigiu. — Gostei.
Ele não respondeu.
O jantar avançou, e com ele, os olhares.
Um homem mais jovem puxou conversa sobre arte. Outro elogiou a postura dela. Um terceiro perguntou sobre estudos. Todos educados. Todos discretos. Todos interessados demais.
E Magno cortava um por um.
— Ela não está disponível para conversa agora.
— Estamos em compromisso profissional.
— Esse assunto não é apropriado.
As palavras eram firmes. O tom, inegociável.
Gabriella observava tudo como quem assiste a um espetáculo feito sob medida.
Ela começou a beber.
Uma taça de champanhe. Depois outra. Depois mais uma, sempre com um sorriso leve, sempre dizendo que estava tudo bem. O álcool começou a soltar gestos, risadas um pouco mais altas, inclinações de corpo um pouco mais ousad4s.
— Você está exagerando — Magno murmurou em determinado momento.
— Estou comemorando — ela respondeu, erguendo a taça. — O sucesso. A viagem. Você.
Ele fechou o maxilar.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Me provocar.
Ela inclinou-se para mais perto, apoiando o cotovelo na mesa.
— Engraçado… — disse baixinho. — Porque parece que funciona.
Outro homem se aproximou. Alto, confiante, sorriso fácil.
— Posso me sentar?
Antes que Gabriella respondesse, Magno falou:
— Não.
O silêncio foi imediato.
— Perdão? — o homem perguntou, surpreso.
— Ela está acompanhada — Magno repetiu, olhando diretamente nos olhos dele. — E não está interessada.
Gabriella arqueou as sobrancelhas.
— Eu não disse isso.
Magno virou-se lentamente para ela.
— Disse agora.
O homem se afastou, claramente desconfortável.
Gabriella riu, baixo, quase satisfeita.
— Você fica lindo assim — comentou. — Quando acha que alguém vai me tirar de você.
— Chega — ele disse, firme. — Você bebeu demais.
— Talvez — ela respondeu, apoiando-se nele ao se levantar. — Ou talvez eu só esteja cansada de fingir que não vejo o que você sente.
O toque do corpo dela contra o dele foi breve. Mas suficiente para incendiar tudo por dentro.
— Vamos — Magno disse, controlando cada músculo do próprio corpo. — Agora.
Ela aceitou o braço dele outra vez, dessa vez mais pesada, mais próxima, mais consciente do efeito que causava.
Enquanto caminhavam para fora do salão, Gabriella pensava, com um sorriso silencioso:
Se a seduçã0 não funciona… talvez o ciúme funcione.
E Magno, por dentro, sabia:
Aquilo estava deixando de ser controle.
E começava a ser perigo.
O corredor do resort estava silencioso demais para aquela hora da noite.
O carpete abafava os passos, e as luzes indiretas criavam sombras longas nas paredes claras. Gabriella caminhava — ou melhor, era conduzida — ao lado de Magno, apoiada nele com um peso que não era só físico. O braço dela estava firme demais em torno do dele, como se, mesmo alterada, soubesse exatamente onde se apoiar.
— Você está andando rápido — ela reclamou, rindo sozinha.
— Porque você não está andando — ele respondeu, sem perder a paciência, mas com a mandíbula tensa.
— Estou sim… só estou… leve.
Leve não era a palavra. O champanhe tinha dissolvido filtros, derrubado barreiras, soltado uma versão dela que Magno não reconhecia — ou que reconhecia demais e preferia ignorar.
Ao chegarem à porta do quarto, ela se apoiou na parede enquanto ele passava o cartão.
— Você ficou bravo lá embaixo — ela comentou, como se falasse do clima.
— Fiquei responsável — ele corrigiu.
— Sempre corrigindo — ela riu de novo. — Você é tão sério… às vezes eu queria que você fosse menos.
A porta se abriu.
O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz suave da varanda. O cheiro do perfume dela misturava-se ao ar frio do ambiente. Assim que entrou, Gabriella largou os sapatos num canto qualquer e caminhou até o centro do quarto, girando lentamente.
— Bonito — disse, olhando em volta. — Mas eu prefiro quando você fica nervoso, é bem mais bonito.
Magno fechou a porta atrás deles com mais força do que pretendia.
— Você bebeu demais. Vamos resolver isso agora e você dorme.
— Dormir é tão… chato — ela respondeu, sentando-se na beira da cama. — Quando a gente bebe, tudo fica mais fácil de dizer, não fica?
Ele ficou parado, a alguns passos de distância.
— Não diga nada agora que você vá se arrepender amanhã.
Ela inclinou a cabeça, observando-o com atenção excessiva.
— Você sempre acha que eu vou me arrepender.
— Porque você não está pensando direito.
— Ou talvez eu esteja pensando pela primeira vez sem medo.
O silêncio se esticou entre eles.
Gabriella respirou fundo e soltou, de repente:
— Eu nunca fiz nada com ninguém, sabe... Sou virg3m.
Magno sentiu o estômago afundar.
— Gabriella…
— Nunca — ela repetiu, como se fosse uma confissão engraçada. — E às vezes isso me deixa curiosa. Muito curiosa.
— Para — ele disse, num tom mais firme.
Ela riu, levantando-se devagar.
— Por quê? Eu não posso falar? Eu só estou dizendo que eu queria… — fez um gesto vago com a mão — …alguém de verdade. Alguém que não tivesse medo de me pegar com força, eu sonho com isso, sabia? Eu vejo aquele filmes p0rnôs, homens fortes, metend0 com força, eu quero isso, nada leve.
— Isso é a bebida falando.
Ela começou a puxar o zíper do vestido, não de forma sensu4l, mas descuidada, como quem não mede consequências. Magno virou o rosto imediatamente.
— Chega. Agora.
— Relaxa — ela riu. — Eu só quero tirar isso, tá me apertando.
— Não na minha frente.
O vestido caiu sobre a cadeira antes que ele pudesse reagir. Magno permaneceu de costas, respirando fundo, contando mentalmente.
— Você vai se arrepender disso amanhã — ele repetiu.
— Amanhã eu resolvo — ela respondeu, com leveza. — Agora eu só quero… parar de girar.
Ela levou a mão à boca de repente.
— Eu acho que vou passar m*l.
O tom mudou. O riso desapareceu.
Magno se virou na hora.
— Vem.
Ele a guiou rapidamente até o banheiro. Gabriella ajoelhou-se diante do vaso, o corpo inteiro cedendo, e Magno, sem pensar, ajoelhou-se atrás dela, segurando o cabelo com cuidado, afastando do rosto.
— Respira devagar — disse. — Vai passar.
Ela vomitou, o corpo tremendo, frágil agora, sem provocação alguma naquele momento específico. Mas a proximidade era inevitável, ele estava encaixado no meio das pernas dela, ela só de lingerie. O espaço pequeno, o silêncio quebrado apenas pelo som dela passando m*l, a posição desconfortável, mas que deixou Magno excitad0.
Ela se mexeu, buscando equilíbrio, se esfregando no p4u dele sem perceber — ou percebendo demais.
Magno fechou os olhos por um segundo.
— Gabi… fica parada.
— Desculpa… — ela murmurou. — Eu tô meio tonta.
— Eu sei.
Ele manteve a mão firme no cabelo dela, distante o suficiente para não cruzar nada, próximo o suficiente para cuidar. Cada segundo era uma batalha interna: proteger, se afastar, permanecer, sair.
Ela respirou fundo, apoiando a testa no vaso.
— Você sempre cuida de mim — disse, baixinho.
— É o meu papel.
— E se um dia eu não quiser mais esse papel?
Ele não respondeu.
Quando ela se levantou devagar, ele pegou uma toalha, molhou, limpou o rosto dela com cuidado extremo, quase clínico.
— Agora cama. Você precisa dormir.
Ela assentiu, mais quieta, finalmente vencida pelo cansaço e pelo álcool.
Magno a levou até a cama, ajudou-a a se deitar, cobriu com o lençol, ajustou o travesseiro. Antes de sair, ficou alguns segundos parado, observando-a respirar, a expressão agora inocente, distante de tudo o que tinha sido dito.
— Você não faz ideia do que está fazendo comigo — murmurou, para si mesmo.
Apagou a luz.
E saiu do quarto sabendo que aquela viagem estava longe de terminar — e que o controle, cada vez mais, estava por um fio.